LITERATURA

Kucinski volta aos contos de forma magistral em 'O exterminador de cães'

Em 33 textos curtos, autor premiado converte em ficção dramas pessoais e sociais como a violência institucionalizada durante a ditadura militar

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Sérgio Tavares - Especial para o Estado de Minas

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Por mais que pareça contraditório, não seria leviano afirmar que “K.”, um dos melhores romances brasileiros do século 21, é, na verdade, um ajuntamento de contos. A partir de fragmentos que se atraem por conta de um ímã temático, o escritor B. Kucinski (assinatura literária do jornalista e professor Bernardo Kucinski) remonta o tempo de opressão e angústia do regime militar através da jornada de um pai que procura a filha desaparecida. Prova desse domínio nato das formas breves é que, em seu livro seguinte, o autor conquistou o Prêmio Biblioteca Nacional com as narrativas de “Você vai voltar pra mim”. Onze anos depois, Kucinski se reencontra com o gênero, em “O exterminador de cães”, comprovando sua especialidade na síntese ao operar em aspectos da estrutura clássica do conto: precisão na montagem das frases, rigor na escolha das palavras, modo de proceder elíptico e, como cometeu o escritor Ricardo Piglia, histórias nas quais o relato visível sempre esconde um relato secreto em si.

São 33 textos curtos, às vezes curtíssimos, com exceção de dois mais encorpados. Embora não tenha repartições predefinidas, o conjunto é organizado de modo que os contos formem grupos de acordo com os temas explorados. O primeiro deles é um assunto recorrente na obra do autor: a ditadura militar. Narrativas com alta carga de experiência de quem viveu a dimensão histórica, convertendo os guardados na memória em ficção, confidenciando os registros íntimos, familiares, daqueles que pagaram um preço muito caro por lutar por liberdade. A escrita, antes de se constituir um espaço imaginário, é um processo de resgate da realidade. Assim, em muitos casos, narra-se o que se viu, o que se ouviu, dando ao leitor a sensação de estar diante de um depoimento.

O sujeito enunciador, muitas vezes assumindo a própria voz do autor, parte da lembrança de um personagem para conduzir seus relatos. A sobrinha que conta sobre a tia, presa política, que se envenenou com uma mentira por anos; o casal que acolhe militantes na clandestinidade até se deparar com o mistério de uma mala; a recordação de presos sobre um velho judeu levado ao cárcere por um motivo inesperado. O horror que denuncia a violência institucionalizada, o clima estacionado de ameaça, também se impregna com um verniz de absurdo kafkiano, oscilando do choque à alienação. O conto que encerra esse segmento é de uma crueldade normalizada ao mesmo tempo que insana, sobre um sargento aterrorizado com o grau de tortura praticado nas dependências da polícia do Exército.

Esse jogo com a verdade está sempre à procura do impacto derradeiro, do espanto que se transfere dos atores da trama para quem faz a leitura. Isso se dá em razão de um movimento narrativo no qual a revelação vai sendo armada sem pressa, ora com o dito, ora com o não dito, até culminar num golpe de surpresa ao final da história. No conto que empresta nome ao livro, um dos mais longos, tal efeito decorre de subentendimentos. Um octogenário indignado com o reinado dos pets na sociedade contemporânea passa a atacar vira-latas, em seguida elabora um plano para matar cãezinhos de madame. “Oferecem todas as especialidades veterinárias, até oncologia e cirurgia plástica. Sem filas. Atendimento imediato. E ele, dois anos à espera de uma simples operação de próstata”. Não precisa de muito para perceber que o texto não está falando exatamente sobre extermínio de cães. Outros cachorros aparecem em remembranças, protagonizando um novo bloco de acesso a passados particulares. Um dos mais pitorescos é o episódio, extraído de uma conversa com José Genoino, sobre um cão que acabou virando delator na Guerrilha do Araguaia.

No terço final, as narrativas adquirem uma natureza mais variada de interesses e estilos, acedendo, inclusive, ao traço cômico e à singularidade do causo na revivência de dramas pessoais e sociais. A linguagem direta, próxima da fala cotidiana, encontra timbres distintos para reproduzir a voz da personagem literária, lidando com situações de culpa, descobertas, exílio e solidão. Mas também mostra um autor que, em meio a esse falatório, protege a memória diante da finitude, do ataque à militância, da necessidade de escrever como um pai que nunca desiste de encontrar a filha. Próximo aos 90 anos, B. Kucinski remexe no baú de histórias e entrega um dos melhores livros de contos dos últimos tempos.

SÉRGIO TAVARES é escritor e crítico literário

O exterminador de cães

De B. Kucinski 

Alameda

176 páginas

R$ 78,00

Trecho do conto "O azar do senhor Isaac"

No bojo das grandes tragédias, das guerras de extermínio, dos tsunamis, dos massacres políticos, acontecem inúmeros pequenos dramas que atingem indivíduos ou famílias e escapam ao registro da história. São muitas vezes provocados por uma coincidência ou um mero azar. Assim é a história que lhes vou contar, exatamente como a escutei de um dos presos políticos que sofriam suplícios no terrível calabouço da polícia política de São Paulo, durante a ditadura militar brasileira. 

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Disse-me ele que certo dia jogaram em sua cela um senhor já idoso, que não tinha a menor ideia da razão de ter sido preso. Era um senhor de aparência respeitável, trajando terno e gravata. Devia estar na casa dos setenta anos. Ao se ver rodeado de outros presos, eram doze numa cela de não mais que vinte metros quadrados, ficou apavorado. Pensou que fossem criminosos ferozes e temeu pela vida. Acalmou-se aos poucos, com apoio desse preso político que me contou a história, um militante de um movimento cristão radical de nacionalidade alemã, que, por falar alemão, entendia um pouco das frases balbuciadas em iídiche pelo novo prisioneiro, que disse se chamar Isaac. Um judeu.

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