Márcio Hilton Fragoso Borges completou 80 anos em 31 de janeiro. Tinha tudo para ser um dia de festa e comemoração. O destino pregou uma peça. Semanas antes (em 2 de novembro de 2025), ele perdeu o irmão e mais constante parceiro: Lô Borges. Em Minas, no país, a comoção foi imensa. Para o irmão mais velho, a dor é sem medida.
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“Pouco antes de acontecer a nossa tragédia familiar, do nosso Lôzinho se ausentar (meu bebê que mamãe tinha me dado de presente), ele me visitou aqui no sítio onde moro, em outubro. Na despedida, eu o abracei de forma anormal, e chorei muito, sem saber por quê. Pois aquela acabou sendo a última vez que vi meu irmãozinho amado. Por recomendação médica, não pisei no hospital, não pisei no velório e não pisei no cemitério. Minha tristeza desde então não tem tamanho. A falta que ele me faz não tem nome”.
É ainda elaborando esse luto que Márcio Borges — letrista de clássicos da música brasileira, coautor de um mundo chamado Clube da Esquina — acompanha o lançamento do álbum “A estrada”, só de parcerias com Lô.
Ao mesmo tempo, o compositor, letrista e escritor também se prepara para tomar posse, neste sábado (11/7), na Academia Mineira de Letras. Durante anos, recusou candidaturas. Desta vez, cedeu. Ele explica: “Fui convencido por amigos acadêmicos e alguns parceiros musicais que concorrer seria uma boa forma de lançar luzes sobre o trabalho de uma geração inteira, da qual eu seria um representante autêntico. Representante do cantor de baile e do músico da noite, representante do poeta da rua e de uma juventude ferida e amordaçada durante tantos anos, representante da voz popular e do cavaleiro marginal banhado em ribeirão. Fomos ao todo 11 candidatos. Dos 34 votantes, obtive 32 votos e hoje sou imortal por decreto, em ilustríssimas companhias”.
Na entrevista a seguir, Márcio fala de Lô, de Milton Nascimento, do Clube da Esquina, do disco lançado agora com o irmão, dos poetas e escritores que o influenciaram, da amizade com Paulo Leminski, e de alguns projetos realizados ou ainda por fazer (entre eles o livro “10 Encantos”, um único poema longo, que não saiu, mas talvez saia um dia). Seu mais recente lançamento foi o livro “8 Canoas para o Céu – O Santo do Sertão”(B&B Produções), em coautoria com sua filha, Helena Borges.
Uma geração de ouro, nascida no pós-guerra, na qual você está incluído, está completando 80 anos ou mais, como Caetano Veloso, Milton Nascimento, Chico Buarque, Jorge Benjor, Tom Zé, Gilberto Gil. No livro “Os sonhos não envelhecem: histórias do Clube da Esquina” (2006), você cita a frase do Paul Nizan: “Os maus tempos passaram, foram os melhores anos de nossas vidas”. O que significa para você fazer 80 anos, nesse contexto?
Considero-me um sobrevivente. Muitos amigos, inclusive três irmãos mais novos do que eu, não conseguiram chegar aqui. Na frente da minha mesa de trabalho tem um painel com fotos de amigos e parentes. Grande parte desse povo já se foi. Muito sem graça ficou esse painel com o passar do tempo. Continuo achando apropriada a frase do Paul Nizan. Os tempos de juventude, tempos de formação do caráter e da ideologia, duram uma eternidade que o jovem fica muito a fim de atravessar logo e, quando atravessa, puxa vida, mesmo que queira muito, não dá pra voltar. O futuro ficou curtinho.
Suas parcerias com Milton Nascimento e Lô Borges tornaram-se clássicas. Elas eram muito orgânicas e viscerais. Quais as principais diferenças entre compor com Lô e com Milton?
Quase tudo diferente. Tempos diferentes, vozes diferentes, melodias e humores diferentes, ritmos diferentes, harmonias diferentes, gerações e lugares diferentes, disposições e disponibilidades diferentes. Cada um é um, cada um mais complexo do que o outro. De semelhante temos o mesmo amor pela originalidade, a mesma disposição de aprendermos uns com os outros, a mesma relação declarada de amizade e admiração eterna entre nós.
