Piloto ironizou falhas antes de queda da Voepass e comparou avião a "fusquinha"
Investigação da Polícia Federal sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo apontou combinação de falhas técnicas e erros operacionais
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A perícia da Polícia Federal (PF) sobre a queda do avião da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo, no interior de São Paulo, em agosto de 2024, concluiu que o acidente foi provocado por uma combinação de falhas técnicas, erros operacionais e descumprimento de procedimentos de segurança previstos pelo fabricante da aeronave.
O laudo, obtido com exclusividade pela TV Globo, também aponta que problemas no sistema de degelo já vinham ocorrendo em voos anteriores, eram conhecidos pelas tripulações e, ainda assim, não impediram que o avião continuasse em operação.
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Segundo a investigação, a aeronave apresentava falhas recorrentes no sistema pneumático de degelo, responsável por evitar o acúmulo de gelo nas superfícies da aeronave durante o voo. As anomalias haviam sido registradas em trajetos anteriores e voltaram a aparecer na viagem que terminou na tragédia.
Um dos episódios analisados ocorreu no voo imediatamente anterior ao acidente, realizado entre Guarulhos (SP) e Cascavel (PR). Durante a operação, o comandante comentou o desprendimento do gelo acumulado na aeronave.
Piloto: "O lá o gelo... o gelo foi embora agora, finalmente. Escutei um barulho aqui, foi o gelo que voou."
Após o pouso, o copiloto comemorou o fim do voo.
Copiloto: "Muito bom, comandante".
Em seguida, o piloto respondeu:
Piloto: "Chegamos vivos".
O voo final
Pouco depois, o mesmo avião voltou a decolar para cumprir o voo que cairia em Vinhedo.
Ainda durante a subida, os gravadores registraram o surgimento de um alerta indicando falha no sistema de degelo.
Piloto: "É o 'Airframe' que deu 'fault'... pode tirar, pode tirar... pelo menos a gente já sabe que tá..."
Na sequência, enquanto discutiam a possibilidade de encontrar condições de formação de gelo, os pilotos fizeram referência ao comportamento da aeronave.
Copiloto: "Olha a situação, se bem que não tá reportado isso aí, mas pra gente não pegar gelo teria que ir no 110, né?"
Piloto: "Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie lá...Herbie, filme bem antigo."
De acordo com a Polícia Federal, o aviso "AIRFRAME FAULT" indicava uma falha no sistema pneumático de degelo. Nessa situação, o manual do fabricante determinava que a tripulação deixasse imediatamente a área de formação de gelo. A análise do gravador de voo, porém, mostrou que esse procedimento não foi executado.
Quase uma hora depois, já durante a aproximação para São Paulo, o acúmulo de gelo voltou a preocupar a tripulação.
Copiloto: "Bastante gelo."
Na tentativa de restabelecer o funcionamento do equipamento, o copiloto voltou a acionar o sistema.
Copiloto: "Ligar o airframe."
O comandante respondeu:
Piloto: "Essa bosta não tá funcionando, né?"
Copiloto: "É".
Pouco depois, o copiloto voltou a alertar sobre a formação de gelo.
Copiloto: "Gelo".
Em seguida, a aeronave passou a emitir uma sequência de alertas automáticos. Entre eles estava o aviso sonoro do sistema de alerta e prevenção de colisão com o terreno (TAWS/GPWS), que orientava os pilotos a interromper imediatamente a descida para evitar o impacto contra o solo.
Ao mesmo tempo, os computadores de bordo passaram a indicar degradação de desempenho e emitiram o aviso "Increase Speed", seguido pelo alarme de estol. O estol ocorre quando a aeronave perde sustentação aerodinâmica, geralmente em razão da combinação entre baixa velocidade e elevado ângulo de ataque. Em menos de um minuto, o avião perdeu sustentação, entrou em estol e, em seguida, passou a girar descontroladamente até atingir o solo.
Laudo
O laudo afirma que os pilotos deixaram de aplicar, no momento adequado, os procedimentos previstos para falhas no sistema de degelo, degradação de desempenho, operação em condições severas de gelo e recuperação de estol. Segundo os peritos, houve cerca de 20 segundos entre o alerta "Increase Speed" e o início do parafuso, intervalo em que ainda existia possibilidade de uma ação corretiva por parte da tripulação.
A análise dos computadores da aeronave também revelou que a mensagem "AIRFRAME FAULT" havia aparecido não apenas no voo do acidente, mas também em outros três voos anteriores. Em todos eles, as tripulações adotaram repetidamente a mesma estratégia: desligavam e religavam o sistema de degelo na tentativa de restabelecer seu funcionamento.
No voo imediatamente anterior ao acidente, identificado como PTB 2282, o alerta foi registrado oito vezes e o sistema passou por, pelo menos, cinco tentativas de reinicialização. Para a Polícia Federal, esse histórico demonstra que o comandante já conhecia o comportamento intermitente do equipamento antes de iniciar o voo que terminou na queda.
Os investigadores afirmam ainda que, caso essas falhas tivessem sido registradas oficialmente pelas tripulações anteriores, a aeronave não poderia ter sido liberada para voar em uma rota com previsão de formação de gelo, já que a Lista de Equipamentos Mínimos impede esse tipo de operação quando o sistema de degelo está inoperante.
"Quando as tripulações dos voos anteriores deixaram de registrar falhas do sistema de degelo, permitiram que discrepâncias repetitivas e críticas permanecessem ocultas, contribuindo para que o sistema de degelo pneumaticamente comandado continuasse operando com intermitência não sanadas", afirma o relatório.
A investigação também identificou uma irregularidade no despacho operacional da aeronave. Embora esse problema não tenha sido apontado como causa direta da queda, o avião foi autorizado a decolar mesmo apresentando defeito no limpador do para-brisa, em desacordo com a Lista de Equipamentos Mínimos diante da previsão de chuva no destino. Segundo a PF, tanto o despachante operacional de voo quanto o comandante descumpriram esse procedimento.
Enquanto o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) conduz uma apuração voltada exclusivamente à prevenção de novos acidentes, sem atribuir responsabilidades, a investigação da Polícia Federal tem natureza criminal e busca identificar eventuais crimes e seus responsáveis.
Ao longo de quase 200 páginas, o laudo conclui que o desastre foi provocado pela sucessão de barreiras de segurança que deixaram de funcionar antes da decolagem e durante o voo. Entre os fatores apontados estão as falhas recorrentes no sistema de degelo, a operação da aeronave em uma área de formação severa de gelo e o não cumprimento dos procedimentos previstos pelo fabricante.
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A expectativa é de que a Polícia Federal conclua o inquérito nesta quinta-feira (6/8), quando deverá indicar os responsáveis pelo acidente.