POESIA
Primeira leitura: 'Adriano', de Tatiana Faia
Autora revela como três ou quatro imagens podem salvar uma vida inteira do esquecimento, transformando fantasmas da história em presença real
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09/05/2026 04:00
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RUA ADRIANO
1.
cinquenta anos
é a conta que separa
a destruição de uma cidade da roma antiga
na baía de nápoles durante a erupção de um vulcão
do afogamento talvez acidental de um rapaz
estrangeiro num dos rios do império
desastres em maior e menor escala
estão agora a séculos de distância
de alguns meses de poeira, poluição
e croissants de chocolate
no café da manhã
com um par de soldados que chegaram atrasados
para se alistarem na guarda do pretório
a dançar na distância
onde a visão desaparece dentro da cegueira
e os gela num azul quase negro
quase o estilhaço de um negativo fotográfico
em que eles continuam a se mexer
vê como esticam os braços
no ar da manhã e os pés traçam
uma linha invisível no chão
estes rituais já cá estavam
muito antes de eles terem chegado
vestidos nos seus uniformes negros
com as altas golas azuis-escuras
delineadas a vermelho por causa
da memória do sangue
é a vez deles serem os fantasmas da história
a tua virá mais tarde
mas agora alguma coisa de ti ou de mim
viaja para lá das sombras
que seguimos até estas ruas
o diminuto fragmento de uma memória
já só impressão
que nos trouxe até aqui se o que é preciso lembrar
não é muito nem é sequer da ordem da biografia
bastam três ou quatro imagens
às quais se regressa como quem volta à atmosfera
depois da força do mar te puxar até ao fundo
e a memória dos olhos dele ter ficado
sepultada em profundidade entre as algas
na memória líquida de um imperador
algures entre um catálogo de imagens
de palácios na ibéria e crocodilos no nilo
é essa memória que enche agora todas as salas
onde tens estado
mesmo ao entrar no mausoléu do imperador em roma
o primeiro nome que te ocorre é o do rapaz
estive vivo poucas vezes
penso que é o que concluiu adriano no fim
e para estar vivo esta talvez seja
a suspeita mais necessária
a que se acrescente talvez apenas esta
andei em tempos à procura
das coisas que estão para lá
do que podia ter previsto mas agora espero
que uma só imagem
faça voltar toda uma estação da minha vida
espero enfim com alegria
tudo o que com certeza me desapontará
acho que este reconhecimento não tem arte
mas deve ser maturidade de estilo
para poetas
Sobre a autora e o livro
Tatiana Faia nasceu em Portugal, vive e trabalha na Inglaterra e, sempre que pode, retorna à Grécia. Especialista em literatura clássica, é autora de sete coletâneas de poemas e um livro de contos. Traduziu para o português obras como os “Hinos” homéricos, vários títulos de Anne Carson, “O monograma”, do Prêmio Nobel Odysseas Elytis e “Bartleby”, de Herman Melville. É uma das editoras da revista online e editora independente Enfermaria 6. Semifinalista do Prêmio Oceanos, “Adriano” foi publicado pela primeira vez em Portugal em 2022, na Grécia em 2023 e chega ao Brasil em lançamento da Editora 34.
“Adriano”
De Tatiana Faia
Coleção Poesia
Editora 34
96 páginas
R$ 59
Lançamento em BH com a autora em bate-papo com Sabrina Sedlmayer na próxima quarta-feira (13/5), às 18h30, na Livraria Quixote (R. Fernandes Tourinho, 274, Savassi).