Você tem nostalgia daquela época do Clube da Esquina se consolidando (sobretudo anos 70)? Como você vê hoje, retrospectivamente, aquele momento mágico e todas as feras que ele agregou e que influenciou tanta gente (por exemplo, os músicos americanos)? Você o considera “um movimento” (embora não tivesse o caráter assumidamente programático e de intervenção como a Tropicália, por exemplo?). Quais seriam as principais diferenças? Parece-me que a produção dos mineiros é mais introspectiva, mais jazzística, rumando sempre a uma profundidade, inclusive harmonicamente, melodicamente, até em termos de letras. Sem dizer do diálogo com o rock progressivo, por exemplo, com congado, folia de reis, um universo sonoro que ecoa o barroco mineiro, os sinos das igrejas, o apito dos trens, a vastidão das montanhas... indo além dos estereótipos da “Minas rural” para apresentar uma identidade complexa e múltipla. Edu Lobo acha-a muito mais sofisticada do que a Tropicália. Também pensamos que não há nada como ela no Brasil.
Vocês já disseram bastante nessa extensa explanação que não é bem uma pergunta, mas um apanhado de impressões daquele tempo. Bom, até hoje não sei dizer sobre essa coisa de influência, jazz, rock progressivo, congado, folia de reis, tropicália etc, porque a tal influência, muitas vezes, não proveio de uma canção, mas talvez de um harmônico que nem soou direito, mas cravou na memória, um detalhe do solo de flauta numa orquestra de sessenta músicos, um assovio ouvido de passagem, o ritmo das rodas do trem de ferro repicando no trilho. A gente ouvia de tudo, até esses nomes e gêneros que vocês citaram, a quem costumam nos associar, folclore, rock progressivo, música religiosa, jazz, Miles Davis, Beatles, esses todos. O que quase ninguém menciona é um monte de artistas que nunca são citados como “nossas influências”, mas que são certamente os que a gente mais ouviu naqueles dias: Tamba Trio, Os Cariocas, Meirelles e Os Copa Cinco, Sérgio Mendes, Tom Jobim, Johnny Alf, Jorge Ben, Dorival Caymmi, Edu Lobo, Chico Buarque, Henry Salvador, Michel Legrand, Georges Delerue, Bill Evans, Simon & Garfunkel, James Taylor, Carole King, Jerome Moross, Dimitri Tionkyn, John McLaughlin, Nina Simone, Mahavishnu Orchestra, Caetano Veloso. Posso afirmar que citei aí a maior parte do que ouvíamos com mais frequência. Éramos muitos artistas jovens, cada um procurando seu próprio lance. Toninho apaixonado por Wes Montgomery, Bituca (Milton) por Miles Davis, Lô por John Lennon, Tavinho por Zezinho da Viola, eu por Emerson, Lake & Palmer e por aí vai. Com tudo isso à disposição dos jovens curiosos e experimentalistas que éramos, procuramos transitar por essa estrada de forma original, iluminados por esses “postes” geniais que não só iluminavam nossa trilha, mas também nos convidavam a sair dela e darmos uns passeios no escuro.
No começo do livro "Os sonhos não envelhecem", você fala de músicas que compôs com Milton. Uma delas é "Terra". Ela chegou a ser gravada? Você se lembra de alguma história em especial envolvendo essas composições com o Milton, que não tenham sido narradas no livro?
A canção “Terra”, do Milton com letra minha, composta em 1965, foi censurada e nunca foi gravada. Foi apresentada uma vez ao vivo, muito antes do Milton ser famoso, num show no Clube dos Cadetes da Aeronáutica, anexo ao Aeroporto Santos Dumont, no Rio, em 1966:
Ter que viver só esta terra é morrer devagar
ver tanto chão e não ter terra é viver pra lutar
O pior é que essa canção não deixou muitos sinais nem no tempo, nem na memória. Ela tinha um falsete cantarolado muito lindo e alto, que sobreviveu à própria canção e deu origem a uma canção instrumental que eu e Bituca batizamos de “Das tardes mais sós” e foi gravada nos Estados Unidos como “From the lonely afternoons”, que não tem nada a ver com nossa canção “Tarde”, composta uns anos depois. Não lembro se esclareci isso no livro. Aliás, “Os sonhos não envelhecem”foi todo escrito em torno de uns quinze acontecimentos que se destacaram na minha amizade com o Milton. Evidentemente, em nossas extensas vidas couberam bem mais do que quinze eventos, concordam?
