Primeira leitura: 'A cidadania das bonecas de pano', de Ricardo Domeneck
Radicado em Berlim, escritor fará lançamento de novo livro em BH no próximo sábado
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A Victor Heringer, que me volta em sonhos
Não sei por que motivo, dentre os mortos,
seja você quem retorne em sonhos.
Nos pesadelos apocalípticos, quando fujo
com a família
de meteoros e guerras armagedônicas,
meu pai jamais está entre nós
para ajudar a empurrar a carroça,
carregar os apetrechos:
segue morto
mesmo naquele filme particular
que minha mente dirige.
E, se dirige, como escolhe seu elenco?
Naqueles em que você retorna, há alegria.
Neste mais recente, você
não havia morrido. Estava no Norte,
a espera de que retornassem as chuvas.
Choveu então muito, e você voltou.
Veio também uma porca. Ambos sorriam.
Primeiro abracei você. Depois, a porca.
*
Figura de um homem
Um homem, de pé — e com os pés, os
seus, próprios, e descalços, importante
é que estejam descalços — semente
desse poema — seus pés, baixando-se
ou erguendo-se de calças, enroladas
ou cortadas — acima, abaixo dos torno
-zelos expostos, engrossando de seu
fermento de homem, másculos — caules
de bananeira — e com suas tatuagens,
feito jabuticabas num tronco, que o
escurecem — pernas que crescem, e
erguem do chão o homem — homem,
seus pés, e pernas, e seu copo de leite
*
Seus pés: perfeitos, alguém diria, ana
-cronicamente: de alabastro; não,
de mármore; de cobre; de barro — pós
-edênico ou pré-adâmico, a imagem,
a semelhança de um deus antropo
-mórfico, um homem, só esse homem:
sobre soleiras, sob umbrais, seus ombros
de busto, sua sombra sob si, as portas
que o comportam, a casa, a sua casa
onde corre seu filho, o desse homem, das
coxas — as suas — saído, coxas que se
entroncam de joelhos; amortecem o peso
de sua massa de homem, pós-mulher
*
Homem, em sua casa, entre suas portas,
de pé sobre o seu piso, seu chão, e pa
-lavreia sua planta, a planta de sua casa
e a planta dos seus pés, onde vive ele
com a mulher, e o fruto do ventre da mulher
e fruto da semente de suas coxas, o filho
que se enfolha ante pai e mãe, a fruti
-ficação múltipla das ordens de um deus,
não o Deus, mas este deus: esse homem,
essa mulher, esse filho; nessas folhas
da planta da casa, as portas: das quais
também se diz ter folhas, esse homem:
fruto do solo, como pés, frutos do homem
*
A fruteira e as moscas
Minha mãe cedia as frutas aos filhos
e meus irmãos e eu reivindicávamos coisas
caras demais para aquela dácada:
ameixas, pêssegos e uvas.
Meu pai dizia, com razão, que nada nos faltava:
sobre a mesa estavam as maçãs e bananas.
Do próprio quintal vinham as goiabas e acerolas.
Das avós, várias espécies de manga.
A cidade era cercada por laranjais.
Não havia vitamina ou proteína
que não se dispusesse a família,
e ainda assim queríamos o que não tínhamos.
Sei hoje que tardou demais
para que eu aprendesse a lição
de amar o que está às mãos,
o que doa o clima e a terra
com seu húmus particular
do que ali morreu e doou-se.
Dourou-se, doeu-se e então se doou
as mãos de um descalço qualquer
sobre as plantas dos próprios pés
e sob os pés de frutas.
A cidade não precisava de muros
contra outras cidades inimigas
e o corpo erguia suas paliçadas
com o que se tomava de outras coisas vivas.
Não haveria gripe ou varíola
que nos matasse.
As laranjas, as mexericas, as tangerinas e as pocãs
eram nossa espada e nosso escudo.
Aprendíamos aos poucos as lições do adubo.
Hoje ajoelho-me e adoro o cítrico e o cíclico.
Azedume nenhum jamais apequenou o doce.
*
Texto em que o poeta do Hemisfério Sul
canta a primavera no Hemisfério Norte
Passado o equinócio vernal, que outros poetas
cantem a vida sexual das espécies nortistas,
tulipas e orquídeas, rododendros e caliandras.
A algazarra dos rouxinóis e cotovias em plena
atividade nidificante, as guerras cornialtas
de alces, os borbulhos dos elefantes-marinhos.
