Textos escritos no perfil do Facebook em 2016, com reflexões sobre tensões políticas de um ano marcado pelo impeachment de Dilma Rousseff, representaram o início de um livro recheado de crônicas. Batizada de "Marmitas frias" (2017), a obra do escritor paulista Ricardo Terto foi revisitada e acrescida de três textos e, em 2025, ganhou uma nova edição. Ou, como o autor se refere no título, uma versão "requentada", lançada pela Editora Fósforo.

“O livro foi lançado em 2017, acabou esgotando e ficou fora de catálogo por anos. E então, a Fósforo demonstrou interesse em fazer uma nova edição. De 2017 a 2025, muita coisa mudou, e muita coisa ficou como estava. Achei importante fazer alguns ajustes. Dentre as coisas que mudaram, eu também mudei, além do preço da porção de frango à passarinho”, relatou Terto, remetendo o comentário a um dos textos presentes no livro.

No conteúdo de “Marmitas frias e requentadas”, há textos que se utilizam de metáforas ou que simplesmente descrevem fatos ou memórias de forma mais crua – e sensível. Os temas vão do cotidiano do brasileiro, passando por histórias pessoais e chegando a um "diálogo" entre o ser humano e a morte.

“Também tirei três textos da versão originai e incluí três novos que ficaram todos no fim do livro, daí o nome ‘requentadas’ para marcar essa edição. Os novos textos fazem a ponte entre o autor estreante e o autor que sou hoje, a fim de mostrar que algumas coisas mudaram, mas sigo escrevendo com minhas marmitas”, completou.

Confira a seguir outros trechos da entrevista concedida ao Pensar sobre o livro.

Existem pitadas de bom humor e boas doses de sarcasmo e ironia ao longo do livro, e elas apontam ou acenam para problemas que infestam nossa sociedade. Queria que falasse um pouco mais a respeito delas.

Apesar de o humor às vezes ser tratado como um esvaziamento e até como uma ferramenta de desumanização, eu o vejo como a linguagem humana mais sofisticada. Você ri de algo porque adquire um estado de compreensão sobre alguma coisa, não uma grande verdade, mas você percebe. Então, se escrevo algo que soa absurdo, para você chegar à conclusão de que é absurdo, uma série de relações mentais teve que ser feita; muitas delas têm a ver com experiência e cultura. Uma piada pode ser hilária em tal contexto e completamente sem sentido em outro. Então, o humor me interessa, mas não sou comediante. Intencionalmente, não crio algo pensando no humor. O humor é um lugar aonde chego naturalmente a partir do que estou falando. É quase como se, a partir de certas coisas, o humor simplesmente emergisse. Meu humor vem da crença de que o ridículo é inevitável, é parte da condição humana. Quer ironia maior do que o esforço que a gente faz para parecer sério e profundo, e que, quando se tem uma pandemia global, é preciso que a humanidade aprenda como lavar as mãos? Teve tutorial no "Jornal Nacional" de como lavar as mãos. É ridículo? É! Eu ri? Sim. Mas também passei a limpar entre os dedos.

Obviamente cada pessoa tem sua experiência de vida, mas acredito que várias possam se identificar com suas crônicas. Esse feedback chega até você? E se sim, como é para você receber esses comentários?

Sempre fico empolgado, como se tivesse treinado um truque de mágica em casa e fosse para a rua e a coisa funcionasse. Ainda bem que não matei uma pomba asfixiada na cartola ou engasguei com o lenço de seda. Mas, mais do que um truque ou uma técnica, escrever, para mim, é um trabalho. Esses retornos dizem sobre como meu trabalho alcançou as pessoas. Pessoas que jamais saberiam da minha existência se não fosse pela escrita. Isso é muito único. Reconhecimento talvez seja outra forma de a gente descrever a sensação de não estar sozinho, e é isso o que esses retornos me dão. Gosto da sensação, mas não coloco isso como uma missão na minha escrita, senão perde a graça. Minha única missão como escritor é escrever textos bons (pelo menos em critérios particulares). Como não sou uma forma de vida pairando em torno do nada, tenho corpo, história e um escore no Serasa, escrevo a partir de certas condições com que as pessoas possam se identificar. A coisa flui assim.

