BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Após ter a venda de seus produtos suspensa por duas vezes pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a Ypê afirma que pretende investir cerca de R$ 130 milhões para adequar o seu parque fabril em Amparo (SP).
O chamado Plano de Qualidade da empresa foi elaborado no fim do ano passado, após a agência interditar lotes de lava-roupas por contaminação microbiológica detectada pela própria Ypê. Apesar da reestruturação, a agência determinou em maio novo recolhimento e interrupção da fabricação de parte dos produtos feitos no interior paulista.
A empresa diz que o plano foi redesenhado nas últimas semanas. "Tem um foco muito grande no tratamento da água", afirma o diretor jurídico e de assuntos corporativos da Ypê, Sergio Pompilio.
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A Anvisa deve julgar um recurso da empresa nesta sexta-feira (15/5), após retirar o caso da pauta na quarta (13/5). A interdição dos lotes se tornou munição para campanha movida por líderes e militantes bolsonaristas em defesa da Ypê, com divulgação de teorias fantasiosas e ataques à direção da Anvisa.
Em reunião na Anvisa em 9 de abril, cerca de um mês antes da interdição, a Ypê sinalizou que as mudanças na fábrica custariam de R$ 100 milhões a R$ 110 milhões em 12 meses. As obras incluiriam a "implementação de sistemas avançados de tratamento de água", registra a ata do encontro.
A Ypê informou, na mesma reunião, que 59% das ações de melhoria projetadas até 2027 haviam sido concluídas, incluindo a inauguração de novo laboratório de microbiologia com "tecnologia de nível farmacêutico". A empresa também disse que passaria a realizar a sanitização das suas instalações a cada sete dias, em vez de em intervalos de 30 dias.
A Anvisa diz, em nota, que a apresentação do plano "não representa validação automática ou homologação prévia pela Anvisa, mas constitui parte do processo regulatório de acompanhamento e verificação das medidas corretivas necessárias".
"O foco da atuação da Anvisa permanece centrado na avaliação das condições de controle sanitário, garantia da qualidade, rastreabilidade, monitoramento microbiológico, validação de processos e demais requisitos relacionados às Boas Práticas de Fabricação de produtos saneantes", diz a agência.
Segundo Pompilio, o investimento foi revisto para cima após, em abril, uma inspeção de órgãos de vigilância registrar 88 "não conformidades" na fábrica de Amparo.
"O plano tem objetivos de curto, médio e longo prazo. Você não consegue mudar uma fábrica da noite para o dia. A nossa maior tranquilidade vem do nosso novo sistema de qualidade e segurança, que garante que a partir do dia em que a Anvisa nos autorizar a voltar a fabricar, 100% dos produtos estão aptos para uso", disse o diretor da Ypê.
A existência do plano é um dos argumentos apresentados pela empresa nos últimos meses para responder aos questionamentos de órgãos de vigilância sanitária e da Senacom (Secretaria Nacional do Consumidor).
No fim de abril, a empresa afirmou à Senacom que a iniciativa estabelece patamares de "excelência para a indústria". "A despeito da inexistência de normas regulatórias acerca da existência de microrganismos em saneantes, equipara os produtos da Ypê aos padrões de controle produtivo mais rígidos, aplicáveis a produtos de outras naturezas".
A argumentação da empresa, porém, foi considerada insuficiente pela Anvisa, que relatou também à Senacom ter localizado "fragilidades sistêmicas" na fábrica de Amparo durante a inspeção feita em abril.
Segundo a mesma nota técnica da Anvisa, as falhas representam "situação de alto risco sanitário relevante em razão da potencial exposição da população consumidora a produtos com desvio de qualidade microbiológica".
A Ypê informou durante a mesma inspeção que havia 142 lotes de produtos em seus estoques com análises microbiológicas insatisfatórias, ainda segundo o relato da Anvisa.
A empresa voltou a mencionar as obras de reestruturação em documento enviado à Senacom na terça-feira (12/5). "Nesse contexto, mostrava-se desnecessária a adoção de medida tão grave como aquela adotada cautelarmente na resolução [da Anvisa], antes mesmo do exercício do contraditório", disse a empresa.
As inspeções sanitárias feitas em Amparo em 2025 e no ano seguinte foram desdobramentos de denúncias apresentadas à Anvisa e à Senacom pela multinacional anglo-holandesa Unilever, dona de marcas como Omo, Comfort e Cif.
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As acusações afirmam que testes feitos pela Unilever nos produtos da concorrente detectaram a presença de uma bactéria identificada como Pseudomonas aeruginosa. A Anvisa afirma que a presença da bactéria foi confirmada por análises laboratoriais contratadas pela própria Ypê.