Por volta de 1967, o Fernando Brant o presenteou com o “Romancero gitano”, do García Lorca (você disse ter decorado partes inteiras dele). Você consegue identificar o que na poesia do espanhol influenciou suas letras? No seu trabalho com o Lô, há momentos em que essas influências aparecem de forma mais nítida (por exemplo, em “Para Lennon & McCartney” ou “Um girassol da cor de seu cabelo”). Outra grande influência em seu início como parceiro do Milton foi Mallarmé, não é? O que mais te atraiu nessa poesia? E de alguma forma ela também foi uma referência nas suas criações?
García Lorca foi uma das grandes influências da minha criação poética e este “Romancero gitano”, transcrito manualmente pelo Fernando Brant para me dar de presente no meu aniversário de 21 anos, foi, na verdade, minha grande iniciação poética. No mesmo ano, ganhei de um outro amigo um livro de bolso, “Ainsi parlait Zarathoustra”(“Assim falava Zaratustra”), do Nietzsche. Esses dois livros alugaram um duplex na minha cabeça durante aquele ano todo. Para começo de conversa, fui aprender espanhol para ler o primeiro e francês para ler o segundo. Em “Tudo que você podia ser” eu sinto um pouco a influência nietszcheana. Em “Gira-girou”, a do Lorca. Sei lá, é tudo meu. Quando eu achava que havia experimentado emoções demais com aqueles dois livros, outro amigo, morador do edifício Levy, me apresentou um terceiro, de um poeta, nada menos que Mallarmé, o Stéphane. Já bem melhor no meu francês, me apaixonei pelos tombeaux, poemas que ele criava para seus amigos, ou grandes poetas, já falecidos. Tombeau é tumba, túmulo. Em especial eu amava o “Le Tombeau d’Edgar Poe”:
Tel qu’en Lui-même enfin l’éternité le change,
Le Poète suscite avec un glaive nu
Son siècle épouvanté de n’avoir pas connu
Que la mort triomphait dans cette voix étrange!
(A Tumba de Edgar Poe “Tal que a Si-mesmo enfim a Eternidade o guia,/ O Poeta suscita com o gládio erguido / Seu século espantado por não ter sabido / Que nessa estranha voz a morte se insurgia!”. Tradução de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos em Mallarmé (São Paulo: Edusp, 1975).
Logo comprei as obras completas e decorei vários poemas. Anos depois, fiquei amigo do poeta curitibano Paulo Leminski, que ficou hospedado em minha casa em Santa Tereza, no Rio, por uns tempos. Ele também era doido por Mallarmé e líamos juntos o imortal “UN COUP DE DÉS (“Um lance de dados”), marco indelével da poesia moderna:
UN COUP DE DÉS
JAMAIS
N`ABOLIRA LE HASARD (etc)
Não sei dizer em que medida meus versos refletem alguma influência do Mallarmé. Não saberia apontar agora.
João Cabral de Melo Neto também foi outra referência importante, não é? Você já disse que foi com Milton Nascimento assistir à "Morte e vida severina" e que foi algo muito marcante para você. Além da peça, você acompanhava a produção poética dele também?
"Morte e vida Severina" me marcou muito mais pela apresentação teatral no teatro Tuca, em São Paulo, que eu e Bituca vimos juntos. Os versos ali cantados por uma juventude inflamada e emocionada eram geniais, exatos e fortes. Mas eu e o meu parceiro nos apaixonamos mesmo foi pelo Chico Buarque e sua música, que revestia tudo de uma aura de energia e positividade. Só muito mais tarde me tornei um admirador de João Cabral, mas nunca acompanhei de perto sua magnífica produção literária.
Além dessas que você citou, quais foram suas principais influências poéticas? Quem você lia? Quais os poetas que falam mais de perto com você (brasileiros e estrangeiros)?
