CONTOS

Entrevista: Rafael Simeão (re)cria ‘microcosmo’ da sociedade em nove contos

Ao Pensar, escritor do Rio de Janeiro disseca contos presentes no livro ‘Quando chega nossa vez acaba’, calcados no cotidiano do trabalhador brasileiro

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Embora sejam independentes e possam ser lidos em qualquer ordem, os nove contos presentes em “Quando chega nossa vez acaba” (2024, Editora Alfaguara) possuem conexões, criando um microcosmos ao longo de 192 páginas. Em meio a assuntos que transitam por velhice, dificuldades de se adaptar a um ambiente, adolescência, laços familiares e maldade com animais, as histórias convergem para um ponto, como enfatiza o autor da obra, Rafael Simeão.

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“(O livro) traz personagens que são sempre trabalhadores e trabalhadoras. Todo mundo que compõe esse conjunto de contos tem que sair para trabalhar, ou pelo menos deveria se preocupar em como conseguir algum dinheiro, como pagar as contas, se vai sobrar algum para tirar umas férias, de repente”, relata Simeão, nascido em Nova Iguaçu (RJ) em 1987 e que atualmente mora no Rio de Janeiro (RJ).

De um homem que imagina um "revival" com sua ex-companheira (na abertura "O melhor sexo das nossas vidas"), seguida pelas férias de uma família (na história que batiza o livro) e mais seis contos recheados de situações do cotidiano até o desfecho com a realidade de Roni, um ex-jogador de futebol que tem sua vida alterada por causa de uma lesão, a obra convida o leitor a momentos que mesclam o prazer de uma boa escrita e uma gama de reflexões.

“Na vida dessas pessoas, não há nada resolvido. Ninguém nasceu em berço esplêndido. E, apesar de a perspectiva de ascensão social ser vendida ao alcance de todos, algo costuma acontecer na vida dessas pessoas e produzir a sensação de frustração, não pertencimento, solidão e isolamento. Creio que são histórias do nosso tempo, que nos oferece tanto, mas que não dá nada”, disserta Simeão.

Criados em diferentes momentos da vida do autor, como ele enfatiza, os contos variam de tamanho, sendo alguns curtos (até dez ou 20 páginas), e outros com tamanho quase de novela (chegando a 50 ou 60 páginas). “Os contos tinham que ter uma unidade para serem publicados como um volume. Então trabalhei em todos eles durante o processo de edição do livro.” 

Confira abaixo outros trechos da entrevista de Rafael Simeão ao Pensar.

Todos os personagens são marcantes e com histórias que variam de temas, mas que acabam se conectando de alguma forma. Como foi o processo de concepção nesse sentido?

Tem um conto, a primeira coisa que escrevi, em que pensei comigo: “Ficou bom, talvez eu devesse mostrar para alguém”. Em alguma medida, fui mudando muita coisa ao longo de dez anos, em que convivo com ele, mas a coluna vertebral está lá, assim como os personagens e a trama. Já outros, como o conto que dá título ao livro, eu escrevi já depois de fechado com a Alfaguara. Acho que nele coloquei um pouco de cada um dos outros (contos) e senti necessidade de me alongar e elaborar um pouco mais algumas ideias. É o maior texto do livro, tem 60 páginas, com características de novela. Já “Areia”, que fecha o volume, também já existia há alguns anos e foi virando outra coisa ao longo do tempo, até entrar nesse volume. A conexão entre as histórias vem, primeiramente, por que todos os personagens moram na mesma vizinhança. Em uma vizinhança suburbana, aqui no Rio, as pessoas se falam, se atravessam, convivem, brigam, se vingam, algumas inclusive se dedicam a saber das vidas das outras; daí personagens de alguns contos aparecerem em outros, e todos se encontrarem no fim, em uma festa de 15 anos em um salão de festas do bairro.


O livro em si seria um microcosmo, um recorte de uma sociedade, com seus dramas, problemas, questões raciais, de velhice, de pobres/ricos, camadas... Enfim, o que te marca quando vê o livro como um todo tanto em escrita e nas mensagens que você passa por meio dos contos?

