POESIA

Primeira leitura: 'Adriano', de Tatiana Faia

Autora revela como três ou quatro imagens podem salvar uma vida inteira do esquecimento, transformando fantasmas da história em presença real

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RUA ADRIANO

1.

cinquenta anos 
é a conta que separa 
a destruição de uma cidade da roma antiga 
na baía de nápoles durante a erupção de um vulcão 
do afogamento talvez acidental de um rapaz 
estrangeiro num dos rios do império 

desastres em maior e menor escala 
estão agora a séculos de distância 
de alguns meses de poeira, poluição 
e croissants de chocolate 
no café da manhã 
com um par de soldados que chegaram atrasados 
para se alistarem na guarda do pretório 
a dançar na distância 

onde a visão desaparece dentro da cegueira 
e os gela num azul quase negro 
quase o estilhaço de um negativo fotográfico 
em que eles continuam a se mexer
vê como esticam os braços 
no ar da manhã e os pés traçam 
uma linha invisível no chão 
estes rituais já cá estavam 
muito antes de eles terem chegado 
vestidos nos seus uniformes negros 
com as altas golas azuis-escuras 
delineadas a vermelho por causa 
da memória do sangue 

é a vez deles serem os fantasmas da história 

a tua virá mais tarde 

mas agora alguma coisa de ti ou de mim 
viaja para lá das sombras 
que seguimos até estas ruas 
o diminuto fragmento de uma memória 
já só impressão 

que nos trouxe até aqui se o que é preciso lembrar 
não é muito nem é sequer da ordem da biografia 
bastam três ou quatro imagens 
às quais se regressa como quem volta à atmosfera 
depois da força do mar te puxar até ao fundo 
e a memória dos olhos dele ter ficado 
sepultada em profundidade entre as algas 
na memória líquida de um imperador 
algures entre um catálogo de imagens 
de palácios na ibéria e crocodilos no nilo 

é essa memória que enche agora todas as salas 
onde tens estado 
mesmo ao entrar no mausoléu do imperador em roma 
o primeiro nome que te ocorre é o do rapaz 

estive vivo poucas vezes 
penso que é o que concluiu adriano no fim
e para estar vivo esta talvez seja 
a suspeita mais necessária 
a que se acrescente talvez apenas esta 
andei em tempos à procura 
das coisas que estão para lá 
do que podia ter previsto mas agora espero 
que uma só imagem 
faça voltar toda uma estação da minha vida 

espero enfim com alegria 
tudo o que com certeza me desapontará 

acho que este reconhecimento não tem arte 
mas deve ser maturidade de estilo 
para poetas 

Sobre a autora e o livro


Tatiana Faia nasceu em Portugal, vive e trabalha na Inglaterra e, sempre que pode, retorna à Grécia. Especialista em literatura clássica, é autora de sete coletâneas de poemas e um livro de contos. Traduziu para o português obras como os “Hinos” homéricos, vários títulos de Anne Carson, “O monograma”, do Prêmio Nobel Odysseas Elytis e “Bartleby”, de Herman Melville. É uma das editoras da revista online e editora independente Enfermaria 6. Semifinalista do Prêmio Oceanos, “Adriano” foi publicado pela primeira vez em Portugal em 2022, na Grécia em 2023 e chega ao Brasil em lançamento da Editora 34.

“Adriano”

De Tatiana Faia
Coleção Poesia
Editora 34
96 páginas
R$ 59
Lançamento em BH com a autora em bate-papo com Sabrina Sedlmayer na próxima quarta-feira (13/5), às 18h30, na Livraria Quixote (R. Fernandes Tourinho, 274, Savassi).

 

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