Nas mãos, na mente e no coração das crianças, está o futuro do planeta. E se o caminho para tal missão começa em casa, com a família, encontra ainda mais sentido na escola, onde o conhecimento traz palavras e ações fundamentais na busca de harmonia e horizontes.
Unindo passado e presente, teoria e prática, a garotada aprende também com os educadores a preservar o patrimônio cultural e a proteger o meio ambiente. Na direção correta, cada palmo percorrido na estrada do saber representa um avanço para a humanidade. E, claro, crescimento pessoal.
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Neste Dia das Crianças, celebrado na próxima segunda-feira, meninos e meninas da capital e do município vizinho de Sabará mostram seu progresso em sala de aula e ao ar livre, convidando o leitor a visitar um mundo permeado de história, natureza, descobertas. Cheios de esperança, garantem estar no rumo certo, plantando sementes em solo fértil para colher frutos e novos tempos.
Com 600 alunos e funcionamento em dois turnos, a Escola Estadual “Paula Rocha”, no Centro Histórico da cidade da Grande BH, tem atividades na área de educação patrimonial, possibilitando aos estudantes um mergulho em três séculos.
Já na Região Oeste de Belo Horizonte, as lições ambientais estão no dia a dia dos alunos. Se conjugam com alegria os verbos brincar, correr e estudar, aprendem também os tempos de plantar, regar, colher e, claro, saborear novos tipos de verdura. Na Escola Municipal “Salgado Filho”, no Bairro Havaí, a atividade integra o Projeto Horta e Compostagem, desenvolvido na unidade com apoio da Prefeitura de Belo Horizonte, para aproximar as crianças da natureza e ensinar, na prática, cuidados com o meio ambiente e a alimentação saudável.
Aula de história na “porta” da escola
Das janelas da Escola Estadual “Paula Rocha”, no Centro Histórico de Sabará, na Grande BH, se vê um pedaço valioso da cidade nascida nos tempos coloniais. A poucos metros da unidade de ensino fundamental 2, fica a Igreja Nossa Senhora do Rosário, templo do século 18 inacabado. Em meio aos casarões coloniais, os olhos do visitante encontram as torres da Igreja São Francisco e um chafariz, atrativo da Praça Melo Viana. Já na varanda do fundo da escola, sobressaem as torres das igrejas das Mercês e Carmo. Todo o cenário emoldurado em cultura e tradições faz parte do cotidiano dos alunos da “Paula Rocha”, que completará 120 anos em 2027.
A pedido do Estado de Minas, a professora de história, Fernanda Corradi, reuniu parte da turma, na faixa dos 12 anos, para falar sobre preservação do conjunto arquitetônico e também a respeito dos bens culturais imateriais. A primeira parte do encontro foi em local mais do que especial: o salão nobre da escola, com mobiliário original, espelhos, quadros de antigos diretores e a meninada bem à vontade. E com muito para dizer.
“Há um cronograma de conteúdos, e trabalhamos com os alunos os temas patrimônio, história, identidade cultural. A cidade tem um teatro, que é dos mais antigos de Minas, igrejas barrocas, o Museu do Ouro, e o rico patrimônio imaterial, incluindo os festivais de jabuticaba, ora-pro-nóbis e banana”, informa a professora Fernanda, citando ainda as cerimônias da Semana Santa e o carnaval.
Os estudantes do sexto e sétimo anos prestam atenção às palavras da docente e trazem à conversa o nome do patrono das artes no Brasil, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814). “Aleijadinho morou aqui”, afirma, com orgulho, o menino Luiz Gustavo dos Santos Félix, seguido por outros e outras colegas que conhecem a passagem, por Sabará, do escultor, entalhador, marceneiro e perito (na época, chamado “louvado”). As crianças sabem onde fica a casa, perto da Igreja Nossa Senhora do Carmo, na qual Aleijadinho se hospedava durante o trabalho. Para o espetacular templo barroco, Aleijadinho, natural de Ouro Preto (Região Central de Minas), foi responsável, no Carmo, pelos dois atlantes e fachada em pedra-sabão, além de púlpito, coro, grades e imagens de São Simão Stock e São João da Cruz.
Sentada ao lado de Luiz Gustavo, Marriah Luíza Rodrigues da Cruz defende a proteção do patrimônio sem descaracterização. “Não podemos mudá-lo, mas preservá-lo”, afirma a menina, enquanto, para Clarice Batista de Andrade Rúbio, o passado ilumina o presente e “nos ensina muito”. As sábias palavras da estudante ecoam na sala e ganham mais força na voz de André Fernando Nunes Roque, admirador do legado dos antepassados.