O recorte da sociedade sobre o qual eu escrevo é o que eu vivo, onde cresci. E ele é muito problemático, não daria para falar dele sem abordar as desigualdades sociais, raciais, de gênero. A vida de quem vive na periferia, de quem trabalha para se sustentar, é muito difícil; os serviços que nos oferecem são péssimos e caríssimos; a cidade é perigosa; os empregos nos adoecem; os alimentos que nos vendem estão cada vez mais envenenados; e o meio ambiente está colapsando. No enredo de um dos contos, inclusive, tem uma ilha afundando. Parece absurdo, mas não é. As mensagens vêm a reboque de histórias que se passam nessas circunstâncias. Não pensei em passar nenhuma mensagem de antemão, mas, sim, em trazer à tona personagens e passagens das suas vidas, que são muito pouco contempladas na literatura. Quem carrega o país nas costas todo dia já cruzou com alguém do meu livro. Acho que isso me marca, ter escrito sobre o comum e o cotidiano e encontrar leitores que enxergam, nas vidas que retratei, questões universais. Acredito que meu desafio ao escrever era ao mesmo tempo manter um estilo solto de escrita, que conversasse com o ritmo da vida urbana, e não perder a densidade do que eu estava narrando. Nem a unidade. É muito difícil escrever um livro de contos.


As histórias ali trazem personagens que podem estar em algum bairro, alguma cidade, algum estado. Temos a família que viaja para uma ilha, um homem que quer matar pombos, uma velha que segue uma rotina, um casal que vai ter um filho. O que mais te serviu de inspiração para a elaboração desses personagens? E durante a criação, vale aquela tônica de muitos autores, de que os personagens é que influenciaram você, enquanto autor, e não o contrário?

O que me inspirou e me inspira é a vida, tudo de bom e de ruim que acontece nos nossos dias. Sou muito observador e fui me tornando um bom leitor, apesar de ter começado tarde. E gosto muito de criar, me dá prazer, é divertido. De tanto ler, me deu vontade de escrever, foi natural para mim essa inclinação. Não tinha muita segurança do que estava fazendo, mas as pessoas elogiavam, sobretudo Mariane, minha companheira, que achava tão bom, que teve a cara de pau de enviar dois contos meus ao (escritor mineiro) Luiz Ruffato, que eu já achava e acho muito foda. Para minha surpresa, ele nos respondeu, inclusive devolveu o arquivo comentado, dando dicas e dizendo que gostou. E que ainda iria ouvir falar de mim. Isso foi me dando fôlego e segurança, foi fundamental. Fui persistindo e, com o tempo, reconhecendo de onde poderiam sair personagens e histórias, moldando uma voz. O que me inspira é a cidade, os sambas e os raps que escuto, filmes e séries que assisto, a arte em geral. Sobretudo, contemporânea. E com olhar contra-hegemônico, gosto de saber o que as pessoas que vivem na mesma época que eu estão criando. No começo, é duro escrever cinco páginas; depois, a prática e o trabalho vão te deixando mais competente e exigente, e você não quer mais emular estilos, quer ter um. Meus personagens me influenciam, sim; conduzem a história às vezes; mas no fim das contas, não psicografo, vou criando. Quanto mais crio, mais o personagem e suas características vão se descortinando, depois de muita escrita e reescrita. As histórias que criei poderiam estar em qualquer periferia de um grande centro urbano, os trabalhadores enfrentam dramas parecidos onde quer que estejam.

Quais seus próximos passos? O que está nos planos como escritor para os próximos anos?

Os próximos passos são continuar escrevendo, buscando tempo para criação artística em meio ao corre do dia a dia. Não é mole dar aula para turmas superlotadas com quase 50 adolescentes, pegar ônibus, cuidar da casa e escrever literatura. Quem dera eu tivesse tempo para me dedicar só a isso. Mas quero e já comecei a escrever outro romance, algo de maior fôlego. Já publiquei um, “Carniça” (2022), que saiu pelo Bando Editorial Favelofágico, um coletivo de Manguinhos, no Rio de Janeiro, que promove residências literárias para escritoras e escritores provenientes das periferias da cidade e nas quais trabalhamos literariamente o conceito de favelofagia. Participei de uma dessas residências em plena pandemia e publiquei esse livro que, apesar da tiragem pequena, me abriu muitas portas, inclusive para publicar pela Companhia das Letras. Recentemente, fiquei sabendo que ele está sendo lido em uma disciplina de doutorado em Literatura da UFSC, o que me deixou muito surpreso e feliz. Da última edição dessa residência, que foi ano passado, e da qual participei como editor, saíram seis romances. Ótimas histórias que atestam a capacidade de criação artística da periferia; romances que poderiam perfeitamente circular por grandes editoras se as portas fossem abertas. Meu plano de escritor, portanto, é concluir esse novo romance. Obrigado a você pelas perguntas, pelo espaço aberto e pela leitura.

‘Quando chega nossa vez acaba’

Editora Alfaguara
192 páginas
R$ 69,90

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Reprodução

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