Primeira leitura: 'Coworking e outros poemas', de Heitor Ferraz Mello
Seleção de versos do novo livro lançado pelas Edições Jabuticaba revela obra que transita entre a vulnerabilidade do corpo, a memória e a arquitetura urbana
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“O homem sem pele”
O homem sem pele
percebe que a fumaça do cigarro
desenha o caminho apagado
dos raios do sol
na sala da casa
no final da tarde
O homem sem pele
foge de sua memória
que evanescente
procura preencher
o forro da poltrona
que arde no vazio do corpo
O homem sem pele
perde os contornos
do mundo
que o sufoca
O homem sem pele
procura sua segunda pele
que arrebenta
da boca.
*
“O corpo escrito”
As cinzas do cigarro
formam uma constelação
sobre o papel
Um céu invertido
cujo futuro será em breve desfeito
com uma sacudidela
e um sopro
As estrelas mortas
cairão no chão do quarto
Cinzas
de um corpo escrito.
*
“Restauração”
Andamos ali
entre aquelas ruínas e puxadinhos
Casas afundadas
abaixo do nível da rua
A gramática daquelas casas
com pouco espaço
Vírgulas, entre uma frase e outra
para comportar a família numerosa
Um quadrado para todos os suores
todos os prazeres e dores
Convém manter as paredes que rebentaram para fora
do desenho original?
Parece uma língua viva – estropiada e viva
que nasce
da necessidade única
de expressar a vida– a existência
a contrapelo.
*
“Memória”
Como enfiar as mãos nesta corrente
e sentir a água entre os dedos?
Esta água corrói as membranas
resseca as articulações
até as raízes do coração
Minha mão cheia de fissuras
e dívidas-fraturas
de cada osso desgastado
Como enfiar as mãos
na corrente deste rio?
Uma história destecida
e distorcida
pelas vozes de sempre
cujo maior ofício é jogar ácido
na pele dolorida da memória.
*
“Medir o mundo”
Você o vê saltando
de estrela em estrela
com as pernas enormes
e desengonçadas
como quem desenha um mapa
um país rasgado
numa folha de caderno
É um épico
em tamanho menor
crônica que se faz e refaz
uma noite que abocanha tudo
O tempo largado
no centro do chão
um menino tão pequeno
quanto seu gigantismo
Quantas vezes morremos?
As vozes atacam e se anulam
numa tocaia
que não consigo alcançar
Um enigma que tudo absorve
num ritmo inevitável
Neste isolamento
diante da grande frase
cavalos são abatidos um por um
com patas fletidas e tesas
como um último gesto do combate
no fundo do cinzeiro.
SOBRE O AUTOR
Nascido na França em 1964, Heitor Ferraz Mello (foto) mora no Brasil desde os dois anos de idade. Formou-se em jornalismo e é mestre em Literatura Brasileira pela USP, com dissertação em 2002 sobre a poesia de Francisco Alvim (“O rito das calçadas”). É professor de jornalismo e língua portuguesa na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Em poesia, publicou, entre outros, “Coisas Imediatas (1996-2004), “Um a menos” (2009) e “Meu semelhante” (2016), todos pela 7 Letras. Selecionou os poemas para “Francisco Alvim: 80 anos” (Quelônio), em homenagem ao poeta mineiro.
“Coworking e outros poemas”
De Heitor Ferraz Mello
76 páginas
R$ 40
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