Festival CURA transforma a Praça Raul Soares em espaço de descanso
Jornalista e escritora Márcia Maria Cruz, integrante da comissão criativa, apresenta os bastidores da edição 2026 do evento de arte pública
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Márcia Maria Cruz - Especial para o Estado de Minas
Sentar-se na praça para descansar, enquanto… Nos últimos tempos, você desacelerou sem se preocupar com produtividade ou com boletos? Se a resposta à pergunta for negativa, que tal parar e respirar? A convocação é do Circuito Urbano de Arte (CURA) 2026, um dos maiores festivais de arte pública da América Latina, que será realizado de 19 a 30 de agosto na Praça Raul Soares, na região central de Belo Horizonte.
A Praça Raul Soares foi transformada em ponto de observação das edições do festival em 2021, 2022 e 2024 e também será este ano. “A cidade é um organismo vivo, e a praça é seu coração pulsante", defendem Jana Macruz e Priscila Amoni, realizadoras atuais do festival. Na última edição, em 2024, o conceito norteador foi “Comunidades: infâncias, mulheridades e velhices”.
Nesta edição que se aproxima, a quarta e última a ser realizada na Raul Soares, a curadoria convoca o espectador a participar da construção do sentido do conceito: “Descansar enquanto”. “‘Descansar enquanto' é uma frase inacabada, um gesto em suspensão. Ela convoca o corpo e a cidade a desacelerarem juntos. Porque talvez o descanso hoje não seja um estado, mas uma prática em disputa”, afirma Priscila Amoni. O conceito vai ao encontro do pensamento defendido pelo escritor Ailton Krenak no livro “A vida não é útil”, em que faz crítica a uma sociedade baseada no consumo desenfreado que resulta na devastação da natureza. Uma sociedade capitalista em que tudo está a serviço do lucro em detrimento do bem viver.
A curadoria desta edição é da educadora e pesquisadora Luciara Ribeiro. Natural de Xique Xique (BA) e moradora de São Paulo (SP), Luciara desembarcou em Belo Horizonte para participar da construção do conceito norteador que pela primeira vez foi elaborado em um processo coletivo por um grupo formado por 11 convidados: Alex Bessas, Binho Barreto, Brisa Marques, Daru Tikuna, Ed Marte, Filipe Thales, Márcia Cruz, PDR, Priscila Musa, Vanessa Beco e Victor Diniz. Cada um foi convidado pela atuação, nas respectivas áreas, por contribuir para expandir os horizontes na capital mineira.
O festival se estabelece como o momento de acompanhar em tempo real a criação de arte pública, aquela que pode ser vista nos espaços urbanos de forma gratuita. E a cada edição, o festival se orienta por um pensamento sobre a ocupação da cidade.
Em 2021, o CURA deixou a Rua Sapucaí, no Bairro Floresta, na Região Leste da capital, onde foram realizadas as primeiras edições, em direção à Praça Raul Soares. Também conhecida pela juventude como Raulzona, abriga uma pluralidade: é território de pessoas LGBTQIA+, de pessoas em situação de rua. Recebe uma riqueza arquitetônica com o Edifício JK, de Oscar Niemeyer, e o próprio traçado da praça com estilo art déco e desenhos marajoaras no piso. Também é destino de manifestações culturais, como a Praia da Estação e blocos carnavalescos.
A curadoria destaca que o descanso não é a ausência da ação, mas a condição para que ela exista. Em um tempo marcado pela superexposição em que as pessoas estão exaustas, o festival quer ser um momento de respiro. A Raulzona, que se tornou lugar de passagem, será transformada em lugar de permanência. Um lugar em que todos podem desacelerar.
“Descansar enquanto…” é um conceito de festival para todos: para crianças, para pessoas idosas, para pessoas com deficiência, para as mulheres, para as diferentes juventudes. O CURA é um manifesto pela ocupação do espaço público pela arte e pela diversidade. Tem por trás uma ideia singela, mas muito potente: transformar a praça para transformar o mundo.
Nas edições na Raulzona, o CURA deixa de presente para cidade dez pinturas em empena, uma pintura em fachada, uma pintura no chão, uma instalação em empena, uma pintura mural, um lambe em fachada. Também foram realizadas nas edições anteriores quatro instalações temporárias na praça. Participar do CURA é, entendendo o trocadilho, é um processo de cura para cada um e para toda a cidade.
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MÁRCIA MARIA CRUZ, jornalista e escritora, integrou a comissão criativa do CURA 2026