HISTÓRIA

Livro reconstitui sequestro e morte do primeiro-ministro italiano Aldo Moro

Relator da CPI sobre a execução do político italiano dos anos 1970, o escritor e político Leonardo Sciascia faz de "O caso Moro" uma análise moral do poder

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Os parlamentares italianos amanheceram em 16 de março de 1978 pensando que iriam presenciar um momento histórico. Estava prestes a ser selado um acordo conciliatório entre a Democracia Cristã (DC), principal partido da Itália à época, e o Partido Comunista Italiano (PCI), na tentativa de tranquilizar as articulações do país, que vivia o auge dos chamados “anos de chumbo”, marcados por grande violência política e caos social. 

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Entretanto, o principal condutor do ‘compromesso storico’, o ex-primeiro-ministro Aldo Moro, à época presidente da DC, não chegou ao Parlamento naquela manhã de quinta-feira. Seu carro foi interceptado pelas Brigadas Vermelhas - grupo paramilitar de extrema-esquerda. O político foi sequestrado e levado à “prisão do povo”, onde ficou encarcerado por 55 dias até ser executado.

O episódio é relatado no livro “O caso Moro”, de Leonardo Sciascia (1921-1989), lançado no Brasil pelo Manjuba, selo da editora Mundaréu. Além de um importante escritor italiano, autor de livros como “O dia da coruja” e “A cada um o seu” (lançados no Brasil pelo Alfaguara, selo do grupo Companhia das Letras, Sciascia fez carreira na política. Foi relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o sequestro e assassinato do presidente da Democracia Cristã. O relatório, aliás, consta em um apêndice da obra.

Antes, Sciascia se debruça sobre as cartas escritas por Moro no cárcere, algumas direcionadas aos familiares do ex-primeiro-ministro, mas principalmente às que tinha como destinatários os aliados políticos. Estava claro que a liberdade do líder da DC poderia ser negociada com os sequestradores, que queriam a libertação de comunistas presos como moeda de troca, mas o acordo não chegou a ser conduzido com seriedade pelos policiais e os supostos aliados de Moro - muitos dos quais até duvidaram que os textos teriam sido escritos pelo “verdadeiro Moro”.

Trata-se de uma análise moral e política sobre poder. Sobre como Moro, mesmo preso, tentava fazer valer sua liderança e clamava pela própria sobrevivência, com os pedidos por seriedade na negociação se intensificando ao longo do tempo, como se o político pudesse de fato observar o desinteresse dos membros do DC do lado de fora em conquistar sua liberdade. Enquanto estes já costuravam as novas ações do partido e, na prática, tratavam o ex-primeiro-ministro como morto. 

A ação das Brigadas Vermelhas, que promoveram o sequestro como forma de demonstrar insatisfação com o acordo dos parlamentares comunistas com a DC, acabou por fortalecer a centro-direita italiana, que recuou na conciliação e encontrou espaço para adotar a tese de linha dura como resposta à violência política e consolidar a hegemonia no Parlamento italiano, sob a liderança do primeiro-ministro, Benigno Zaccagnini, e o então ministro do interior, Francesco Cossiga. Os dois foram os principais destinatários das cartas de Moro, que os considerava, além de aliados, amigos próximos. A dupla, entretanto, ignorou os apelos e não trabalhou para libertar o capturado.

Sciascia usa linguagem precisa e afiada para um ensaio produzido ainda no calor dos acontecimentos - a obra foi publicada naquele mesmo 1978. Também companheiro de Moro no Parlamento, o autor transmite, no livro, uma impressão “não dita” entre os pares, mas sentida na Itália: Moro foi vítima da sede por poder, não só dos terroristas que o sequestraram, mas dos próprios companheiros de partido. 

“O CASO MORO”

De Leonardo Sciascia

Tradução de Federico Carotti

Mundaréu

168 páginas

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