Escola Guignard dá a partida para reforma
Já com tapumes, prédio no Mangabeiras entrará em obras na próxima semana para eliminar goteiras, infiltrações e risco ao acervo
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Alguns estudantes temem que sua saída temporária do prédio termine se tornando permanente. “A obra já devia ter acontecido faz tempo. O prédio foi recentemente ameaçado pelo projeto do Propag ( Programa de Pleno Pagamento das Dívidas dos Estados) e é muito visado, pelo lugar em que ele está, ali no Mangabeiras. Então a gente fica em alerta, porque (a transferência dos alunos) é uma oportunidade para fazer com que a gente não volte para lá”, opina Julio Fraga Marques, vice-presidente do Diretório Acadêmico da Escola Guignard.
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Júlio iniciou o curso de licenciatura em Artes Plásticas em 2024 e atualmente está no 6ºperíodo. Segundo ele, o prédio apresenta desgaste na parte elétrica, com fios à mostra, e goteiras em diversas salas e corredores, levando à necessidade do uso de baldes para recolher a água. Esse conjunto de fatores fez com que o auditório fosse interditado, devido ao risco de curto-circuito e incêndio, assim como uma galeria e o estúdio de fotografia. Além disso, a umidade pode prejudicar os trabalhos dos alunos.
“Goteira em um prédio de artes é muito perigoso, né? Ainda mais que quase todas as técnicas têm uma sensibilidade à água, e a umidade pode gerar mofo”, explica o estudante. “No auditório também havia aulas, então, é menos uma sala de aula, e é onde eram feitas as formaturas. Teve colação de grau que foi realizada no hall da faculdade, porque não pôde ser no auditório”, completa.
Atualmente, a Guignard atende 430 estudantes e conta com um corpo docente de 27 professores. A escola oferece curso de graduação em Artes Plásticas, nas modalidades licenciatura e bacharelado, e um curso de pós-graduação.
PATRIMÔNIO DETERIORADO
A história da instituição remonta a 1944, com a criação, pelo então prefeito de Belo Horizonte Juscelino Kubitschek ( 1912-1976), da Escola de Bela Artes, que funcionava no porão do Palácio das Artes e era dirigida pelo artista plástico Alberto da Veiga Guignard (1896-1962). Com o tempo, a escola se transformou em um dos mais importantes equipamentos de educação artística do estado. Em1994, ganhou uma sede própria, projetada pelo arquiteto Gustavo Penna. Na mesma época optou por se juntar com outras três escolas para formarem o Câmpus BH da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg).
O formato do edifício, cheio de simbolismo, lembra um trem que parece se locomover em direção à Serra do Curral, compondo a paisagem do Bairro Mangabeiras, onde a escola está localizada. O prédio icônico, infelizmente, sofreu com a falta de manutenção.
“Para a época, o imóvel era muito moderno. Passados esses 30 anos, ele já precisa de algumas adaptações para as normas vigentes e exige intervenções rápidas na parte estrutural, elétrica, hidráulica e de acessibilidade de forma geral. Essa reforma que vai começar agora será para resolver essas peculiaridades”, diz João Eric Mendes Lopes, gerente de Compras, Logística e Patrimônio, setor também responsável pela infraestrutura física da Uemg.
VISTORIA DE PARLAMENTARES
Uma visita da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) realizada em novembro de 2025 apontou que infiltrações e goteiras são consequências de vazamentos no telhado, que não recebe manutenção adequada há, no mínimo, sete anos. Além da segurança dos alunos e funcionários, segundo a comissão, isso também coloca em risco o acervo artístico da Guignard, formado por pinturas, esculturas, peças de cerâmica, xilogravuras, litografias, livros, entre outras obras.
A Comissão identificou também um buraco grande no teto da biblioteca e outro no banheiro da sala dos professores. Na sala da diretoria há rachaduras na parede e a mesma está se deslocando. “A parede que está se deslocando é a parte mais sensível. Mas não tem risco de alguém transitar ali, porque o local está bem isolado”, afirma Lopes. O gerente garante ainda que o deslocamento da parece não oferece risco de levar o prédio a um colapso.
De acordo com Lopes, desde 2020 há uma movimentação por parte da Escola Guignard para que a reforma fosse feita, mas a pandemia interrompeu as discussões sobre a obra. Quando as tratativas foram retomadas, o projeto precisou passar pela Secretaria de Estado de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias (Seinfra) e da validação do arquiteto Gustavo Penna. “Então, tem cinco anos que essa história vai e volta”, comenta Lopes.
EXPOSIÇÃO “INTERDITADA!”
