O avanço do envelhecimento da população brasileira tem redesenhado não apenas a dinâmica familiar, mas também o mercado de cuidados de longa duração. Entre a difícil escolha entre instituições especializadas e a contratação de cuidadores domiciliares, famílias enfrentam decisões que envolvem custos, qualidade assistencial e segurança jurídica – em um setor que ainda carece de maior organização e regulamentação.
À frente da instituição de longa permanência para idosos (ILPI) Rede Sênior, em Belo Horizonte, a gestora Ana Paula de Matos Pereira Passagli observa que a procura por esse tipo de serviço cresceu de forma significativa nos últimos anos. “A demanda por cuidados especializados para idosos tem aumentado consideravelmente. O envelhecimento da população se reflete diretamente na busca por apoio e assistência que proporcionem mais qualidade de vida, segurança e bem-estar”, afirma.
Segundo ela, o público atendido hoje é amplo e diverso. “Atendemos tanto idosos dependentes quanto independentes. Os dependentes ou com comprometimento cognitivo necessitam de auxílio assistido para banho, alimentação, locomoção e administração de medicamentos, contando com acompanhamento e cuidados contínuos. Já os independentes buscam um ambiente acolhedor onde possam ter companhia, socialização, conforto e segurança, sem se sentirem sozinhos ou um ‘peso’ para a família, preservando sua autonomia e dignidade”, explica.
No cenário de expansão dos cuidados domiciliares, a gestora avalia que a concorrência tem efeito positivo. “Considero a concorrência com os cuidados domiciliares um ponto positivo, pois impulsiona as ILPIs a terem, cada vez mais, características de um verdadeiro lar, onde os idosos se sintam acolhidos, seguros e bem assistidos”, diz.
Ela ressalta, no entanto, que há situações em que a institucionalização se mostra mais adequada. “As ILPIs são mais indicadas quando existe um grau maior de dependência do idoso, exigindo cuidados contínuos e assistência 24 horas, além de contribuírem para reduzir a sobrecarga física e emocional da família. Em muitos casos, o cuidado domiciliar passa a demandar vários cuidadores em escalas de 24 horas, o que torna o custo bastante elevado. Já nas ILPIs, além da assistência integral, o idoso conta com convivência social, acompanhamento multiprofissional e uma estrutura preparada para atender às suas necessidades de forma mais segura e humanizada”, pontua.
João Eugênio Pires de Moraes, de 87 anos, no quarto com sua arte: opção espontânea pela casa especializada
Serviço complexo
A gestão dessas instituições envolve desafios. “As principais dificuldades estão relacionadas à ampla diversidade e complexidade dos cuidados contínuos, à alta rotatividade de profissionais e às rigorosas exigências de conformidade legal e sanitária. A gestão exige equilíbrio constante entre qualidade assistencial, controle operacional, capacitação da equipe, segurança dos hóspedes e suporte às famílias”, afirma. A escassez de profissionais qualificados também impacta o setor. “Necessitamos de profissionais com qualificação técnica e formação específica, somadas a perfis que apresentem empatia, carinho, dedicação e muita atenção”, acrescenta.
No campo regulatório, Ana Paula destaca que as instituições seguem normas específicas. “A fiscalização e a regulamentação das ILPIs baseiam-se na RDC nº 502 da Anvisa, que estabelece normas essenciais para o funcionamento dessas instituições, garantindo os direitos fundamentais dos residentes e prevendo sanções severas para casos de negligência, maus-tratos ou descumprimento das exigências legais. Além da Anvisa, há o acompanhamento do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa”, explica.
Os custos também têm pressionado o setor. “Eles aumentaram devido ao crescimento do número de idosos e à necessidade de cuidados altamente especializados, com equipes multidisciplinares atuando 24 horas. Além disso, há aumento constante nos custos de insumos, alimentação, medicações e serviços de saúde”, diz.
Apesar da evolução dos serviços, o preconceito ainda persiste. “Infelizmente, ainda existe o estigma de que os lares para idosos são lugares de abandono. Para superar essa visão, trabalhamos em parceria direta com a família, promovendo uma assistência participativa, com visitas regulares. Na prática, o trabalho foca em oferecer atendimento humanizado, com suporte multidisciplinar que garante segurança, acolhimento, qualidade de vida e respeito à individualidade”, afirma.
A mudança consciente
Aos 87 anos, João Eugênio Gonçalves Pires de Moraes decidiu, por conta própria, mudar-se para a Rede Sênior. Depois de uma vida marcada pelo trabalho – foram 25 anos em uma multinacional italiana de carros elétricos – e pela dedicação à família, ele afirma que a escolha teve como principal motivação preservar a autonomia e não sobrecarregar os filhos.
“Não quero dar trabalho para eles. Cada um tem a sua vida, trabalha, tem seus compromissos. Vim para cá para dar um descanso”, conta. Viúvo (a esposa morreu aos 32 anos), João criou sozinho três filhos, hoje com 50, 48 e 42 anos, e se orgulha da família que construiu, incluindo cinco netos. Apesar da mudança, faz questão de destacar que o vínculo familiar permanece forte. “Eles me dão todo o apoio”, diz.
Há cerca de um ano na instituição, ele afirma ter encontrado um ambiente acolhedor e que respeita sua individualidade. “Aqui é ótimo, confortável. A direção é excelente. Fiz amigos e me sinto bem, como se fosse a minha própria casa”, afirma.
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No quarto, cheio de desenhos feitos por ele mesmo, João mantém viva uma paixão antiga. Filho de artista plástico, cultiva o hábito desde a infância. “Meu hobby é a minha arte, que eu amo”, resume. Com saúde estável – come de tudo e controla apenas colesterol e pressão —, ele leva uma rotina independente. “Faço as minhas coisas”, resume.
