A luz do quarto permanece baixa. Sobre a mesa, um copo com água, comprimidos organizados e um relógio que parece andar mais devagar durante a madrugada. Da poltrona ao lado da cama, o cuidador precisa observar, atento a cada movimento. Quando o idoso desperta confuso, chamando por alguém que já não reconhece, é essa presença constante que responde. Normalmente, não é um familiar. Mas, naquele instante, é quem está ali. Cenas como essa, que se repetem em inúmeras famílias brasileiras, revelam um mercado em crescimento – e ainda pouco compreendido – de profissionais que transformam o ato de cuidar em trabalho, rotina e, muitas vezes, vínculo pessoal.

Trata-se de um setor em franca expansão, mesmo marcado pela informalidade, mas cada vez mais estruturado como atividade econômica, aponta o enfermeiro e mestre em geriatria Estevan Oliveira, fundador e CEO do Grupo Acolher e Cuidar, rede de assistência domiciliar. “Ainda não existe um número oficial único que mostre todo o universo de cuidadores de idosos no Brasil, porque boa parte desse mercado funciona de maneira informal, por diária, indicação ou contratação direta pelas famílias”, afirma. Segundo ele, o dado mais consistente vem do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego: o número de cuidadores formais cresceu 547% entre 2012 e 2022, passando de 5.263 para 34.054 profissionais no país.

Os dados, porém, ainda revelam um retrato incompleto. “Índices mais recentes do Portal Salário indicam salário médio de R$ 1.812,95, considerando 91.517 profissionais admitidos e desligados nos últimos 12 meses. Ou seja, há um mercado formal em expansão, mas ele ainda não captura todo o universo de cuidadores”, analisa Estevan Oliveira.

É um cenário que acompanha claramente mudanças estruturais da sociedade brasileira, reforça ele. “Segundo o Censo 2022 do IBGE, o Brasil tinha 22,1 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, o equivalente a 10,9% da população, uma alta de 57,4% em relação a 2010. Já a população com 60 anos ou mais chegou a 32,1 milhões, ou 15,6% do total”, destaca. “Esse envelhecimento pressiona diretamente famílias, sistema de saúde, serviços domiciliares e instituições de longa permanência”, diz Estevan.

Procura e oportunidade

O crescimento do número de cuidadores também se reflete no empreendedorismo. “Um levantamento do Sebrae mostra que o número de micro e pequenas empresas de apoio e assistência a idosos cresceu 74% entre 2020 e 2025. Só em 2025, foram abertos 57,2 mil novos CNPJs nessa atividade”, afirma o mestre em geriatria, acrescentando que o cuidado com idosos está deixando de ser uma responsabilidade exclusivamente familiar para se transformar em um setor econômico.“Ele tende a se tornar um dos mercados mais relevantes da economia da longevidade.”

Mas, na prática, a demanda cresce mais rápido do que a qualificação. “Existe déficit, principalmente, de profissionais qualificados. O mercado até encontra pessoas interessadas, mas nem sempre com preparo para lidar com situações como idosos acamados, demências, medicação, banho no leito ou emergências”, aponta Estevan Oliveira.

Custos sem padrão

Os custos do serviço variam bastante, o que reflete a falta de padronização. “Uma diária de 12 horas costuma variar entre R$ 150 e R$ 280. Já plantões de 24 horas podem ficar entre R$ 280 e R$ 400 ou mais, especialmente em grandes capitais e para casos mais complexos.”

O atendimento diurno costuma ser mais acessível, explica Estevan, e o noturno tende a custar mais. Diárias de fins de semana e feriados também são mais caras. Quando a família precisa de cuidado 24 horas, geralmente é necessário montar uma escala com mais de um profissional. “Nesses casos, o custo mensal pode variar facilmente de R$ 3 mil a mais de R$ 9 mil por mês, dependendo da escala e do nível de assistência.”

As tabelas das instituições de longa permanência (ILPIs) também apresentam variação. “Os valores podem partir de alguns milhares de reais por mês e passar de R$ 8 mil ou R$ 10 mil em instituições mais completas ou em casos de alta dependência.”