“Vivemos num universo de história, cultura e tradições, com forte religiosidade”, conta Laura Berzi Ribeiro Alves. “E tudo está muito presente em nossa vida”, acrescenta Isabela Silva e Souza. Na sequência, Maria Luíza da Silva Cruz diz que é muito bom viver em ambiente com tanta riqueza cultural. Nesse contexto, as famílias têm seu papel. “Meu avô, José Geraldo Sant’Ana, sempre falou muito sobre as histórias de Sabará. Então, na escola, aprendo ainda mais”, revela Kauã Guilherme Souza Monteiro Sant’Ana.
Aula no adro da igreja
Após o encontro no salão nobre da Escola Estadual “Paula Rocha”, a professora Fernanda Corradi caminha com os estudantes até a Igreja Nossa Senhora do Rosário, do século 18, erguida pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Sabará. A turma observa e todos os alunos sabem de cor e salteado a história do templo de pedras tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “Foi construída pelos escravizados, a exemplo de muitas igrejas barrocas, mas não foi concluída”, diz a docente. E por quê? As obras foram interrompidas devido à escassez de recursos e paralisadas definitivamente com a Abolição da Escravatura, em 13 de maio de 1888. Com a assinatura da Lei Áurea, “os escravizados foram embora”, ficando ali as maciças paredes de pedra à mostra e uma capela menor preservada no interior.
O nome da escola
Segundo o pesquisador da história de Sabará, José Bouzas, o nome Paula Rocha é uma “homenagem merecida ao grande professor Séptimo de Paula Rocha, que tinha uma escola na casa dele, onde hoje é o Museu do Ouro”. A Escola Paula Rocha começou a funcionar no antigo Sobrado do Barão, do outro lado da Praça Melo Viana. No entanto, o imóvel foi demolido e as aulas transferidas para o atual prédio da Escola Estadual “Paula Rocha”, inicialmente Grupo Escolar “Paula Rocha”. Bouzas diz que sua mãe estudou, em 1917, no antigo prédio. O sabarense Fernando de Melo Viana (1878 1954), presidente (não se falava governador) de Minas Gerais à época (de 1924 a 1926), foi quem mandou construir o Paulo Rocha atual. “A primeira diretora foi uma professora, apelidada dona Mariquinha Cintra.”
Horta vira sala de aula para lição ambiental
Já na Região Oeste de Belo Horizonte, as lições ambientais estão no dia a dia dos alunos. Se conjugam com alegria os verbos brincar, correr e estudar, aprendem também os tempos de plantar, regar, colher e, claro, saborear novos tipos de verdura. Na Escola Municipal “Salgado Filho”, no Bairro Havaí, a atividade integra o Projeto Horta e Compostagem, desenvolvido na unidade com apoio da Prefeitura de Belo Horizonte, para aproximar as crianças da natureza e ensinar, na prática, cuidados com o meio ambiente e a alimentação saudável.
Alface, mostarda, almeirão, beterraba, pimentão, jiló e tomate estão entre os alimentos cultivados pelos estudantes. Antes de colocar as mudas na terra, a turma aprende a preparar o solo e usar a compostagem produzida na própria escola. Depois, acompanham o crescimento das plantas, regam, cuidam e, finalmente, participam da colheita.
Alunos da Escola Municipal Salgado Filho, no Bairro Havaí, cuidando da horta
Para Bárbara Stefany Lopes, de 10 anos, a horta mudou sua relação com a comida. "Não gostava de verdura, não gostava mesmo...não comia de jeito nenhum. Depois que comecei a provar aqui na escola, vi como é bom.” A alface virou a verdura favorita da menina, e o que aprendeu na escola passou a fazer parte da rotina doméstica. Quando visita a propriedade da família em Juatuba (Região Central de Minas), onde o avô, que ela considera pai, mantém uma plantação, Bárbara ajuda no cultivo. “Aprendi que horta não é só plantar e colher, é você cuidar, ter aquele carinho, paixão”, destaca.
Pedreiro, o avô de Bárbara deixou sua marca na horta, sendo chamado pela escola para ajudar na construção do espaço. "Um dia, me perguntaram em que meu pai trabalhava, e falei que era pedreiro. Pediram para ele ajudar, e aceitou na hora." Saber que seu avô, que considera pai, pôs a mão na massa para ajudar a escola deixou a estudante bem orgulhosa. "Esta horta é uma alegria, e meu pai ter ajudado a fazer é maravilhoso."
A irmã de Bárbara, Isadora Lopes, de 8, também gosta de passar o tempo na horta. Ajuda a cuidar da terra, das minhocas e a regar a horta. Entre todas as tarefas, porém, há uma favorita: cuidar de Jurema, a “espantalha” feita com roupas velhas e chapéu, sempre pronta para afastar as aves da plantação. “É a minha boneca favorita”, conta Isadora.
