Símbolo da educação pela fé em Minas, Irmã Camila completa 100 anos
Irmã Camila foi diretora do Colégio Nazaré e importante figura para acolhimento de jovens em Conselheiro Lafaiete; hoje reside em pensionato em BH
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A comemoração dos 100 anos da Irmã Camila foi marcada nas redes sociais por lembranças daqueles que um dia oraram ao seu lado nos corredores do Colégio Nazaré em Conselheiro Lafaiete, município da região Central de Minas.
O Colégio Nazaré fortalece a educação cristã da comunidade local desde 1905. A instituição particular foi fundada pela Congregação das Pequenas Irmãs da Divina Providência.
Irmã Camila, que comemorou seu centenário em 13 de junho, é uma figura marcante na educação do local e responsável por uma mudança na visão de acolhimento das crianças.
O advogado José Luiz Lopes conta ao Estado de Minas que estudou no colégio e presenciou os momentos de acolhimento da mulher durante sua estadia. "Acolhia crianças que passaram a viver nas dependências do colégio, onde dormiam, alimentavam-se, estudavam, recebiam orientação religiosa. Uma santa mulher, generosa, educadora, gestora, caridosa", descreve José.
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"Existe uma educação antes e depois da Irmã Camila em Lafaiete" são as palavras que Maria Creuza Coelho, ex-aluna do Nazaré e professora aposentada, usa para descrever a Irmã. Ela entrou no colégio em 1958 e hoje, com 82 anos, só tem agradecimentos a Camila.
"Ninguém consegue mensurar o que ela fez. Era moderna, amável, sabia de tudo da minha vida. E ela não fez só por mim, fez por todos’", afirma Creuza.
Fé de berço
Terceira de oito filhos, a senhora nasceu em berço católico, foi criada pela fé e seguiu o caminho da educação pastoral. A família, no entanto, não concordou imediatamente com essa tomada de decisão. "Meus pais disseram: 'Você é novinha, muito nova ainda para isso. Por que você quer deixar a família?’, explicou ela. A jovem insistiu que queria ser religiosa e o pai apenas solicitou que terminasse sua formação fora da fé antes.
Então realizou seu curso superior na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da atual PUC Minas e, com 19 anos, começou sua carreira na educação pastoral. O início ocorreu no mesmo colégio onde viria a ser diretora anos mais tarde, o Nazaré.
Cursou o primeiro e segundo graus na unidade, sendo a primeira aluna da turma e depois se tornou professora de português e literatura, latim, ensino religioso, psicologia, sociologia e biologia. Também orientou a catequese, um dos primeiros ritos na vida religiosa dos jovens. Junto a isso, em 1968, foi organizadora do Grupo de Jovens na cidade, momento em que começou a ganhar destaque com trabalho de acolhimento de jovens.
Também viu surgir o Grupo de Gente Nova, trabalho promocional realizado em Conselheiro Lafaiete em bairros mais pobres. Na cidade, sempre foi conhecida por acolher crianças vulneráveis, antes que modelos de creches públicas existissem no município.
Camila viu no acolhimento infantil um espaço para o desenvolvimento dos jovens. "A criança não pode ser aprisionada, ele precisa de liberdade", disse.
A irmã se lembra perfeitamente de um pequeno jovem que queria ser padre. Ela ficou chocada com a escolha, assim como a sua, tão cedo, de dedicar a vida à fé. Porém, o que mais a impressionou foi sua maturidade.
A criança, que tinha 10 anos na época, tinha plena noção de que a caminhada da fé exigia estudo. "Ele falava: 'Tenho que estudar muito, muito mesmo, não é?'. E estava sempre atrás de mim falando que seria padre", comenta a irmã, em meio a risos.
Esses pequenos momentos de afeto criaram o interesse pelo acolhimento que essas crianças mereciam. A irmã recorda com carinho do momento em que alunos puxavam a barra da sua saia para chamar sua atenção. Ela se sentiu amada e queria repassar esse sentimento para eles.
Fé como manifestação espontânea na juventude
Uma característica marcante da fé da Irmã Camila é a espontaneidade com que comenta sobre educação pastoral.
"A criança por si tem fé, ela precisa de um ambiente para se manifestar", diz. Ela considera a fé em casa como essencial para os jovens. Exemplo que persiste dentro de sua própria casa, já que seus irmãos seguiram o mesmo caminho, vide o padre José Marques, hoje no Rio de Janeiro.
Quando indagada sobre como mantém a fé, é certeira em responder: "Acreditando". E destaca que vem sem esforço e está em tudo que ela vê. Não à toa, seus afazeres favoritos atualmente são conversar e realizar as leituras bíblicas. Esses momentos trazem conforto a Camila.
Em meio a esses ritos, também convive com alguns jovens da igreja e não gosta de como são tratados midiaticamente como "sem fé". "Isso é mentira! Vejo que, na hora certa, eles mostram sua fé", garante.
A irmã lembra de seu passado sem saudosismo. "Tenho saudades de lá (Conselheiro Lafaiete), mas não me deixo envolver totalmente nesaa saudade", explica.
Desde 2017, Camila vive no Pensionato Casa Madre Teresa Michel, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, que acolhe uma parcela das irmãs idosas da congregação. Hoje, não exerce mais trabalhos como professora, mas sua presença não deixa de ser importante e ficou marcada no Colégio Nazaré.
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*Estagiário sobre supervisão do subeditor Thiago Prata