Primeira leitura: "No ano de 2040: poemas em russo", Valério Pereliéchin
Entre Rússia, China e Brasil: a trajetória única de Valério Pereliéchin em nova edição
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“A ciência da delicada paixão”
Os complacentes jovens brasileiros:
Vou me dar muitíssimo bem com eles,
E bonitões escolherei com zelo
Para aprendizes: coristas, eleitos.
És mais velho: roupas não vão te seduzir,
Nem a foto (“montado num canguru”),
E devo, se quiser vencer o jogo,
Com todo o cuidado no palco subir.
Tu não pensas mais como um moleque,
Por que, então, em palavras desabrocho,
Com o logro enfadonho te provoco?
E à noite, pr’a fortalecer o enleio,
Com tentação já testada em mulheres,
Ovídio procuro e releio?
(17 de maio de 1978)
*
“Sobre a decadência”
Oh, Senhor, sem desvairar,
Não poupe só o plano da razão –
O elástico e obtuso vão
Onde as trevas tremerão e a luz definhará.
Que desapareça o saco sem fundo,
Onde o gracejo se chama verdade,
E a verdade pura, batida piada,
Guarda-se nos galpões da literatura.
Purifica-me da avara fama,
Lembranças em Sodoma queima na chama
E reduza tuas cinzas ao olvido,
Para que a cautela seja superada,
Não em meus olhos ou débil ouvido,
E me torne, no eterno reino do Espírito, nada.
(11 de março de 1986)
*
“Graus”
Cores mais pálidas, sons mais sutis,
E o mundo inteiro mais avaro e frio.
Graus de comparação não são necessários,
Para falar do incomparável suplício.
Separação e mais separação –
Desgraça e mais desgraça? Que fazer?
Pois o sombrio, mais sombrio não pode ser,
Abecê da ciência: sem discussão.
Tu, longe, singularíssimo meu,
Curvadíssimo pelo inverno mais terrível,
Executadíssimo no cadafalso nacional,
Eu, no teu recentíssimo destino -
No superlativo, vergonhoso grau –
No dia mais sombrio, soluço por ti.
(2 de outubro de 1972)
*
“Discórdia”
Há muito não discutes com o destino,
e os teus resmungos - no íntimo “tu” – são discórdia consigo
no lugar da família que não veio ao mundo.
Resmungas: – “Já está na fase decisiva
a tua vida condenada,
como orquídea que agoniza
em um vaso apertada.
Então beba pelas belas jovens,
pelos meigos nomes
(passou uma ainda ontem,
sob o guarda-chuva, de galochas gozadas).
Lá é um grande espetáculo,
mesmo assim toma cachaça
para não ter de trocar farrapos
por urze e absinto das estepes”.
*
“Sonho”
Um pinheiral siberiano
vi num sonho entre a cerração:
grandes bicos de tucanos
e papagaios em profusão.
Lá os macacos gritavam,
moíam a casca os pica-paus.
E eu sem pesar vagava
no brasileiro-russo pinheiral.
Acariciava com olhar terno
a terra mansa e hospitaleira,
com um urso russo por perto
aquecia-se uma anta brasileira.
Esvoaçavam sobre o salgueiro os colibris,
sobre a jazida de relva sufocante,
onde pensava em tirar um cochilo
uma jiboia preguiçosa e deslumbrante.
Não é de fato a melhor tática?
Não escolher, não modificar,
mas neste zoológico enigmático
os dois mundos combinar.