Minhas duas maiores admirações no universo do verso são Carlos Drummond de Andrade e Vladimir Maiakóvski. Esses dois se destacam na planície dos gênios, igual duas sumaúmas numa floresta de árvores gigantes. Eu li, reli e tresli a maioria dos poetas que citei aqui. Reconheço um pouco de influência deles todos aqui e acolá, porque nenhuma originalidade é total, por mais que eu a tenha buscado. Mas, se tiver alguma delas mais acentuada e declarada certamente será a desses dois: Drummond e Maiakóvski.
Pode-se dizer que, na prosa, Faulkner, Proust e Guimarães Rosa são os autores mais importantes para você?
Posso dizer que estes três foram os deuses do meu panteão durante muito tempo. Mas, como a vida segue, outros autores galgaram muitos degraus na minha preferência, a começar pelos russos Dostoiévski e Tolstói, dois autores de minha juventude que reli e revalorizei. Passei a apreciar ainda mais alguns poetas de quem já gostava, como T.S. Eliot e Ezra Pound. Estou gostando muito de releituras e dessa forma me reaproximei de Miguel de Cervantes, Graciliano Ramos, Sinclair Lewis, Pedro Galvão e uns outros. Recentemente reli "Absalão, Absalão!" e "Santuário", de William Faulkner, claro.
Bernardo Pellegrini, compositor e jornalista de Londrina, também lembrou que Leminski foi para o Rio junto com a banda Blindagem, que você conheceu, e que o Polaco acabou ficando na sua casa. Fale um pouco sobre essa visita. Pode contar algum caso desse encontro? Como foi a recepção de Leminski e da Blindagem, paranaenses de Curitiba, entre o grupo mineiro?
O Leminski foi uma novidade muito boa na minha vida. Eu morava em Santa Tereza, no Rio, e era amigo de dois curitibanos, os jornalistas Toninho Vaz e Carlos do Nascimento João. Quando a banda curitibana Blindagem veio ao Rio para uma temporada de shows, meus amigos ajudaram na produção e descolaram hospedagem para os integrantes. Toninho ficou com um tanto na sua casa em Ipanema, Carlos João mais um tanto em seu apartamento em Botafogo, e desse jeito me coube hospedar Paulo Leminski lá em Santa Tereza. Comemos e bebemos muito, filosofamos e rimos o mesmo tanto. Numa madrugada, conversávamos sobre versos que eu havia escrito para a canção “Sempreviva”, composta com o Lô. Naquela parte que di: “já escrito assim na parede das celas”, o Paulo mandou: “Aqui o filho chora e a mãe não ouve”, clássico dístico de cadeia. Sem mais nem menos, ele pegou um pincel atômico e escreveu a tradução pro latim na parede do quarto: Hic filius lacrimat mater non audit. Muitos anos depois, Toninho Vaz escreveu a famosa biografia do Paulo, “O bandido que sabia latim" e eu testemunho que ele sabia mesmo. E sabia grego também. Certa noite dessa temporada carioca do Blindagem, eu e Toninho ficamos muito irritados com o grego do Paulo. Com ele e com outro gênio, o queridíssimo Antonio Cicero. Isso porque tínhamos saído para jantar no Baixo Leblon e lá estava o Antonio Cicero. Juntamos as mesas e tudo ia bem, até o assunto cair em Homero, "Ilíada", "Odisseia" etc. Paulo e Cicero começaram primeiro a discorrer sobre o aoristo e outros tempos verbais, depois passaram a conversar em grego e não havia quem os fizesse parar. Eu e Toninho saímos sem pagar e deixamos os dois lá, tagarelando em grego. Bendito aoristo!
Bernardo lembra também que raramente Leminski falava do Clube da Esquina. Fala de Milton, no máximo, mas fala muito mais de Caetano, Gil etc. Isso parece ter atingido até mesmo caras antenados como o Leminski. A contribuição dos mineiros ficou meio abafada, ninguém na imprensa, nos anos 70 sobretudo, parece ter tratado o Clube como uma revolução mundial, com a grandeza que ele tinha. Precisou fazer sucesso lá fora antes, chamar a atenção dos maiores músicos do mundo, pra atrair mais atenção aqui. O que acha desta questão?
