Exposição 'Restos de clareúme' procura expandir o universo dos sonhos
Mostra do duo Gabriela Sá e Ícaro Moreno, na galeria do Sesiminas, leva o ato de sonhar para os universos da palavra e da fotografia
compartilhe
SIGA
Em cartaz na Galeria de Arte do Sesiminas, a exposição “Restos de clareúme” investiga a possibilidade de tradução dos sonhos e as relações entre fotografia e escrita. Mas o trabalho do duo .:grão, formado pelos artistas Gabriela Sá e Ícaro Moreno, também revela como limitações e imprevistos podem se tornar parte fundamental da criação artística.
Em 2020, a dupla se inscreveu em edital de residência artística na Ilha do Mosqueiro, no Pará. Naquele período, haviam lido “Vastas emoções e pensamentos imperfeitos”, de Rubem Fonseca, romance no qual o protagonista é um cineasta que não consegue visualizar imagens durante os sonhos, apenas palavras.
A ideia despertou o interesse da dupla em trabalhar com sonhos. O edital, porém, determinava que apenas uma pessoa poderia viajar. Os dois decidiram incorporar aquela condição ao próprio projeto: quem viajasse teria apenas a missão de sonhar, enquanto o outro, de Belo Horizonte, transformaria os relatos em fotografias.
“Queríamos enfatizar a possibilidade criativa de lidar com os imprevistos. Ficou claro desde o início que só iria uma pessoa para a residência. Isso poderia ser um impeditivo e nos fazer devolver o trabalho, mas a nossa separação se tornou constitutivo da proposta”, comenta Gabriela Sá.
Leia Mais
Escolhido para a viagem, Ícaro não levou câmera fotográfica. Durante um mês e meio, registrava os sonhos em uma máquina de escrever. Os textos eram enviados como cartas para a parceira, que carregava os relatos consigo ao longo do dia, em busca de transformar o material em imagens.
“Tinha de produzir a partir dos sonhos dele. Era uma reinterpretação, porque ele não tinha direção para me dar. A gente sabia que a tradução seria impossível”, afirma a fotógrafa.
As imagens, feitas com câmera analógica, não eram enviadas a Ícaro durante o processo, para evitar interferências. Os elementos que despertavam a atenção dela nos relatos nem sempre correspondiam ao que era mais significativo para ele.
“Não queria criar imagens que ficassem no lugar da ilustração. Tentava me distanciar de alguma forma do texto para não ficar uma coisa muito ilustrativa, mas ainda queria ter uma conexão”, explica.
Arte do imprevisto
A escolha de Ícaro para viajar também foi resultado do imprevisto. Gabriela faria a residência, mas o parceiro precisou assumir de última hora. Coincidentemente, ele tinha mais dificuldade de se lembrar dos próprios sonhos.
No início, os relatos eram fragmentados. Algumas vezes, Ícaro enviava mensagens frustrantes por não conseguir recordar o que havia sonhado. Aos poucos, porém, as narrativas ganharam complexidade, incorporando detalhes do cotidiano e elementos do inconsciente pessoal.
Um dos relatos mais difíceis de transformar em fotografia foi o sonho em que Ícaro se encontrava com Maria Lúcia, a falecida dona da casa onde ele se hospedou durante a residência. A experiência tinha significado afetivo para ele, mas não alcançava Gabriela. “Havia o caráter emocional, uma coisa significativa que eu precisava acessar de alguma forma. Mas não estava lá, não escutei as histórias”, explica ela.
Constelação
A solução veio na montagem. Composta por cerca de 35 fotografias emolduradas e 15 textos, a expografia apresenta seis nichos, como uma espécie de constelação.
Nem sempre relatos e imagens estão lado a lado. Em alguns casos, os textos ficam próximos entre si, enquanto a fotografia produzida a partir deles ocupa outro espaço da galeria.
A ideia é de que o público crie as próprias imagens a partir do encontro entre texto e fotografia, ou com a própria imaginação, sem ficar preso apenas ao que foi relatado, afirma Gabriela.
“RESTOS DE CLAREÚME”
Exposição do duo .:grão (Gabriela Sá e Ícaro Moreno). Abertura nesta sexta-feira (10/7) às 19h, na Galeria de Arte do Centro Cultural Sesiminas (Rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia). Até 20/9. Visitação de segunda a sexta, das 13h às 21h. Entrada franca.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
* Estagiária sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria