Papa Leão XIV pede perdão por participação da Igreja na escravidão
Leão XIV quebra tabu milenar ao admitir que líderes católicos deram aval religioso para subjugar povos e liga passado colonial à exploração tecnológica atual
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O Papa Leão XIV fez, nesta segunda-feira (25/5), um pedido histórico de perdão pelo papel da Igreja Católica na legitimação da escravidão e pelo longo período que o Vaticano levou para condenar oficialmente a prática. Em sua primeira encíclica, intitulada Magnifica Humanitas (“Humanidade Magnífica”), o pontífice classificou esse passado como uma “ferida na memória cristã”.
Embora pontífices anteriores tenham pedido desculpas pela participação de cristãos no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, esta é a primeira vez que um papa reconhece publicamente e pede perdão pelo papel desempenhado pelos próprios líderes da Igreja ao autorizar a submissão e escravização de povos considerados “infiéis”.
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“É impossível não sentir profunda tristeza ao contemplar o imenso sofrimento e humilhação suportados por tantos, em contraste com sua dignidade incomensurável como pessoas infinitamente amadas pelo Senhor. Por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”, escreveu.
A encíclica trata principalmente dos desafios da humanidade diante do avanço da inteligência artificial e do impacto das transformações tecnológicas. No texto, Leão XIV estabelece uma ligação entre o tráfico transatlântico de escravizados e formas contemporâneas de exploração, como trabalhos precários ligados à extração de minerais raros usados na fabricação de chips e tecnologias de IA.
O posicionamento responde a décadas de reivindicações de católicos negros nos Estados Unidos, ativistas e pesquisadores que cobravam da Santa Sé um reconhecimento mais direto sobre sua responsabilidade histórica no comércio colonial de seres humanos.
Séculos de legitimação
Embora o Vaticano sustente que sempre defendeu a dignidade humana por considerar todos filhos de Deus, documentos emitidos no século XV ajudaram a fornecer respaldo religioso à expansão colonial europeia. Em 1452, o papa Nicolau V publicou a bula papal Dum Diversas, concedendo ao rei de Portugal autorização para “invadir, conquistar, combater e subjugar” povos classificados como “sarracenos, pagãos e outros infiéis”.
O documento também permitia reduzir essas populações à “escravidão perpétua”. Três anos depois, a bula Romanus Pontifex ampliou essas permissões e se tornou uma das bases da chamada Doutrina da Descoberta, utilizada durante séculos para justificar a ocupação de terras na África e nas Américas.
As autorizações concedidas por Nicolau V foram posteriormente reafirmadas ou renovadas por outros pontífices, entre eles Calisto III, Sisto IV e Leão X.
Somente em 2023, sob o comando do Papa Francisco, o Vaticano repudiou formalmente a Doutrina da Descoberta. Ainda assim, as bulas papais nunca foram oficialmente anuladas. A Santa Sé argumenta que documentos posteriores, como Sublimis Deus, reafirmaram que povos indígenas não deveriam ser privados de liberdade ou escravizados.
Igreja demorou a condenar prática
Na encíclica, Leão XIV também destacou que a condenação explícita da escravidão pela Igreja ocorreu apenas em 1888, com seu antecessor de nome, Papa Leão XIII — período em que diversos países já haviam abolido a prática. Antes disso, segundo o atual papa, até instituições ligadas à própria Igreja possuíam pessoas escravizadas.
“Já no início da era moderna, a Sé Apostólica de Roma, respondendo a pedidos de soberanos, interveio diversas vezes para regular e legitimar formas de subjugação e, em certos casos, inclusive a escravização de ‘infiéis’”, pontuou o pontífice.
Apesar de afirmar que decisões do passado não podem ser analisadas exclusivamente sob os valores atuais, Leão XIV ressaltou que a demora da Igreja em denunciar a escravidão não pode ser ignorada. “Isso constitui uma ferida na memória cristã, da qual não podemos nos considerar desvinculados”, afirmou.
O papa acrescentou ainda que a Igreja precisa agir diante das novas formas de exploração associadas à revolução tecnológica digital para evitar repetir erros históricos.
Histórico familiar e pedidos anteriores
O reconhecimento ganha ainda mais peso diante da própria trajetória pessoal do pontífice. Primeiro papa nascido nos Estados Unidos, Leão XIV tem uma história familiar marcada pelos efeitos da escravidão.
Segundo pesquisa genealógica conduzida pelo pesquisador Henry Louis Gates Jr., ao menos 17 ancestrais do papa aparecem em registros históricos como negros, mulatos, crioulos ou pessoas livres de cor. Sua árvore genealógica reúne tanto pessoas escravizadas quanto proprietários de escravos.
Antes dele, pedidos de desculpas já haviam sido feitos por outros líderes da Igreja, mas de forma mais ampla. Em 1985, João Paulo II pediu perdão aos africanos pelo tráfico de escravizados praticado por cristãos durante visita a Camarões.
Sete anos depois, em visita à Ilha de Gorée, no Senegal, um dos principais centros do tráfico de pessoas escravizadas da África Ocidental, João Paulo II classificou a escravidão como uma “tragédia de uma civilização que se dizia cristã”.
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No mês passado, durante visita a Angola, Leão XIV também esteve em um santuário católico localizado em uma região que foi importante centro do tráfico de africanos escravizados durante o domínio colonial português. Na ocasião, ele mencionou o “sofrimento e a grande dor” enfrentados pelos angolanos ao longo da história, mas sem citar diretamente a escravidão.