Para denunciar o estado em que se encontra o prédio, foi inaugurada em julho a exposição “Interditada!”, uma mostra coletiva idealizada pelo fotógrafo Aguino na galeria da Escola Guignard interditada pelo Corpo de Bombeiros no fim do ano passado. “As aulas são dadas há anos num prédio caindo aos pedaços”, diz Aguino. Reunindo 34 artistas, a mostra tem tudo o que se espera de uma exposição convencional:
edital de convocação, curadoria, expografia, texto crítico, registro audiovisual e cartaz de divulgação, porém, é inacessível para o público. A montagem de “Interditada!” foi feita enquanto materiais eram retirados da galeria, que passava pelo processo de desocupação.
Aproveitando essa janela, Aguino e o professor Ícaro Moreno organizaram a mostra. A exposição-denúncia ficou em cartaz até 27 de julho. “A interdição mobilizou diferentes reações no âmbito da comunidade acadêmica”, informou a Uemg por meio de nota. “Entre elas, esteve a concepção da exposição mencionada, que, de natureza conceitual, provocou reflexões acerca do estado tanto da galeria quanto do prédio como um todo, e não causou transtornos ao funcionamento das atividades da escola”, prossegue o texto.
RECURSOS
Com o projeto aprovado, o contrato para a reforma da Escola Guignard foi assinado em 8 de maio deste ano com a empresa BHZ Construtora no valor de R$ 10,6 milhões. De acordo com o edital da obra, a “reforma geral da escola é uma necessidade iminente, considerando o avançado estado de deterioração de sua estrutura física”.
O documento ainda reconhece o grande valor histórico do imóvel e estabelece que “todas as intervenções respeitem as características originais do prédio, preservando seus elementos históricos e arquitetônicos, especialmente as esquadrias”. A reforma deve durar dois anos.
MUDANÇA ADIADA
Com as obras, estava previsto que os alunos iniciassem o segundo semestre letivo já em um local provisório. As primeiras tratativas estão acontecendo com a Fumec, mas o contrato ainda não foi assinado. Também é estudada a possibilidade de alocação dos estudantes em outros dois prédios em BH, mas ainda não há nenhuma proposta formal e, por isso, os locais não foram divulgados.
João Eric explica que a escolha de um local demanda uma infraestrutura específica para as necessidades do curso de Artes Plásticas, como salas de aula com pias para lavar pinceis e demais materiais, e fornos para queima de cerâmica. Assim, as aulas seguem na Escola Guignard concomitantemente com a reforma.
“Lá tem aula teórica e prática, que demanda alguns equipamentos muito específicos e não é qualquer imóvel que os comporta. Por exemplo, os fornos demandam muita carga elétrica, e a gente tem que achar um imóvel que comporte esse equipamento. Isso demanda uma atenção maior para a procura desse imóvel”, disse o gerente.
O Estado de Minas entrou em contato com a Fumec e com a Associação dos Docentes da Universidade do Estado de Minas Gerais (ADUEMG) mas, até o fechamento desta edição não obteve resposta.
UEMG E O PROPAG
Em 2025, a Escola Guignard e outros prédios da Uemg chegaram a entrar para a lista de 343 imóveis a serem vendidos ou transferidos pelo governo de Minas para a União com o objetivo de amortizar a dívida estadual por meio do Propag. Na época, alunos e professores da Uemg receberam a proposta de inclusão da instituição no Propag com surpresa e indignação. Depois de muito debate, a Lei 25.871 foi aprovada em 16 de maio deste ano com uma lista de 191 imóveis e a Uemg foi retirada.
O presidente da Aduemg, Túlio Lopes, afirmou que o Projeto de Lei 3.738/2025 não trata de federalização: “O projeto apresenta a transferência da gestão e a venda do patrimônio. Se a Uemg vende o patrimônio que tem, deixa de existir, porque é uma autarquia. E para vender o patrimônio, o governo precisa acabar com a gestão da universidade porque ela é responsável pelo patrimônio.” Ainda de acordo com Lopes, não havia nenhum interesse da União em assumir a gestão da universidade, o que seria mais um sinal de que o objetivo final do então governador Romeu Zema (Novo) seria privatizar a gestão.
Para Hugo Souza, diretor de Relações Intersindicais e Parlamentares do Sindicato dos Servidores da Tributação, Fiscalização e Arrecadação do Estado de Minas Gerais (Sinfazfisco-MG), a inclusão dos imóveis no Propag tinha como objetivo acabar com a Uemg ou abrir espaço para a privatização. Segundo ele, a Uemg tem 71 imóveis próprios, que valem aproximadamente R$ 200 milhões.
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“Há 1.036 professores efetivos, mais de 641 contratados, são 77 técnicos, 363 contratados temporários e 22 mil estudantes. O orçamento da Uemg para este ano é de R$ 444 milhões. Quem, em sã consciência, vai querer adquirir isso? Ele (governo estadual) sabe que o governo federal não vai aceitar isso, imóveis e gestão valendo R$ 200 milhões, para pagar uma dívida, sendo que o passivo é de R$$ 444 milhões por ano. A única explicação é que ele vai poder vender esses imóveis e privatizar a Uemg”, analisou Souza, na época.