Viajar horas para realizar um exame de imagem, tratar uma queimadura grave ou conseguir uma vaga de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em Belo Horizonte sempre foi uma realidade desgastante para o cidadão do interior de Minas Gerais. O fenômeno, apelidado de “turismo da ambulância”, consome recursos municipais com transporte e sobrecarrega os grandes complexos hospitalares da capital. Uma virada de chave nessa engrenagem, entretanto, começou a ganhar contornos práticos neste primeiro semestre de 2026, com o avanço do Projeto de Conclusão dos Hospitais Regionais da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG).


Cinco hospitais de grande porte que estavam com as estruturas físicas abandonadas ou paralisadas há cerca de uma década foram inseridos em um plano de retomada técnica. Quando todas as estruturas estiverem em plena operação, a rede pública estadual ganhará um reforço de mais de mil novos leitos, conforme informado pela pasta. Três dessas unidades – localizadas em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri; Divinópolis, Centro-Oeste de Minas; e Sete Lagoas, na Região Central – já concluíram as obras e deram início ao funcionamento de suas alas, embora em ritmo escalonado. Já as de Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, e Conselheiro Lafaiete, também na Região Central, seguem em construção. A expectativa é que todos funcionem, mesmo que parcialmente, até o final deste ano.


Os projetos originais, datados do início de 2010, passaram por revisões de viabilidade. Segundo a secretária-adjunta da SES-MG, Poliana Cardoso, o atual governo assumiu a gestão com essas obras paradas e precisou avaliar o que de fato atendia a critérios epidemiológicos. “Havia até outras obras iniciadas de hospitais regionais em locais que não faziam o menor sentido técnico. Avaliamos tanto a necessidade da implantação de um hospital daquele porte quanto a viabilidade de continuar uma obra que estava parada há tanto tempo”, revelou a secretária, em entrevista ao Estado de Minas.


Para viabilizar as construções, o Executivo estadual recorreu aos fundos de reparação do Acordo Judicial de Brumadinho, firmado com a mineradora Vale. Juntos, os cinco complexos somam investimentos que beiram R$ 1 bilhão entre engenharia civil e aquisição de equipamentos.


A missão central por trás do investimento bilionário é o preenchimento dos chamados "vazios assistenciais", ou seja, regiões populosas que dispõem de postos de saúde e clínicas, mas carecem de hospitais de maior complexidade. “Como estamos implantando onde tem vazio assistencial, o estado vai deixar de exportar pacientes. Conseguiremos atender as demandas mais perto de casa, sem a necessidade de grandes deslocamentos. Isso reduz o custo de transporte e torna a própria assistência ao paciente mais qualificada e segura”, explicou Poliana.


Maior unidade

A maior unidade é o Hospital Regional de Teófilo Otoni. Com 22.068,75 mil metros quadrados de área construída, ele foi planejado para atender 774.768 mil habitantes de 57 municípios, englobando também o Vale do Jequitinhonha. As obras, que começaram em 2014, travaram em 2016, com metade da execução concluída. Permaneceram interrompidas até 2022, devido, segundo a SES-MG, às revisões contratuais. O custo total do complexo (obras e equipamentos) bateu a marca de R$ 284,1 milhões.


Conforme a pasta, o complexo foi desenhado para ter um perfil resolutivo semelhante ao do Hospital João XXIII, em BH, focando no atendimento de urgência e emergência e em traumas graves. “O perfil de Teófilo Otoni é de um grande hospital de urgência, porque esse é o grande gargalo daquela região. Ele vai atender pacientes queimados e casos ortopédicos complexos. Estamos ansiando pela abertura plena, pois mudará drasticamente o nível da assistência local”, destacou a secretária.


Gerido pelo Instituto Mário Penna (IMP), que venceu um edital de concorrência pública para uma concessão de até 35 anos, o hospital ainda está na fase embrionária, tendo iniciado o atendimento em 18 de maio deste ano. Atualmente, a ala de diagnóstico por imagem está aberta, realizando cerca de 400 exames mensais, como tomografias e raios-X. O próximo marco ocorre agora, em julho de 2026, com a expansão física do hospital e a abertura dos primeiros 40 leitos de internação. O corpo de funcionários, hoje fixado em 60 profissionais, deve saltar para 400 trabalhadores no próximo mês para sustentar a nova operação.


No plano completo também estão 348 leitos para internação, 30 leitos para UTI, dez para UTI Neonatal, dez para Unidade de Cuidados Intermediários (UCI) Convencional e cinco para UCI Canguru, para atendimento a prematuros e recém-nascidos de baixo peso. O Pronto-Atendimento (PA) contará com 20 leitos de observação, 12 consultórios, sala de emergência com três leitos e uma sala para raio-x. O bloco cirúrgico e o ambulatório terão oito salas cada um. Na área da maternidade, serão três quartos pré-parto, parto e pós-parto (PPP), quatro salas de parto cirúrgico e quatro quartos de pré-parto.


O perfil assistencial ainda contempla um centro de tratamento de queimados, ortopedia e traumatologia, ultrassom e mamografia, tomografia e ressonância. Para isso, a SES-MG adquiriu ferramentas, no valor aproximado de R$ 26 milhões. Estão entre eles, dois tomógrafos, sete equipamentos de raio-x, oito mesas cirúrgicas, 123 bombas de infusão, 16 aparelhos de anestesia, 57 monitores de triagem, 31 ventiladores respiratórios, 31 eletrocardiógrafos, 59 cardioversores, entre outros. O governo prevê injetar R$ 145 milhões para equipar o restante do prédio e garantiu um repasse anual de R$ 100 milhões para o custeio da manutenção.