Cara, eu e Bituca já fizemos shows de ficar olhando pela fresta da cortina para ver se havia chegado algum público. Em 1972 lançamos o hoje imortal "Clube da esquina" num teatrinho de bairro que mal cabia cem pessoas. E quase nunca lotava. Bituca cansou de soltar a voz em churrascarias e boates, sem se importar se quem pagou quis ouvir. O show de 1966 no Clube dos Cadetes, que contava com a fina flor da música mineira, não teve público. Ninguém foi ver. Eu e Bituca tivemos de ir ao refeitório dos cadetes e convidar um por um para ver um show, de graça, sem pagar nada, só pra ter algum público. Uns quinze cadetes toparam ir e a gente fez um senhor show só para eles. Milton Nascimento, Wagner Tiso, Nivaldo Ornelas, Marilton e Márcio Borges, Hélvius Vilela, Paschoal Meireles, Paulo Braga, Toninho e Paulo Horta, Aécio Flávio, Ildeu Lino, naipe de metais, o melhor da música mineira de então. Zero público voluntário. Quinze piedosos cadetes aplaudindo com entusiasmo. O Bituca, desde esses dias, vaticinou: "Nossa música vai ser entendida e fazer sucesso só daqui a cinquenta anos". Por nós, cinquenta anos, tudo bem. Nós mesmos fomos o nosso primeiro e principal público esse tempo todo. Bituca acertou mais uma. Hoje, a gente recebe homenagens e honrarias. Os cavaleiros marginais viraram paladinos da cultura nacional. Muito irônico.
Você acompanha a MPB ou a música brasileira produzida hoje?
Não acompanho mais a produção musical de nenhum lugar. Aos 80 anos, estou numa fase de mergulhar nos clássicos, Mahler, Debussy, Eric Satie, mantras indianos, alguns modernos tipo Leonard Bernstein e Jerome Moross. Tento colocar minhas próprias inspirações na pauta, estudo sozinho orquestração, mais por brincadeira e passatempo de idoso em plena posse de sua memória e saúde mental. Só que ainda produzo minhas parcerias de letras com a juventude musical, aquela que mostra uma qualidade parecida com os valores que cultivo e que me procura (porque eu não posso me oferecer): Luiz Gabriel Lopes, Danilo Mesquita, Rodrigo Borges, Diana HP, Ian Guedes, gosto muito de compor com esses jovens.
Como era o processo de composição entre você e o Lô? Qual a química entre vocês? Tem algumas lembranças interessantes de como algumas músicas aconteceram que você podia contar pra gente? Aqueles momentos mais emblemáticos, mágicos?
Quando o Lô nasceu eu tinha 6 anos de idade e mamãe já tinha cinco filhos. O bebê era a coisa mais bonitinha da família, lembro até hoje do "zezinho orelhudo", como Marilton, nosso irmão mais velho, caçoava ao vê-lo no berço. Como se fosse a coisa mais natural deste mundo, um dia eu pedi para mamãe me dar o Lô de presente, para ele ser só meu, já que ela tinha tantos. Dona Maricota, bem-humorada como sempre, me "deu" o Lô: "Claro! Pode levar. É seu". Passei um ano inteiro acreditando nisso. Aos 7, desisti de ser dono de qualquer coisa. Enquanto eu compunha minhas coisas com o Bituca, o Lô ficava rodeando. E o Bituca dando força, "deixa o menino tocar!" E Lô arregaçava o violão do outro. "Como é que ele vai aprender se você não deixa ele tocar?", dizia o Bituca quando eu ia tentar defender o violão dele. Então, larguei pra lá e o Lô pôde virar um gênio da composição arrebentando as cordas do violão do Bituca. Depois mamãe e papai compraram um piano e deixaram na sala, pra quem se aventurasse. Todos se aventuraram, até eu. Então, meu processo de criação com o Lô era mais ou menos isso, ele batucando o piano da sala e eu sentado perto com lápis e papel na mão, na convivência de irmãos que dividiam o mesmo quarto. Depois, o tempo passou, cada um tinha seu próprio bonde pra tocar, entramos naquele esquema de fita-cassete e, mais depois ainda, mp3. Uma ou outra ainda continuaram sendo feitas presencialmente. De qualquer forma e a qualquer distância, nós nos tornamos os principais parceiros um do outro: 70% da obra de cada um.