SOBRE O AUTOR
Poeta, ensaísta e tradutor russo-brasileiro, Valério Pereliéchin (Valério Frántsevitch Salátko-Petríshche) nasceu em Irkutsk (Rússia) em 1913, e morreu no Rio de Janeiro em 1992. Antes de vir ao Brasil, Pereliéchin emigrou para a China em 1920, onde viveu até a década de 1950, quando tentou emigrar para os EUA com medo da revolução comunista chinesa, mas por ter traduzido para o governo soviético não foi capaz de obter um visto e acabou chegando ao Brasil e, em 1958, obteve a cidadania brasileira. Publicou, em vida, pouco mais de uma dúzia de livros de poemas, principalmente em russo, mas também em português. Além de contribuir para diversos jornais internacionais da diáspora russa, publicou traduções em russo de poesia brasileira e chinesa, assim como traduções de poesia russa em português. Além de lançar “No ano de 2040”, a editora Jabuticaba reedita, do mesmo autor, “Nos odres velhos” (132 páginas, R$ 55), com apresentação de Ricardo Domeneck. A primeira edição foi publicada em 1983 pela editora Achiamé.
Um autor entre mundos
Marcelo Freddi Lotufo - Especial para o EM
A escolha dos autores que permanecem no horizonte da crítica e continuam sendo lidos e estudados após suas mortes é marcada pela historicidade e idiossincrasias de quando e como estas obras foram publicadas, assim como pelas pautas de interesse de cada momento. Em outras palavras, o cânone está sempre em movimento e não precisa perpetuar exclusões do passado no presente. O papel das pequenas editoras como a Edições Jabuticaba passa, em grande parte, por facilitar e fomentar estas atualizações, abrindo novos caminhos para autores e autoras via tradução e novas edições, enquanto grandes editoras se preocupam em alimentar o mercado. Publicar a poesia de Valério Pereliéchin em 2026 é, de certa forma, participar desta dança, reapresentando ao leitor e à leitora brasileiros um autor com uma trajetória única que não se enquadra nas expectativas usuais da nossa literatura, mas, ao mesmo tempo, é emblemático do período em que viveu e escreveu.
A história de Pereliéchin e sua vinda para o Brasil em 1953, por si só uma jornada cinematográfica, com fugas movidas tanto pela Revolução Russa de 1917 como pela Revolução Chinesa de 1949, e marcada pelas tensões da guerra fria, já mereceria atenção, mas é a sua poesia escrita entre línguas e continentes, que o torna uma figura realmente única nas nossas letras. Os dois livros que publicamos do autor buscam, de alguma forma, dar conta desta trajetória e permitir uma nova avaliação do seu trabalho. “Nos odres Velhos”, livro publicado por Pereliéchin em 1983, na pequena editora Achiamé, apresenta uma poesia curiosa, escrita em português a partir de formas fixas, e explorando o desejo homoerótico do poeta e a sensualidade do Rio do Janeiro, em anos de ditadura militar.
Em “No ano de 2040”, publicamos, organizada por Bruno Gomide e traduzida por Letícia Mei, uma seleção da poesia de Valério escrita em russo, que circulou em periódicos e editoras da diáspora russa mundial, mas que ainda não havia sido traduzida e publicada no Brasil. Bruno Gomide, em seu posfácio, explora como a relação conturbada de Pereliéchin com Boris Schnaiderman, figura central para a cultura e tradução de literatura russa no Brasil, teria dificultado sua integração e circulação no país. Finalmente, entretanto, sua poesia russa chega ao leitor brasileiro. Preocupado com questões da diáspora, a permanência de certas formas tradicionais na poesia russa, e menos sensual que sua poesia escrita em português, o livro apresenta outro lado deste autor que viveu entre mundos. A questão que fica, agora, para leitores e estudiosos, é como integrar este autor tão diverso, cosmopolita contra sua própria vontade, também à literatura brasileira. A importância de sua publicação está em, ao menos, permitir que esta conversa aconteça, ainda que trinta anos após a morte do poeta.
MARCELO FREDDI LOTUFO é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo e editor nas Edições Jabuticaba
“No ano de 2040 (Poemas em russo)”
De Valério Pereliéchin
Apresentação, tradução e notas de Letícia Mei
Seleção de Bruno Barretto Gomide
Edições Jabuticaba
168 páginas
R$ 60
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