A exemplo da irmã, Isadora passou a gostar de alface depois de começar a participar da horta. Antes, conta que não gostava de verduras e preferia arroz e feijão. "Minha aula favorita é cuidar da horta. Gosto de plantar, colher e deixar o espaço cada vez mais bonito."
Da terra ao prato
A mudança nos hábitos alimentares se encontra presente em outras crianças da escola. Emanuele Oliveira, de 8, está há três meses participando das atividades e também escolheu a alface como sua verdura preferida. Revela que não gostava muito de verduras antes de entrar na Escola Integrada. Agora, além de plantar, rega as plantas pela manhã. "Se pudesse, plantaria cenoura aqui na horta", conta.
Maria Flor Santos, de 6, também descobriu novos sabores. A pequena conta que também não gostava de verduras e preferia doces, mas hoje o brócolis está entre seus alimentos favoritos. Para ela, plantar, colher e regar figuram entre as atividades que mais gosta de fazer na escola. “Gosto muito de mexer com a horta. Minha mãe dizia que as verduras são boas para a saúde, mas, antes, eu não gostava de verdura. Só queria mesmo era doce”, conta Maria Flor. Se pudesse escolher um novo cultivo para o espaço, plantaria salsinha, que considera muito saborosa.
Após a colheita, os alimentos têm diferentes destinos. Parte é levada pelos próprios estudantes para casa, enquanto outra é usada na escola. Em alguns dias, as crianças participam de mutirões para preparar saladas com os alimentos cultivados por elas. Segundo a coordenadora do Programa Escola Integrada da “Salgado Filho”, Nídia Amaral, até crianças que costumavam rejeitar verduras demonstram mais interesse quando sabem que o alimento foi plantado por elas.
O trabalho na horta é acompanhado pela monitora de educação ambiental, Elen Ruggio, que está há três anos na escola. Além das atividades práticas, ela também realiza aulas teóricas para explicar aos estudantes a importância do cultivo, do solo e dos cuidados com as plantas. O menino Bernardo Gonçalves, de 11, diz que plantar é uma das suas atividades preferidas, pois a experiência o ajuda a aproximar da natureza, fazer amizades e experimentar alimentos que antes não comia. “A gente se diverte cuidando da horta, e faz amigos”, afirma.
Bernardo também não gostava de comer nenhum tipo de verdura. Com o tempo, gostou de alface. Quando há alimentos disponíveis para levar para casa, ele entra na fila e escolhe de acordo com o que a família gosta. Cecília Eduardo, de 11, frequenta a horta há cerca de três anos e aprecia a convivência com as plantas. "Gosto de comer verdura desde pequena. Minha mãe me acostumou bem cedo. Aqui, aprendi como se planta tomate. É diferente, é muito educativo, como se você tivesse plantando Jesus."
Por influência da família, Maria Cecília Amaral, de 9, também mudou a relação com as verduras. A avó dela a incentivou a comer alimentos naturais explicando que eles auxiliam no crescimento do cabelo e a deixariam mais saudável. “Então, fui gostando e comendo as verduras. Hoje minha favorita é a beterraba."
Na avaliação da monitora Elen, o contato com a horta trouxe mudanças no comportamento e no aprendizado dos alunos. Segundo ela, acompanhar o desenvolvimento das plantas ajuda até estudantes com dificuldades em leitura e escrita. “O comportamento mudou muito. A gente vê que há crianças aqui que, lidando com a terra, tiveram avanços na leitura, na escrita, enfim, no aprendizado. Isso foi muito importante”.
A coordenadora Nídia destaca que o projeto permite trabalhar diferentes conteúdos a partir de uma mesma atividade. Além da educação ambiental, a horta pode ser usada para ensinar matemática, português e educação financeira. O Projeto Horta e Compostagem é desenvolvido na Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte desde 2016, em parceria com a Secretaria Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional. As escolas recebem mudas de hortaliças, adubo orgânico e orientação técnica.
Adubo e mudas
Em 2024 e 2025, foram distribuídos 25,5 mil sacos de adubo orgânico e 288,9 mil mudas de hortaliças. Neste ano, até setembro, mais de 200 unidades escolares receberam 7,9 mil sacos de adubo e 86,6 mil mudas. Na Escola Municipal Salgado Filho, o aprendizado começa na terra, passa pelas mãos das crianças e chega ao prato. Para os alunos, cuidar da horta é também descobrir novos sabores, aprender a preservar a natureza e perceber que até uma pequena semente pode virar parte da rotina.
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*Estagiária sob supervisão da editora Vera Schmitz