O que há de misterioso e belo dos bastidores da parceria entre vocês, e nas parcerias em geral? Essa união musical (harmonia e melodia) e letra tem que estar em perfeita simbiose, não é? Vocês tiveram casos de músicas complicadas de serem resolvidas, ou que receberam várias versões até se chegar a uma? Quando vocês sabiam quando uma música estava pronta, completa, perfeita?
Lembro do Bituca dizendo: "uma música não está pronta nem depois de gravada." E deu prova do que falava, regravando vários sucessos seus e nunca de forma semelhante à outra. Eu e Lô nunca fomos tão perfeccionistas, éramos mais compulsivos e quisemos levar a fundo aquilo que nós mesmos inventamos: "De tudo se faz canção". Cantamos a roça, a cidade, os povos originários, os amores, os namoros, as utopias, as frustrações, as grandes aventuras e as tristezas da vida, cantamos o rio e o ribeirão, a pedra e o vento, a mãe e o pai, a natureza e o espaço, a revolta e a paz. Cada canção foi única no seu encantamento e deixou gravado dentro de nós dois aquele momento especial em que ela veio ao mundo.
O Lô dizia que você é seu principal parceiro, desde a primeira música que ele fez, com 14, 15 anos de idade. Nos discos dele, sua presença é sempre marcante. Em 2021, o Lô já havia lançado "Muito além do fim", só com letras suas, e em alguns discos anteriores dele a sua presença como letrista é majoritária. E o disco lançado no início de junho, "A estrada"? É um disco conceitual?
"A estrada" é nossa despedida. Já era para ser, mesmo antes de compormos. Eu havia explicado para o Lô que eu já não possuía aquela energia de compor dois álbuns novos por ano, que eu estava meio que desistindo de ficar fazendo letra de música até morrer. Ele, sem perder um pingo da própria compulsividade, me disse que tudo certo, que ele continuaria a compor no ritmo dele e procuraria novos parceiros. Não era para ser o fim definitivo da nossa parceria, mas uma pausa na compulsão de ficarmos compondo um com o outro sem parar. Além de tudo, estávamos em isolamento, separados por 480 quilômetros, em plena pandemia. Então, imaginamos nossa trajetória como uma estrada e resolvemos falar dela, num clima bem pop, bem roqueiro, nada que lembrasse uma despedida. Um inventário do percurso, da primeira Pousada à Última Parada, ponto em que um dos personagens desce do caminhão e continua a pé o resto da jornada, até alcançar a "Chegada", última canção do disco, com letra do próprio Lô e que fala da nossa casa, onde ele nasceu e cresceu.
Em 2023, foi apresentada, pela Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, no Parque Municipal, a obra sinfônica "Suíte do Cigano", sua estreia na música clássica, em parceria com a maestrina Claudia Climberis. São nove peças com cerca de 40 minutos de duração. Como foi essa experiência? Essa suíte está disponível para os ouvintes em algum meio físico ou digital?
Esta experiência faz parte daqueles estudos autônomos de orquestração a que me referi antes. Durante a pandemia, por imposição do isolamento compulsório, e por ter tempo disponível, escrevi esta suíte experimental, cheia de erros e imperfeições, obviamente, para um autodidata. Ainda bem que sou amigo de muitas décadas da maestrina e professora Claudia Cimbleris, que teve a paciência e a didática de transformar minhas ideias rústicas em pautas legíveis para uma orquestra e sons compreensíveis para um público generoso. A apresentação da "Suíte" pela Orquestra Sinfônica no Parque Municipal infelizmente não foi gravada, a não ser o som-guia do palco, que não tem qualidade de reprodução. Além disso, ninguém se comoveu com este fato, nenhuma entidade pública ou cultural, nenhum apoiador. Consequentemente, nada a oferecer aos ouvintes e interessados em geral. Sinto muito.
O livro de poemas bilíngue "Discourses of the Lower Self / Discursos do Eu Inferior" já foi publicado? Por qual editora sai ou sairá?
