POESIA

Primeira leitura: 'Nada além de flores', de Stefanie-Lahya Aukongo

Nascida em Berlim, a poeta e ativista negra apresenta poemas sobre sua vivência e identidade em uma obra que rompe fronteiras e cura

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“Buscando apartamento”

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A pele em que habito

Coberta de saudade

A pele em que habito

Encontrando a língua do sentir

Profunda feito ferida de coração

A pele em que habito

Nunca abandona meus afetos

A pele em que habito

Longe, Longe, perto

A pele em que habito

Mais colorida que o preto

“Perguntas para respostas”

Existem poucos poemas

da minha gente

pouquíssimos

E nenhuma história

Porque as letras se afogam

se afogaram

no mar

O mar morto está em toda parte

Gritos de afirmação de vida

Da fundura mais profunda

Só se curam sob a luz da ancestralidade

Tempestade furiosa na superfície

Silêncio na profundeza

O silêncio que precede o silêncio

Viver

Não é para todo mundo

Viver,

só quem morre pode viver,

diz quem sobrevive

Por que você escreve

as histórias da sua gente?

Porque preciso

coletá-las

pescá-las

Letra

por letra por letra

Tirá-las do mar

Do fundo do (a)mar

*

“Poesia”

Poesia embriaga

Faz (a gente) vaguear

Pensamentos dançam

Bem singelos

Bem ternos

Palavras ganham asas

E o silêncio entre as linhas é então preenchido

Poesia abre portas e janelas

Farpas e

Vislumbres

Cada palavra é uma viagem cheia de alma

Poesia ajuda a aguçar a liberdade em si mesma

Ela é quieta

É barulhenta

É real

É brutal

Ela embriaga

Ela é minha

Poesia é minha língua.

SOBRE A AUTORA E O LIVRO 

Nascida em Berlim em 1978, a poeta Stefanie-Lahya Aukongo representa uma tradição de literatura de autoria negra na Alemanha. “Grávida, a mãe namibiana de Lahya Aukongo foi levada à Alemanha Oriental para tratamento médico, após ter sido gravemente ferida durante a Batalha de Cassinga, em Angola, em maio de 1978. Aukongo nasce em setembro do mesmo ano com sequelas de estilhaços de granada e fica aos cuidados de uma família de acolhimento alemã. Em 1980, a criança e sua mãe são deportadas para Angola, mas, ainda doente, Aukongo volta a Berlim em 1981 para seguir com o seu tratamento, cres cendo, assim, na Alemanha. Em 2009, publica sua autobiografia – Kalungas Kind [Criança de Kalunga] –, narrando sua história”, conta Gislayne Tavares, na apresentação da edição brasileira. 

Além da poesia, Stefanie-Lahya fotografa e faz curadoria do One World Poetry Night, em Berlim, onde poetas se apresentam em encontros destinados à Spoken Word (poesia oral). Para Gislayne Tavares, a tradução de “Nada além de flores” para o português “é de extrema importância, porque permite a expansão de diálogos entre poéticas diaspóricas contemporâneas. Desde o meu primeiro contato com os textos de Aukongo, percebi que existia muito de escrevivência ali. Esse conceito de Conceição Evaristo joga com as palavras “escrever”, “viver”, “ver-se” – escrita e vivência. Nesse sentido, a escrita de experiências da diáspora nunca é somente individual; elas emergem de vivências de um povo”, afirma a especialista. 

“Por isso, quando Aukongo poetiza suas experiências de racismo, seus processos de cura pela poesia ou o reencontro com sua ancestralidade, isso me toca profundamente – a mim, mulher negra da periferia de Guarulhos, São Paulo”, afirma a graduanda em letras (português e alemão) pela Universidade de São Paulo (USP). “A poética de Aukongo rompe fronteiras nacionais alemãs e dialoga com todas as diásporas, mesmo as de fora do continente europeu. E as intromissões poéticas de ‘Nada além de flores’ atravessam sujeitos diaspóricos de todo o Brasil, e sei que o fazem com uma potência curativa”, complementa Gislayne, ao refletir sobre a obra da escritora, poeta e ativista namibiana-alemã. 

No início da semana, a autora apresentou o livro em eventos realizados em São Paulo e em Brasília. 

“NADA ALÉM DE FLORES”

De Stefanie-Lahya Aukongo

Tradução de Jess Oliveira e Raquel Alves

Relicário Edições

120 páginas

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