Tráfego na BR-040, na saída de férias, no começo do mês: julho é historicamente marcado por grande volume de veículos e de acidentes nas estradas
O que seria uma celebração se transformou em luto na BR-116, na altura de Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri. Na noite de segunda-feira (27/7), o policial penal Charles Ferreira Costa Gomes, de 41 anos, dirigia rumo a Almenara, no Jequitinhonha, para acompanhar o nascimento dos filhos gêmeos quando o carro dele perdeu o controle em uma curva e colidiu contra uma carreta. O veículo ainda atingiu uma motocicleta antes de parar destruído no acostamento. Charles morreu no local, sem ter a chance de segurar os filhos nos braços. Na reta do mês e com um fim de semana pela frente, que para muitos encerra o período de férias, o momento é de atenção total para quem viaja, especialmente por vias como a que foi palco da morte do policial penal.
A tragédia, que abalou a região, demonstra a realidade brutal que marca as rodovias que cortam Minas Gerais neste mês de julho, período em que o aumento de fluxo decorrente das férias escolares acentua gargalos de infraestrutura e expõe os limites da imprudência ao volante. A morte de Charles foi a oitava registrada na BR-116 desde domingo (26/7), em três graves acidentes.
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A piora da violência no trânsito rodoviário nas últimas semanas acendeu um sinal de alerta para as autoridades de trânsito e órgãos de segurança pública. Com uma das maiores malhas viárias do país, o estado enfrenta uma combinação perigosa: estradas sinuosas, longos trechos em pista simples, tráfego pesado de carga dividindo espaço com famílias em viagem e condutores trafegando acima dos limites de velocidade.
Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) referentes aos primeiros cinco meses de 2026 desenham o mapa do perigo no território mineiro. Entre janeiro e maio deste ano, as três rodovias federais mais violentas de Minas contabilizaram milhares de ocorrências. A liderança do ranking permanece com a BR-381, conhecida como "Rodovia da Morte", onde foram registrados 1.185 acidentes.
Na sequência, aparece a BR-040, importante ligação entre a capital e o Rio de Janeiro, com 745 sinistros até maio. Segundo a EPR Via Mineira, a previsão é que a soma dos veículos em circulação no trecho entre BH e Juiz de Fora, na Zona da Mata, desde 17 de julho chegue a 887 mil em 2 de agosto. Em terceiro lugar no balanço da PRF está a BR-116, cortando o Leste e o Norte do estado rumo ao Nordeste, somando 566 ocorrências.
Embora o volume total da BR-381 cause medo contínuo devido ao tráfego sufocado entre a Região Metropolitana de Belo Horizonte e o Vale do Aço, o comportamento recente da BR-116 chama a atenção de especialistas pela severidade dos impactos. O trecho que cruza cidades como Governador Valadares, Teófilo Otoni e Além Paraíba se transformou no epicentro dos acidentes mais letais deste mês.
COLISÕES E MORTES NA BR-116
A tragédia com o policial penal na BR-116 junta-se a uma sequência de registros graves divulgados ao longo de julho. Nas últimas semanas, o trecho Rio-Bahia acumulou tombamentos de carretas, colisões frontais durante ultrapassagens indevidas e acidentes envolvendo motocicletas e caminhões pesados.
Em um dos episódios marcantes do mês na BR-116, em Santa Rita de Minas, no Rio Doce, uma colisão frontal entre duas carretas resultou em mortes e na interdição total da pista por horas, espalhando carga pela rodovia e gerando quilômetros de retenção. Na manhã de segunda-feira (27/7), uma colisão frontal entre um Chevrolet Celta e uma van da Secretaria Municipal de Saúde de Rubim provocou a morte de cinco pessoas e deixou outras seis feridas, no Km 204 da BR-116, em Itaobim, no Vale do Jequitinhonha.
Quatro das vítimas eram jovens de 19 a 21 anos que retornavam para Padre Paraíso depois de participarem de uma festa na cidade vizinha de Caraí. A quinta vítima foi identificada como Simone Pereira dos Santos, de 34 anos, professora da rede municipal de Rubim e passageira da van da Secretaria Municipal de Saúde. O cenário reflete a fragilidade operacional de uma via que suporta volume de tráfego muito superior à sua capacidade projetada, sem duplicação na imensa maioria de sua extensão.
A topografia da região exige paciência constante dos motoristas, mas a junção entre o cansaço de viagens longas e a impaciência para ultrapassar caminhões lentos em subidas cria armadilhas mortais. A BR-116, que funciona como uma das principais vias de integração entre o Sudeste e o Nordeste do país, recebe nas férias um acréscimo significativo de carros de passeio com passageiros que desconhecem os trechos mais perigosos do asfalto.
PESO HISTÓRICO
O aumento dos acidentes em julho ocorre justamente por ser um período de recesso escolar, intensificação do turismo rodoviário rumo às praias do litoral baiano e do Espírito Santo ou às cidades históricas de Minas, além da manutenção da rotina de transporte pesado.
