Livro de Luiz Feldman dialoga com ideias de Borges sobre história
Narrativa ensaística sobre a dimensão imaginativa da política externa brasileira, "Sobre hemisférios" terá lançamento com palestra do autor-diplomata na AML
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Jacques Fux - Especial para o Estado de Minas
A história universal talvez seja a história de umas tantas metáforas.
A esfera de Pascal
Que a história tivesse copiado a história já era suficientemente assombroso;
que a história copie a literatura é inconcebível...
Tema do traidor e do herói
Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair.
Funes, o memorioso
...a verdade, cuja mãe é a história, êmula do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro.
Pierre Ménard, autor de Quixote
Há algo profundamente borgeano no excelente livro “Sobre hemisférios” (Autêntica), de Luiz Feldman: a pretensão de reconstruir a história das ideias de política externa brasileira para desmontar o mito de que o Brasil possuiria uma identidade diplomática contínua, coerente e quase natural. Ao fazê-lo, Feldman dialoga com as ideias que Jorge Luis Borges sugeriu em seus ensaios, contos e nas conversas com o amigo Adolfo Bioy Casares: a história raramente é uma sequência transparente de fatos e “verdades”; ela é antes uma interpretação organizada-ficcionalizada; uma narrativa que se estabiliza (e também se desestabiliza) com as versões do passar inexorável do tempo.
O argumento central do livro, como observa Christian Edward Cyril Lynch, consiste em mostrar que a chamada “tradição diplomática brasileira” é menos uma realidade histórica contínua do que uma construção retrospectiva. A historiografia tradicional da política externa costuma apresentar figuras como o José Maria da Silva Paranhos Júnior (Barão do Rio Branco), Oswaldo Aranha, Santiago Dantas e Araújo Castro como representantes de uma linha estável de prudência diplomática. Segundo essa leitura, a política externa brasileira teria sido marcada por moderação, legalismo e preferência pela conciliação. Feldman, assim com Borges, sabe que a literatura e o tempo podem moldar a realidade histórica. Por isso, ele se envereda por essa narrativa ensaística, documentada, argumentada e institucionalizada buscando uma reconstrução histórica.
Feldman procura demonstrar que essa continuidade, muito afirmada pelos historiadores tradicionais, é ilusória, pois diferentes tipos de ameaça vindas do mundo exterior geraram distintos conceitos estratégicos no Brasil. O autor-diplomata reconstrói os debates estratégicos em alguns momentos-chave dos 200 anos de história diplomática do país a partir de uma combinação da chamada história dos conceitos, de autores como Reinhart Koselleck, com certa linhagem do pensamento social brasileiro, de intelectuais como Gilberto Freyre, que define como marítima, ou seja, de autores que buscam compreender a história que liga o Brasil ao resto do mundo. O resultado é revelar um cenário mais instável: a identidade internacional do Brasil foi permanentemente disputada por noções antagônicas, por exemplo, a respeito do que era “região”: América do Sul, América Latina ou hemisfério ocidental?
Essa estrutura lembra um dos paradoxos formulados por Borges no conto “Pierre Menard, autor de Quixote”: a história não é apenas o registro do que aconteceu, mas aquilo que julgamos e aceitamos que aconteceu. Em outras palavras, a tradição diplomática pode ser compreendida como uma interpretação estabilizada, semelhante ao fenômeno que Borges descreve quando sugere que a verdade histórica depende menos dos fatos do que da forma como são narrados.
Algo semelhante também ocorre em “Tema do traidor e do herói”, onde um acontecimento político é cuidadosamente encenado para produzir uma memória coletiva específica. A história ali não é espontânea e nem “verdadeira”; é coreografada e institucionalizada. A crítica de Feldman à ideia de uma tradição diplomática fixa opera em registro próximo: o que parece continuidade pode ser resultado de seleções retrospectivas, que transformam disputas intelectuais complexas em uma narrativa ordenada.
Feldman mais uma vez conversa (de forma especular) com Borges em “Funes o memorioso”. O protagonista, incapaz de esquecer, descobre que a memória absoluta torna o pensamento impossível. Pensar exige abstrair, simplificar e, sobretudo, esquecer diferenças. De certo modo, a tradição diplomática brasileira sustentada por Feldman funciona como uma espécie de “memória seletiva”: para que uma narrativa coerente exista, muitas divergências precisam ser esquecidas. O mérito de “Sobre hemisférios” está justamente em restituir alguns desses esquecimentos-diferenças. Feldman se esquece. Abstraí, compila, revisita e reescreve, tornando a argumentação teórica do livro sofisticada, inédita e contemporânea. E “borgeanamente” mais que atual (mesmo que o livro tenha sido escrito antes das crises políticas e diplomáticos deste já memorável ano de 2026).
Assim, ao reconstruir debates, textos e contextos específicos – não se limitando apenas ao “cânone” – Feldman propõe uma reconstrução histórica; teoria recorrente em Borges, sobretudo em seu “Esfera de Pascal”, onde as ideias assumem forma de metáfora. Nesse fascinante texto, Borges sustenta que a política (ou qualquer outro sistema) frequentemente depende de metáforas compartilhadas. Estados e sociedades orientam suas ações por imagens do mundo que organizam a experiência histórica.
“Sobre hemisférios” revela precisamente essa dimensão imaginativa da política externa. O Brasil não foi apenas um ator que reagiu às circunstâncias internacionais; ele também produziu interpretações espaciais do mundo para orientar sua ação, buscando segurança contra diferentes ameaças e influência sobre diferentes ordens internacionais.
Como nos contos e teorias de Borges, a história deixa de ser uma linha reta e passa a parecer um labirinto de possibilidades, disputadas em fortes antagonismos políticos. E talvez seja justamente nesse labirinto — entre hemisférios e regiões, conceitos e metáforas — que o livro de Luiz Feldman encontra sua força e originalidade.
“Sobre hemisférios: capítulos de geopolítica brasileira”
De Luiz Feldman
Autêntica
288 páginas
R$ 89,90
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Lançamento em Belo Horizonte com palestra do autor na Academia Mineira de Letras (Rua da Bahia, 1466, Centro) no dia 27/3, a partir das 19h30, com a interlocução de Rogério Faria Tavares. Entrada franca.