O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba (CBH Paraopeba) instaurou, nessa quarta-feira (13/8), um processo administrativo interno em caráter de urgência contra a Copasa. Segundo o CBH Paraopeba, a notificação tem caráter preventivo com o intuito de fiscalizar e exigir da companhia a imediata e plena execução do Plano de Ação de Emergência (PAE) da Barragem Serra Azul, em Juatuba, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). 

O CBH Paraopeba afirma que o próprio PAE da barragem, elaborado pela concessionária em 2019, classifica o cenário como crítico. O processo pede que a Copasa apresente, em um prazo de dez dias:

  • laudo técnico atualizado de estabilidade do barramento com planos de contingência para o período chuvoso; 
  • relatório comprobatório do pleno funcionamento das sirenes e sistemas de alerta sonoro nas Zonas de Salvamento Inicial (ZAS);
  • plano de rotas de fuga e sinalização atualizado para os bairros afetados;
  • calendário de simulados de evacuação com a comunidade local.

Segundo o comitê, o barramento conta com uma estrutura de terra de 52 metros de altura e um reservatório de 87,46 milhões de metros cúbicos. Segundo os mapas de inundação vigentes, uma eventual ruptura atingiria severamente os bairros Centro, Varginha, Cidade Nova 1, 2 e 3 e São Jerônimo.

De acordo com o estudo de impacto, a barragem está voltada para o centro urbano da cidade. Cerca de 25 mil pessoas se encontram na mancha de inundação de uma eventual ruptura. A estrutura faz parte da bacia do Rio Paraopeba, que fornece abastecimento de água potável para a RMBH, o que faria com que um acidente afetasse diretamente o serviço para cerca de 3,5 milhões de pessoas. 

Impactos do rompimento

Segundo o estudo de inundação anexado ao PAE, na hipótese de um rompimento no cenário mais crítico, a onda atingiria uma área de aproximadamente 53,5 km² e se estenderia por 100 km ao longo dos talvegues (linha que une os pontos mais baixos do leito de um rio) do Ribeirão Serra Azul e do Rio Paraopeba. O rompimento atingiria também áreas rurais de Betim, de Esmeraldas, de Florestal, de Pará de Minas, de São José da Varginha, de Pequi e de Fortuna de Minas.

O CBH Paraopeba solicitou ação de outros órgãos relacionados por meio de ofícios encaminhados nesta sexta-feira (14/8). À Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (CEDEC/MG), o Comitê pediu intervenção, coordenação de testes reais nos sistemas de alerta sonoro, atualização das rotas de fuga, cadastramento dos moradores e realização de simulados práticos de evacuação junto à comunidade juatubense. Ao Ministério Público do Estado de Minas Gerais, por meio da Promotoria de Justiça da Comarca de Juatuba, foi solicitada intervenção urgente e acompanhamento para a fiscalização jurídica do cumprimento das determinações.

O processo será acompanhado pela Prefeitura Municipal de Juatuba, pela Superintendência de Defesa Civil do município e pelas diretorias de segurança de barragens da Defesa Civil estadual e pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam).

O Igam disse que a Barragem Serra Azul foi considerada segura pela Inspeção de Segurança Regular (ISR) realizada em novembro de 2025. Segundo o órgão, a fiscalização feita em 2022 também não identificou anomalias significativas, e a estrutura não apresentava, até então, necessidade de acompanhamento rotineiro mais próximo.

Ainda afirmou que a fiscalização mais recente não apontou irregularidades ou pendências de grande impacto para a Copasa, apenas medidas para manter as condições de segurança. Apesar da proximidade do período chuvoso, não há preocupação específica com a barragem. O monitoramento das sirenes e dos sistemas de alerta, segundo o órgão, é responsabilidade do empreendedor e das instituições competentes.

O Estado de Minas entrou em contato com a Copasa, com o MPMG e com a Defesa Civil Estadual mas, até o momento da publicação desta matéria, não obteve resposta. O espaço segue aberto.

Sistema Paraopeba

O Sistema Paraopeba é responsável por abastecer aproximadamente 60% da população da Grande BH. Ele é formado por três grandes reservatórios que trabalham de forma integrada: Rio Manso, Vargem das Flores e Serra Azul. 

Os outros 40% do abastecimento ficam a cargo do Sistema Rio das Velhas, com captação no distrito de Bela Fama, em Nova Lima. A operação integrada entre os dois sistemas é uma estratégia para dar mais estabilidade ao fornecimento, especialmente em períodos de estiagem ou de manutenção. 

A Copasa monitora constantemente os níveis dos reservatórios por meio de seu Centro de Operação de Sistemas (COS), que acompanha em tempo real a situação hídrica da região.

Influência do El Niño

Projeções NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA) indicam 81% de chance do fenômeno El Niño 2026 ter intensidade muito forte, com potencial para provocar alterações climáticas severas em todo o Brasil, impactando desde a rotina das cidades até a produção agrícola. O evento começou oficialmente em junho de 2026 e pode se tornar um dos mais intensos das últimas décadas.

O fenômeno pode impactar a Barragem Serra Azul, uma vez que uma alteração dos índices pluviométricos poderiam impor o barramento a um severo estresse hidráulico, aumentando as chances de rompimento. 

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“Vidas humanas e a segurança socioambiental de toda a bacia estão em jogo. A aplicação do princípio da precaução exige que se atue antes do desastre, e não depois dele”, disse o presidente do CBH Paraopeba, Heleno Maia.

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