A análise histórica da fiscalização rodoviária no estado demonstra a consolidação dessa sazonalidade. Levantamento feito pela reportagem do Estado de Minas, consolidado entre os anos de 2022 e 2024, aponta que o mês de julho mantém uma média elevada de sinistros de trânsito em Minas Gerais. Nesses três anos, o período de férias registrou constantemente números preocupantes de acidentes com vítimas, rivalizando diretamente com a temporada de festas de fim de ano, de dezembro a janeiro.
A transição da rotina urbana para as longas jornadas de estrada durante o recesso expõe condutores a cenários para os quais nem todos estão preparados. O motorista que costuma dirigir apenas em trajetos curtos e urbanos passa a enfrentar rodovias de alta velocidade, pista simples, trechos sem iluminação e ultrapassagens complexas lado a lado com composições tritrens e carretas bitrens.
PLANEJAR É ESSENCIAL
Na reta final de julho e com o movimento de retorno das férias escolares, as forças de segurança reforçam o policiamento ostensivo e o uso de radares móveis e bafômetros ao longo dos eixos mais movimentados do estado. A recomendação da PRF é de que o planejamento da viagem de volta seja feito com antecedência rigorosa.
A orientação principal para os motoristas que vão pegar a estrada nos próximos dias é evitar os horários de pico, concentrados tradicionalmente na tarde de sexta-feira, durante todo o sábado e no fim de tarde de domingo. De acordo com a corporação, a checagem dos itens de segurança do veículo, o respeito à sinalização de ultrapassagem e a consciência de que a pressa na estrada frequentemente custa vidas são medidas para impedir que novas famílias entrem para as estatísticas.
PONTOS DE ATENÇÃO
Segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), responsável pelas rodovias federais, durante o período, “ocorrem interdições parciais e temporárias na BR-381, no segmento entre Belo Horizonte e Caeté, em razão da execução de serviços de recapeamento”. Nas demais rodovias federais do estado, não há registros de interdições, e as vias apresentam boas condições de trafegabilidade.
O mapeamento dos meses de julho, entre 2022 e 2025, feito pela equipe do EM, levou em conta também sequências de 10 quilômetros que compuseram os segmentos mais violentos das rodovias BR-040, BR-381 e BR-262, com avaliação da PRF sobre riscos nesses locais e fatores que levaram aos sinistros, para que os viajantes possam se precaver.
Via mais movimentada de Minas, a BR-381, no sentido São Paulo, registrou os desastres que mais custaram vidas devido à alta velocidade nos trechos rurais do Sul de Minas, enquanto aqueles que resultaram em maior número de veículos acidentados se concentraram nas áreas urbanas da Grande BH.
O FATOR HUMANO
A infraestrutura defasada e a lentidão nas obras de duplicação das BRs 381 e 116 alimentam as críticas de usuários e prefeitos da região. Por outro lado, os dados da fiscalização revelam que o fator humano permanece no centro da maioria das tragédias. As principais infrações constatadas pela PRF nos trechos mais críticos durante os primeiros cinco meses de 2026 e reiteradas nas operações de julho incluem ultrapassagem em local proibido, excesso de velocidade, falta de manutenção preventiva, uso do celular ao volante e fadiga e sono.
Conforme o balanço da PRF, a ultrapassagem em local proibido é responsável pelas colisões frontais, tipo de acidente com maior índice de letalidade. Já o tráfego acima do limite reduz o tempo de reação em curvas fechadas e aumenta a distância de frenagem, enquanto pneus carecas, sistemas de freio desgastados e iluminação defeituosa amplificam o risco em situações de emergência.
Em relação ao comportamento dos motoristas, o uso do celular pode ser fatal. O mesmo para aqueles motoristas que insistem em dirigir longas distâncias sem pausas regulares – o que reduz o estado de alerta, levando à perda de controle do veículo. Somente nos cinco primeiros meses de 2026, Minas somou 3.756 acidentes nas rodovias federais. Desses, a maioria não teve feridos ou apenas feridos leves, mas 259 dos sinistros mataram pelo menos uma pessoa. Isso significa uma média de 1,6 morte por dia no estado em 2026.
Minas lidera no país em número absoluto de acidentes registrados em rodovias federais nos cinco primeiros meses de 2026, cerca de 10% a mais do que o segundo colocado, Santa Catarina, que registrou 3.409 sinistros.
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Os 10 municípios que mais registraram os acidentes foram Betim, com 301; Uberaba, com 145; Contagem, com 120; Uberlândia, com 119; Governador Valadares, com 111; Ribeirão das Neves, com 78; Manhuaçu, com 70; Teófilo Otoni, com 69; Nova Lima, com 67, e Muriaé, com 61. Já a BR-381, nas imediações da Grande BH, concentra a maior quantidade de acidentes no estado. Entre os cinco mais perigosos, quatro ficam em Betim e um em Contagem. Ao todo, foram 24 acidentes no Km 484; 14 no Km 490; 14 no Km 487, e 12 no Km 483, ambos em Betim, e 11 no Km 480, em Contagem.