Dentre as crônicas que mais gostei, estão "Ioiô" e "Tonho e Tyson". Uma parece soar meio surreal ou de um realismo fantástico e depois descamba para outra realidade. E o outro traz história/analogia/paralelo que soa pessoal. Me identifiquei de certa forma com o conteúdo ali, também por causa do meu pai. Poderia dissecar sobre esses dois textos, por favor?

“Ioiô” é um texto pouco comentado do livro e um dos de que mais tenho orgulho de ter escrito. Primeiro, porque foi legal botar um texto fantástico em um livro de crônicas e é meio que isso: a crônica não é uma receita, é uma panela onde se cozinha qualquer coisa. Isso não quer dizer que crônica seja qualquer coisa, isso quer dizer que a crônica pode incorporar outros elementos sem se descaracterizar. “Ioiô” é uma crônica sobre uma conversa com a morte. O recurso pode parecer surreal porque é a morte como entidade, mas ela me veio de uma experiência que acho bem comum, a de que conversamos com a morte todos os dias. Cada olhada no relógio é uma conversa com a morte. A conclusão de a vida ser finita é como aquele som do Big Bang, que fica ecoando para sempre, então a gente dilui esse assombro em incontáveis fórmulas econômicas, sociais e afetivas. Mas o assombro mesmo não é a morte, é a vida; a vida é anormal, e a maior parte da história do universo acontece sem nós. Então, o que poderia ser uma conversa mórbida vira uma conversa sobre a vida e sobre ela poder ser dimensionada por outras formas de medir o tempo, que não só o ponteiro avançando. Essa crônica tem um pouco da piada do existencialismo súbito que todo mundo tem de vez em quando; às vezes é no banho; às vezes, no ônibus para casa; ou almoçando no cemitério porque lá é mais relaxante que em outros lugares.

“Tonho e Tyson” está na chave contrária de “Ioiô”, que é um texto lúdico. “Tonho e Tyson” é um texto seco e duro, pensado para ser assim, sobre legado, masculinidade e, especialmente, sobre o trabalho humano cada vez mais descartável. O que esses textos têm em comum é que eles falam também do tempo. Mas, no caso de “Tonho e Tyson”, é um pouco sobre o peso de viver dedicado ao trabalho. No caso do meu pai, o trabalho era de fato a vida dele, sendo que, para poupar uma fração do lucro de alguém, você pode ser descartado — desligado, como costumam dizer —, como se tirassem o fio que te conecta a tudo o que fez e construiu. Não costumo dizer se as coisas aconteceram da forma como descrevo em algumas crônicas, porque acho que isso leva um tema para crônica literária que não é importante. Mas, no caso de “Tonho e Tyson”, faço questão de dizer que é um texto bem pessoal e bem descritivo. Às vezes, é só isso mesmo, não tem metáfora que suporte; o estado das coisas só pode ser apresentado por si mesmo. São textos com propostas diferentes, mas com uma conexão acerca do tempo e do significado da vida nesse estágio do capitalismo.

Quais os próximos passos? O que você está planejando para um futuro breve?

Agora não preciso mais fingir que acompanhei a novela “Vale tudo”, que ocupava o pouco que restava da minha energia mental depois do trabalho. Sigo dedicado a escrever algumas coisas na minha newsletter, “Terto ainda está digitando”, e também aproveitar o sabor requentado de “Marmitas frias”. Sigo tentando não matar a pomba e não me engasgar com o lenço de seda.

Marmitas frias e requentadas'

120 páginas
Editora Fósforo
R$ 74,90

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Reprodução

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