Estevan reforça que o setor ainda carece de organização. “Não existe tabela nacional de preços. Os valores mudam conforme cidade, carga horária, complexidade do cuidado e experiência do profissional. Isso mostra que o mercado ainda está amadurecendo.”


“check list” para mais segurança

Para garantir qualidade e segurança no serviço prestado, o mestre em geriatria Estevan Oliveira ensina que o caminho mais seguro é checar referências, verificar experiência, pedir certificados, formalizar a contratação e deixar a rotina do idoso bem definida. “Também é importante registrar medicação, horários, alimentação, banho, sinais de alerta e contatos de emergência. Em casos mais complexos, como Alzheimer, AVC ou idosos acamados, a família deve buscar profissionais com experiência específica.”

Sobre o perfil dos cuidadores de idosos no Brasil, Estevan explica que há predominância de mulheres, com muitas profissionais adultas ou de meia-idade e com trajetória ligada ao cuidado, ao trabalho doméstico, à enfermagem ou à experiência familiar. “A escolaridade costuma se concentrar no ensino médio, mas o mercado começou a exigir mais capacitação. Hoje, famílias e empresas procuram cuidadores com cursos, noções de primeiros socorros, mobilidade, higiene, alimentação e experiência com Alzheimer, Parkinson, AVC, idosos acamados e doenças crônicas”, aponta Estevan Oliveira.

A demanda é maior nas regiões com população mais envelhecida, maior renda e maior presença de serviços privados de saúde. O Censo 2022 do IBGE mostra que Sudeste e Sul têm estruturas populacionais mais envelhecidas. “Isso faz com que capitais e cidades médias dessas regiões concentrem mais procura por cuidadores, empresas de home care, ILPIs e serviços de apoio domiciliar. Estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul tendem a puxar boa parte dessa demanda”, afirma.

Para os próximos anos, a expectativa é de expansão contínua. “As principais tendências são crescimento do home care, profissionalização dos cuidadores, especialização em demências, uso de tecnologia, centros-dia e integração entre saúde e assistência social.”

Ainda assim, o país não está totalmente preparado para lidar com os mais velhos, na percepção do especialista. “O Brasil envelhece rápido, mas a estrutura de cuidado cresce em ritmo mais lento. Faltam profissionais qualificados, políticas públicas mais robustas e modelos acessíveis.” Para Estevan, o caminho passa por reconhecer a centralidade do tema. “É preciso tratar o cuidado com idosos como infraestrutura essencial do país, e não apenas como um problema privado das famílias.”

A questão trabalhista

Do ponto de vista jurídico, a advogada Tamiris Cruz Poit, coordenadora do Contencioso Corporativo da LBZ Advocacia, destaca que a profissão de cuidador de idosos ainda não tem regulamentação específica no Brasil, já que projetos de lei sobre o tema não avançaram. Ainda assim, há proteção legal: a atividade pode ser enquadrada como trabalho doméstico (Lei Complementar nº 150/2015) ou via Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a depender do contratante.

A advogada explica que as funções de cuidador, técnico de enfermagem e empregado doméstico podem se sobrepor, mas não são equivalentes, e o enquadramento jurídico não depende apenas das atividades exercidas. Enquanto o cuidador acompanha o idoso nas atividades diárias, o técnico de enfermagem – profissão regulamentada – exige formação específica e pode realizar procedimentos de saúde.

A formalização da contratação é essencial, com registro em carteira, eSocial e definição clara de funções, jornada e remuneração, evitando conflitos como desvio de função. Entre os direitos estão salário mínimo ou piso regional, jornada de até 44 horas semanais, horas extras, adicional noturno, férias, 13º salário, FGTS e INSS.

Apesar disso, a informalidade ainda predomina, muitas vezes por opção dos próprios profissionais, que atuam como autônomos ou por diárias. Os principais conflitos envolvem reconhecimento de vínculo e pagamento de direitos trabalhistas, além de acúmulo indevido de funções.

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Para a advogada, a organização do setor passa por políticas públicas. “Há grande procura diante da escassez de mão de obra especializada ou disposta a atuar de forma regular. O ponto focal deve ser o incentivo à formação e qualificação profissional dos cuidadores, aliado ao apoio às famílias que necessitam desses serviços.”

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