ARTES VISUAIS

Galeria da Escola Guignard abriga exposição que ninguém pode ver

Mostra 'Interditada!', de 34 artistas, está em cartaz a portas fechadas na escola da Uemg porque o espaço, em estado precário, não foi liberado pelos Bombeiros

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A porta da galeria está fechada. Ninguém entra. Não há exceções, nem estudantes, nem visitantes e nem jornalistas. A reportagem do Estado de Minas foi barrada. Mas, atrás da porta, há uma exposição de fotografias em cartaz. As imagens foram impressas, selecionadas, emolduradas e montadas de acordo com rigoroso projeto curatorial. Só não podem ser vistas.

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É justamente esta impossibilidade que sustenta “Interditada!”, mostra coletiva idealizada pelo fotógrafo Aguino, que transforma a interdição da galeria da Escola Guignard pelo Corpo de Bombeiros, no final do ano passado, em denúncia do processo de degradação da instituição.

Reunindo 34 artistas, “Interditada!” tem tudo o que se espera de uma exposição convencional. Contou com edital de convocação, curadoria, expografia, texto crítico, registro audiovisual e cartaz de divulgação. No entanto, a galeria está fechada por causa das condições estruturais do prédio da escola.

Durante visita técnica, parlamentares da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais constataram infiltrações em quase todas as dependências, vazamentos no telhado e instalações elétricas precárias. Na sala dos professores, o teto do banheiro caiu.

“As aulas estão acontecendo há anos num prédio caindo aos pedaços”, diz Aguino. Foi disso que surgiu a ideia de montar “Interditada!”. Em vez de contornar a interdição da galeria, o fotógrafo fez dela matéria-prima.

Não se trata de gesto inédito na arte contemporânea. O norte-americano Robert Barry e o espanhol Santiago Sierra já realizaram intervenções que restringiam ou impediam o acesso total do público. Contudo, em “Interditada!” o fechamento do espaço não é decisão estética, mas consequência da degradação física de um espaço educacional.

O projeto começou quando Aguino constatou que a Guignard “é ruína”. Aluno da escola, teve essa percepção enquanto desenvolvia pesquisa sobre ruínas em áreas rurais de Betim, onde mora.

“Fotografava construções sendo tomadas pela natureza. De repente, percebi que aquilo que eu estava procurando também existia dentro da escola. Eu via o prédio mancando, pedaços caindo, aquilo começou a fazer sentido para mim”.

Zona cinzenta

Em vez de denunciar o problema por abaixo-assinados ou manifestações, Aguino preferiu recorrer à linguagem da arte. Desde o início do ano, o projeto permaneceu meses em uma espécie de zona cinzenta, sem chegar a ser exatamente autorizado e nem ser totalmente proibido.

“A interdição mobilizou diferentes reações no âmbito da comunidade acadêmica”, informa a Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg), responsável pela Escola Guignard, por meio da assessoria de imprensa.

“Entre elas, esteve a concepção da exposição mencionada, que, de natureza conceitual, provocou reflexões acerca do estado tanto da galeria quanto do prédio como um todo, e não causou transtornos ao funcionamento das atividades da escola”, prossegue a nota.

Arquiteto Gustavo Penna diante do prédio com linhas curvas da Escola Guignard, em BH, projetado por ele
Prédio da Escola Guignard, diante da Serra do Curral, foi projetado pelo arquiteto Gustavo Penna Sidney Lopes/EM/D.A Press/2021

A montagem de “Interditada!” ocorreu enquanto materiais eram retirados da galeria, que passava pelo processo de desocupação. Aproveitando essa janela, Aguino e o professor Ícaro Moreno organizaram a mostra. Tudo foi executado rapidamente, mas o com cuidado de se criar uma exposição que fizesse sentido aos olhos de qualquer visitante.

As fotografias nas paredes, de acordo com o curador, vão além do registro documental. Ao longo dos eixos propostos pelo edital (abandono, descaso e afeto), artistas enviaram obras tratando da escola a partir das próprias experiências.

Cada participante enviou até cinco fotos, a curadoria escolheu quais seriam impressas, em que tamanho e posição seriam instaladas. Algumas apresentam a instituição e outras retratam trabalhos produzidos em contextos diferentes, só possíveis graças à formação recebida ali.

“Um dos artistas até chegou a publicar nas redes sociais: ‘Vai lá conferir’”, lembra Aguino, indicando que nem mesmo os participantes entendiam o conceito da mostra. “Tive de responder (na própria publicação) que as pessoas até poderiam ir, mas dariam de cara na porta. Isso mata o artista de ódio, mas também faz parte do trabalho. A exposição coloca em tensão até o nosso desejo de ver o próprio trabalho exposto”, revela.

Recentemente, a Uemg anunciou que a escola funcionará temporariamente nas dependências da Fumec. A locação do espaço foi autorizada pelo Comitê de Orçamento e Finanças e o contrato terá duração de dois anos.

Trâmites “em andamento”

Nota da instituição informa: “Embora a empresa responsável pela reforma já tenha iniciado os trabalhos e a Escola Guignard permaneça instalada em sua sede, os trâmites administrativos e as adaptações necessários para a transferência e funcionamento das atividades para a sede provisória estão em andamento e deverão ser concluídos em breve.”

Até 27 de julho, “Interditada!” continuará em cartaz para ninguém ver. “Provavelmente, deve causar algum problema até lá”, brinca Aguino. Mas a ideia é esta. “Depois, penso em fazer da mostra um filme ou algo do tipo, porque ela precisa ser desinterditada”, adianta o fotógrafo.

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Gravuras penduradas na parede da galeria da Escola Guignard, em BH
Em 2004, a Escola Guignard abriu as portas para receber a exposição do Projeto Gravura Pedro David/Caixa Preta/2004

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