Leia trecho de 'Morreste-me', de José Luís Peixoto
Edição especial de 10 anos do livro do escritor português chega pela Dublinense com textos extras de Marcela Dantés, Natalia Timerman e Pedro Pacífico
compartilhe
SIGA
(...)
E não quero e não posso esquecer o que outrora senti do teu olhar. Pai, fiquei no silêncio do inverno que abraçaste. Não há primavera se não imaginar erva fresca das palavras erva fresca ditas por ti; não haverá verão se não imaginar o sol da palavra sol dita por ti; não haverá outono se não imaginar o fundo do esquecimento da palavra morte dita nos teus lábios. Por isso, pai, no ar, o silêncio de ti é sofrer, no tempo que passa, no ar, no tempo que não passa já. Não passa o tempo, sustentado na mentira das coisas pequenas falsas que só já mudam de lugar, que apenas se sucedem, que unicamente tomam o sítio umas das outras, a mentirem, deixando rasto, restolhando o seu caminho com patinhas de rato entre os arbustos secos mortos e os arbustos verdes viçosos: e nasce o sol do ocaso último que morreu contigo; e brisas fingem as brisas verdadeiras que te tocaram o rosto; nem as nuvens nem o firmamento são os mesmos: apenas mentiras a substituírem mentiras a cada momento que não passa. Faltas tu a levar o tempo. Falta o teu olhar a guiar-nos se a chuva nos puxa. Pai, ter a tua memória dentro da minha é como carregar uma vingança, é como carregar uma saca às costas com uma vingança guardada para este mundo que nos castiga, cruel, este mundo que pisa aquele outro que pudemos viver juntos, de que sempre nos orgulharemos, que amámos para nunca esquecer.
Descansa, pai, dorme pequenino, que levo o teu nome e as tuas certezas e os teus sonhos no espaço dos meus. Descansa, não vou deixar que te aconteça mal. Não se aflija, pai. Sou forte nesta terra nos meus pés. Sou capaz e vou trabalhar e vou trazer de novo aqui o mundo que foi nosso. Vou mesmo, pai. O mundo solar. Reconhecê-lo-ei, porque não o esqueci. E também o tempo será de novo, e também a vida. Sem ti e sempre contigo. A tua voz a dizer orienta-te, rapaz. Não se apoquente, pai. Eu oriento-me. Pai, não se preocupe comigo. Eu oriento-me. E vou. Anoitece a estrada no que sobra da manhã. Chove sol luz onde está o que os meus olhos veem. A carrinha grande que prometeste, que planeaste para nós, que ganhaste a trabalhar meses, leva-me. Onde estás, pai, que me deixaste só a gritar onde estás? Na angústia, preciso de te ouvir, preciso que me estendas a mão. E nunca mais nunca mais. Pai. Dorme, pequenino, que foste tanto. E espeta-se-me no peito nunca mais te poder ouvir ver tocar. Pai, onde estiveres, dorme agora. Menino. Eras um pouco muito de mim. Descansa, pai. Ficou o teu sorriso no que não esqueço, ficaste todo em mim. Pai. Nunca esquecerei.
Beleza avassaladora
“Descobrir ‘Morreste-me’ não foi exatamente fácil: a beleza avassaladora de cada palavra se misturando ao susto que sempre é lidar com a morte. Eu sabia que esse livro me acompanharia por muito tempo, eu sabia que a gente se encontraria outras tantas vezes. Hoje, mais de vinte anos depois, eu ainda não me esqueci da sensação que foi descobrir ‘Morreste-me’ — e o pedaço dele tatuado no meu corpo me lembra disso todos os dias.”
Marcela Dantés, escritora mineira, autora de romances como “Vento vazio”
Sobre o autor e o livro
Nascido na cidade de Galveias em 1974, José Luís Peixoto é considerado uma das principais vozes da literatura contemporânea portuguesa e já recebeu os prêmios José Saramago e Oceanos. Relato emocionado da morte do pai do escritor, “Morreste-me” foi lançado em 2000 e publicado em mais de trinta idiomas.
A primeira edição no Brasil saiu em 2015, no início da coleção Gira, e teve até agora dez impressões. Em Portugal, foram vinte edições e mais de cem mil exemplares vendidos. “Sem essa perda (do pai), não teria escrito os livros que escrevi. Esse pequeno livro é a base de tudo o que viria depois”, reconhece o autor.
“É curioso pensar nessa longa estrada que ‘Morreste-me’ e José Luís Peixoto seguem percorrendo. Se, no livro, lemos o narrador dizer ao pai que ‘tudo o que te sobreviveu me agride’, ‘Morreste-me’ parece ter se transformado numa bem-vinda maldição, no que um fardo pode trazer de leve. A morte do pai e a dor sobrevivem”, afirma, na edição comemorativa dos dez anos de lançamento no Brasil, o curador da coleção Gira, Reginaldo Pujol Filho.
“Peixoto não escreve sobre a morte do pai como um evento, ele escreve a partir do acontecimento contínuo da ausência. Cada palavra é corpo que falta e, ao mesmo tempo, corpo que permanece em tudo”, analisa, no posfácio da nova edição, a médica paliativista e escritora Ana Claudia Quintana Arantes. Com projeto gráfico e capa de Luísa Zardo, a edição especial da Dublinense para “Morreste-me” tem apresentações de Pedro Pacífico, Natalia Timerman e Marcela Dantés.
“Morreste-me – Edição Especial”
De José Luís Peixoto
80 páginas
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
R$ 64,90