O cio dos bichos sortudos, que tem época do ano
específica para a cainçalha, cronometrados
contra o inverno. Escolho o bulbo tumescente
dos rapazes, suas panturrilhas e coxas expostas
nas ruas, suas colunas dóricas de músculo,
lá onde brota sua flor de potência hidráulica.
Boquiaberto, vivo nesse velho bem-mal-me-quer.
São sóis infláveis, com LIGA/DESLIGA,
e iluminam as paredes do Templo a Vulvânus.
Das mãos do padeiro, quero o amassar rítmico
no pão que é minha carne. Do vinicultor,
seus pés a fermentar o vinho que é meu sangue.
Que desabrochem dentro de mim as caliandras,
alçando no labirinto das entranhas os chifres
dos rapazes nesse furdunço da estação primeira.
*
Granulação e coagem
a Federico Castoldi
Não importa quantos invernos
ou temporadas de chuva
você conta sobre a Terra.
O chuveiro e a sua nuvem.
Esse banho pela manhã,
a nuca molhada e quente
que seca ao ar livre,
e ela também a primavera.
Pelo barulho da água
entre o filtro e a garrafa
térmica, você sabe pronto
o café, que também cai
na xícara com a certeza
com a qual você mesmo
brotaria no cafezal.
Isso ensinou a idade adulta:
usufrutuar da gravidade,
ciente das massas e pesos,
reconhecer o choque
de matéria em matéria,
o líquido contra o sólido,
e dizer: há som porque viaja
no ar que respiro. Não
vivo no vácuo, há um pé
fora da cova ainda.
Que meu corpo cresça
como se granulam
nos galhos os grãos de tudo,
qual o café no cafeeiro
que chega ao meu bucho
só depois da torra.
Do açaí na palmeira
só importa um folículo
de pele, fino, fino,
e se bebe dessa lição:
o usufruto exige
certos sacrifícios.
A brasa que torra o café,
o açaí esfolado pela lixa.
*
Poema para ser lido em alfarrábio
Meus casacos, puídos como as calças,
de segunda-mão, como as camisas.
Em cada peça da indumentaria, instruídos
logo veem donde venho, minha classe.
Não tenho POBRE tatuado na testa
mas talvez nos cadarços e nos dentes.
As dores mesmo, em grande maioria,
são usadas, repetidas a cada geração
dessa gente que jamais ouve conselho
de pai e mãe, exige independência
nos tropeços, a cara própria para a prática
de estapeamento-ao-alvo do mundo.
De segunda-mão, até esse meu nome,
ao qual respondo se o gritam nas ruas
— mas quase sempre e com outros
que falam, são outros que eles querem.
Que se salvem esses meus xarás,
os desse nome que também e marca
de classe, de época, suas ilusões
e desastres, outra vez, pouco originais.
E até mesmo esse poema, olhem:
palavra nenhuma criada, inventada,
nem uma única sequer. Tudo usado,
puído, tudo gasto, nada por aqui e 0km,
esse vocabulário todo, coisa de sebo.
Está bem assim, ou não? Cantar de novo
o mal-de-amor, o mal-de-pobre,
todas as maldades do imperador,
dos seus ministros e dos seus inimigos,
a Revolução seguida sempre pelo Terror,
as maldades do corpo, nosso, alheio,
dos orgãos em falência, da pele
que se amarrota, os anos velocíssimos,
as alegrias com boleto e fatura.
E sabendo então que todos os outros
já sentiram esse faniquito, essa fisgada
na esquina das costelas, eu acrescento
açúcar ao café e estendo
o lençol limpo na cama de solteiro.
SOBRE O AUTOR
Ricardo Domeneck é poeta, videoartista e performer. Estreou com “Carta aos anfíbios” (Bem-Te-Vi, 2005) e desde então publicou mais de dez títulos de poesia e prosa, entre eles “A cadela sem Logos” (7Letras, 2007), “Ciclo do amante substituível” (7Letras, 2012) e “O morse desse corpo” (7Letras, 2020). Foi coeditor da revista de poesia “Modo de Usar & Co" ao lado de Marília Garcia, Angélica Freitas e Fabiano Calixto. Seus poemas integram antologias de poesia brasileira contemporânea na Argentina, nos Estados Unidos, na Eslovênia, na Espanha e na Alemanha. Vive em Berlim desde 2002.
“A cidadania das bonecas de pano”
De Ricardo Domeneck
Ars et Vita Editora
128 páginas
R$ 58
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Lançamento no próximo sábado (23/5), na Quixote Livraria, a partir das 11h, com a presença do autor e de Ana Martins Marques e Renato Negrão.