Este livro eu escrevi praticamente de um fôlego, como se diz. Tinha acabado de reler no original os "Four Quartets" ("Quatro Quartetos"), do T. S. Eliot, depois de muitos anos, e com muito mais conhecimento da língua inglesa. Foi tipo uma porta se abrindo. Na minha cabeça começaram a surgir versos longos, de ritmos hipnóticos, quero dizer, guardadas as quase infinitas proporções neste caso, versos à maneira do poeta de Missouri que morreu na Inglaterra, declamados em minha cabeça em inglês, de forma recorrente e compulsiva. Fui escrevendo. Demorei uns três dias. Quando cheguei ao fim, gastei cinco vezes mais tempo para verter aqueles versos "doidões" para nossa língua pátria. Agora, vou publicá-lo em breve, com ilustrações e fotomontagens do artista gráfico Kélio Rodrigues, amigo do Clube da Esquina de longa data, autor de capas de discos de Milton e de Lô. Será publicado pela editora de minha mulher Cláudia Brandão e de minha filha caçula Helena Borges, a B&B Produções.
Você é o idealizador e diretor do Museu Clube da Esquina. Em que pé está o processo de definir um local para o museu? Como é preservar a memória de algo que ele mesmo ajudou a criar, e o que ainda falta resgatar ou recuperar?
Esta foi uma ideia à qual dediquei nove anos seguidos da minha vida. Chegamos a fazer muitas coisas, colher muita documentação e ter uma associação de amigos funcionando por quase uma década. A importância de guardar e catalogar memórias é obviamente um serviço importante, não importa de qual área elas sejam recolhidas e guardadas. Olhem o Museu da Pessoa para visualizar o que estou dizendo. A pessoa merece ter sua história contada e suas memórias coletadas. Para mim é óbvio isso. No caso do Museu do Clube da Esquina, tem um bocado de acervo sob custódia da UFMG e um longo trabalho pela frente para quem se dispuser a fazê-lo. Nesse projeto, meu tempo venceu.
Você viveu intensamente o período da ditadura militar, em que, mesmo com a opressão do regime de exceção, havia um senso do coletivo. Como você avalia a época atual, em que se diz haver uma crise de utopias, de projetos coletivos, uma superficialidade maior? Em uma de suas composições com o Lô, há o verso "Não tem guru pra ninguém".
Eu testemunhei o humanismo definhar e morrer, enquanto ideologia de vida, enquanto princípio dialético, até enquanto princípio estético e ético. Vi as revoluções populares sucumbirem à ganância de indivíduos, vi a sociedade humana reduzir o ser humano a algoritmos e dados abstratos, sem vida. Vi coisas e práticas hoje consideradas normais que seriam consideradas abjetas na minha juventude. A consequência mais óbvia, para mim, é esse emburrecimento maciço, essa estupidificação ilimitada das pessoas, a cegueira seletiva, a ignorância prepotente amparada na força bruta, a selvageria camuflada de evangelismo e santificação.
Como será a cerimônia na AML
A posse de Márcio Borges na Academia Mineira de Letras ocorrerá às 11h deste sábado. Ele ocupará a cadeira 29, na sucessão de José Fernandes Filho. O discurso de recepção ao novo imortal da AML será proferido por Ângelo Oswaldo. Rogério Faria Tavares entregará diploma e Ailton Krenak, o distintivo da Academia. A cerimônia é restrita a convidados.
Eles por ele
A pedido do Pensar, Márcio Borges define, em uma palavra ou uma frase, nomes marcantes de sua vida:
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Milton Nascimento – "Minha alma gêmea"
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Lô Borges – "Meu irmão, eu sou como você é"
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Elis Regina – "Amiga da Maricota"
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Fernando Brant – "Coração americano"
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Tom Jobim – "Amigo do Ronaldo"
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Chico Buarque – "Ídolo de minha juventude"
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Caetano Veloso – "Underrated genius"
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Ronaldo Bastos – "Socorros Costa" *
* No livro "Os sonhos não envelhecem", Márcio Borges explica a origem dos nomes citados na resposta: "Socorro Costa, no singular, era a empresa de guincho situada na avenida Antonio Carlos. Socorros Costa, no plural, foi o apelido que Ronaldo Bastos deu aos 'guinchos' poéticos que a gente utilizava, no plural porque se estendia também ao Murilo Antunes."
FABRÍCIO MARQUES é poeta e jornalista, autor de Fora do alcance da memória (ed. Martelo), entre outros.
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RODRIGO GARCIA LOPES é poeta, romancista, tradutor e compositor, autor de O enigma das ondas (poesia) e O trovador (romance), entre outros.
