Depois de um longo percurso na educação pela fé, irmã Camila vive atualmente em pensionato na região centro-sul de belo horizonte

Edésio Ferreira/EM/D.A Press
Símbolo de educação pela fé em Minas Gerais, irmã Camila chega aos 100 anos com “festa virtual”. O centenário da religiosa vem sendo marcado nas redes sociais por lembranças daqueles que um dia oraram ao seu lado nos corredores do Colégio Nossa Senhora de Nazaré, em Conselheiro Lafaiete, município da Região Central de Minas, instituição particular de ensino fundada em 1905 pela Congregação das Pequenas Irmãs da Divina Providência. Hoje residente de um pensionato para religiosas em Belo Horizonte, Irmã Camila completou 100 anos em 13 de junho.


Ex-diretora do Colégio Nazaré, onde também estudou, iniciou a vida religiosa, foi professora e coordenadora educacional, a freira teve presença marcante na educação e é responsável por uma mudança na visão de acolhimento das crianças na instituição, conta ao Estado de Minas o advogado José Luiz Lopes, ex-aluno da escola de Conselheiro Lafaiete. "Acolhia crianças que passavam a viver nas dependências do colégio, onde dormiam, alimentavam-se, estudavam, recebiam orientação religiosa. Uma santa mulher, generosa, educadora, gestora, caridosa", descreve Lopes. No topo desse processo está a implantação da Creche Josefina Romeiro, projeto da própria irmã e que ficou sob sua direção de 1984 a 2017.


Também ex-aluna da instituição, Maria Creuza Coelho concorda. "Existe uma educação antes e depois da Irmã Camila em Lafaiete" afirma a hoje professora aposentada. Ela entrou no colégio em 1958 e hoje, aos 82 anos, diz que só tem agradecimentos à religiosa. "Ninguém consegue mensurar o que ela fez. Era moderna, amável, sabia de tudo da minha vida. E ela não fez só por mim, fez por todos’", afirma.


Terceira de oito filhos, Maria Camila Marques, natural de Entre Rios de Minas, também na Região Central de Minas, nasceu em berço católico, foi criada pela fé e seguiu o caminho da educação pastoral. A família, no entanto, não concordou imediatamente quando ela decidiu ser freira. "Meus pais disseram: 'Você é novinha, muito nova ainda para isso. Por que você quer deixar a família?”, relembra. A jovem insistiu que queria ser religiosa e o pai disse que concordaria, desde que ela terminasse sua formação educacional .


Atendendo ao pedido, ela ingressou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santa Maria, que funcionou entre 1942 e 1958 e é o “núcleo” da atual PUC Minas. Em 2 de fevereiro de 1946, então com 19 anos, ingressou no Colégio Nazaré, onde fez o noviciado em 1947/1948, começou sua carreira na educação pastoral e que viria a dirigir anos mais tarde em duas etapas distintas: 1970 a 1973 e 1948 a 2017.
Em 19 de março de 1949, fez sua profissão religiosa, com votos de pobreza, castidade em obediência. De 1949 a 1954, foi professora de Ensino Religioso, Português, Literatura e Latim, além de orientadora da Catequese Paroquial em Lafaiete.


De 1962 a 1968, foi professora Ensino Religioso, Psicologia, Sociologia e Biologia e exerceu o cargo de orientadora educacional da instituição. Em 1968, organizou o Grupo de Jovens na cidade, momento em que começou a ganhar destaque com trabalho de acolhimento a crianças e adolescentes.


Também viu surgir o Grupo de Gente Nova, trabalho promocional realizado em Conselheiro Lafaiete em bairros mais pobres. Na cidade, sempre foi conhecida por acolher crianças vulneráveis gratuitamente no colégio, antes de os modelos de creches públicas existirem no município.


A Irmã Camila viu no acolhimento infantil um espaço para o desenvolvimento dos jovens. "A criança não pode ser aprisionada, ele precisa de liberdade", disse. Ela se lembra perfeitamente de um pequeno jovem que queria ser padre. Ela ficou chocada com a escolha, assim como a sua, tão cedo, de dedicar a vida à fé. Porém, o que mais a impressionou foi sua maturidade. A criança, de 10 anos, tinha plena noção de que a caminhada da fé exigia estudo. "Ele falava: 'Tenho que estudar muito, muito mesmo, não é?'. E estava sempre atrás de mim falando que seria padre", comenta a irmã, em meio a risos.


Esses pequenos momentos de afeto criaram o interesse pelo acolhimento que essas crianças mereciam. A irmã recorda com carinho do tempo em que os alunos puxavam a barra da sua saia para chamar sua atenção. Ela se sentia amada e queria repassar esse sentimento para eles.


Uma característica marcante da fé da Irmã Camila é a espontaneidade com que fala sobre educação pastoral. "A criança por si tem fé, ela precisa de um ambiente para se manifestar", diz. A religiosa considera a fé em casa como essencial para os jovens. Exemplo que persiste dentro de sua própria casa, já que seus irmãos seguiram o mesmo caminho. Um deles é o padre José Marques, hoje no Rio de Janeiro.


Quando indagada sobre como mantém a fé, é direta: "Acreditando". E destaca que vem sem esforço e está em tudo que ela vê. Não à toa, seus afazeres favoritos atualmente são conversar e fazer leituras bíblicas. Nesses momentos, conta, sente conforto.


Ainda hoje, a religiosa convive com jovens e não gosta de como são tratados midiaticamente como "sem fé". "Isso é mentira! Vejo que, na hora certa, eles mostram sua fé", garante. A irmã lembra de seu passado sem saudosismo. "Tenho saudades de lá (Conselheiro Lafaiete), mas não me deixo envolver totalmente nessa saudade", explica.


Desde 2017, Irmã Camila vive no Pensionato Casa Madre Teresa Michel, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, que acolhe uma parcela das irmãs idosas da congregação. n

*Estagiário sob supervisão dos subeditores Thiago Prata e Rachel Botelho

Vida dedicada ao ensino

l 13/6/1926 – Nasce Maria Camila Marques, em Entre Rios de Minas, Região Central do estado

l 2/2/1949 – Maria Camila ingressa no Colégio Nossa Senhora de Nazaré, em Conselheiro Lafaiete.

l 1947/1948 – Faz o noviciado no Nazaré

l 19/3/1949 –Faz sua profissão religiosa com votos de pobreza, castidade e obediência, tornando-se irmã Camila

l 1949 a 1954 – Atua no Colégio Nazaré como professora de Ensino Religioso, Português e Literatura, Latim e orientadora da Catequese Paroquial da mesma cidade.

l 1962 a 1968 – Professora de Ensino Religioso, Psicologia, Sociologia e Biologia. No período também foi orientadora educacional e pioneira dos Grupos de Jovens na cidade, fase em que surgiu o Grupo de Gente Nova (GGN), trabalho promocional em bairros pobres da cidade.

l 1970 a 1973 – Assume a direção do Colégio Nossa Senhora de Nazaré

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l 1984 a 2017 – Novamente diretora da instituição e da Creche Josefina Romeiro, obra planejada e implantada por ela

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