Modelo universitário

No Centro-Oeste de Minas, o Hospital Regional de Divinópolis seguiu uma linha administrativa diferente. Em vez de repassar a gestão para uma Organização Social (OS) privada, o prédio foi doado pelo estado para a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), autarquia do Governo Federal. A unidade, inaugurada em 19 de junho, em agenda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), vai funcionar como um Hospital Universitário, acoplado ao câmpus da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). O recurso para a obra e os equipamentos, provenientes do Acordo de Brumadinho, foi de R$ 131,5 milhões (R$ 46.564.334,29 para as obras e R$ 85 milhões do mobiliário médico).


O hospital iniciou os atendimentos graduais uma semana após a inauguração. A chamada "Fase 1" colocou em operação 29 leitos clínicos e ambulatórios de especialidades de alta demanda, como cardiologia, endocrinologia, hematologia, infectologia e nefrologia. Segundo Poliana, os leitos abertos já foram integrados ao painel de regulação estadual, permitindo que pacientes que aguardavam em UPAs da região fossem transferidos diretamente para o novo hospital regional. Em sua capacidade plena, a estrutura terá 208 leitos e uma vocação materno-infantil, incluindo UTIs neonatal e pediátrica.


Na edificação de 16.761,80 metros quadrados de construção, serão 118 leitos de internação, 20 para UTI adulto, a UTI Pediátrica e Neonatal terão dez leitos cada, bem como a UCI Convencional. Já na UCI Canguru serão cinco. O PA terá 20 espaços de observação, além de 12 consultórios e salas para emergência e raio-x. Ambulatório e Centro Cirúrgico contarão com oito espaços de atendimento. O projeto também inclui estrutura de assistência à gestação de alto risco, obstetrícia clínica e cirúrgica e o centro de parto normal. Ao menos 1,3 milhão de habitantes de 54 municípios serão atendidos.


Imbróglio milionário

As obras da estrutura de 23.582,75 mil metros quadrados em Sete Lagoas terminaram, mas o início dos procedimentos estava travado devido a um impasse financeiro em convênios antigos entre o governo e o município, cujas cobranças e pendências de prestação de contas ultrapassavam a cifra de R$ 70 milhões. Em maio deste ano, por meio de um acordo mediado pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG), o montante caiu para R$ 2 milhões, permitindo que o estado cedesse o prédio à Prefeitura de Sete Lagoas. “Conseguimos transformar esse problema burocrático em uma solução real para que o hospital funcione e salve vidas”, afirmou a secretária. A construção havia começado em 2010 e parou em 2015.


O início das operações escalonadas deve ocorrer até o fim de 2026. A estratégia consiste em transferir, gradualmente, o atendimento do hospital municipal para a nova unidade regional de 226 leitos. O antigo hospital da cidade será remodelado para funcionar exclusivamente como um centro cirúrgico eletivo da prefeitura. A previsão é destinar 176 leitos para internação, 40 para UTI adulto e dez pediátrica. Nas especialidades de porta de entrada estão clínica geral, ginecologia, oftalmologia e otorrinolaringologia.


Além disso, no PA serão 20 leitos para observação e sete consultórios. O bloco cirúrgico terá nove salas e o ambulatório, oito. O local ainda vai contar com Serviço Auxiliar de Diagnóstico e Terapia, com ambientes de tomografia, ressonância magnética, raio-x, ultrassom e endoscopia, bem como o Centro de Tratamento de Queimados e suporte em casos de violência sexual e leitos destinados à saúde mental. O contrato, no valor de R$ 88,8 milhões, deve finalizar os trabalhos que vão beneficiar 650 mil moradores de 35 cidades.


Próximos passos


Duas frentes de trabalho continuam ativas. Os hospitais regionais de Governador Valadares (226 leitos) e de Conselheiro Lafaiete (97 leitos) seguem em obras, ambos com expectativa de entrega no segundo semestre deste ano e início de atendimentos previstos para o início de 2027. No primeiro, o investimento total é de R$ 117 milhões, com verba da Fundação Renova, criada após o rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana, enquanto o segundo é de R$ 77 milhões, com recursos do Acordo de Brumadinho. Os dois estão com edital de licitação para concessão de uso para entidade filantrópica em andamento. Segundo a secretária-adjunta, para o complexo de Lafaiete, o governo homologou em junho o Instituto de Saúde Hospital São Vicente de Paulo como gestor administrativo.


Já para Governador Valadares, o edital de concessão está publicado e terá sua sessão pública realizada em 28 de julho para definir quem assumirá a operação. Serão 176 leitos de internação, 50 de UTI Adulto, PA com 20 leitos e sete consultórios, bloco cirúrgico com nove salas e ambulatório com oito. A previsão é que a unidade possa oferecer serviços de neurologia e neurocirurgia, cirurgia plástica, centro de ortopedia, unidade coronariana e de doenças raras. A população de 25 cidades será atendida.


Em Lafaiete, estão previstos 77 leitos para enfermarias de adulto e pediátrica e 20 para CTI; quatro salas de bloco cirúrgico com 20 leitos de observação, além de tomografia e raio-x. A intenção é oferecer serviços de oftalmologia, endocrinologia, urologia, angiologia e cirurgias diversas. Ao menos 51 municípios serão beneficiados.


Sexto a caminho

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Depois de idas e vindas e decisões judiciais, a estrutura do Hospital Regional de Juiz de Fora, no Bairro São Dimas, vai abrigar o Novo Hospital de Pronto Socorro da cidade da Zona da Mata. No fim de 2025, a prefeitura e o governo do Estado assinaram convênio no valor de R$ 5 milhões para a elaboração dos projetos necessários para a construção da nova unidade. O acordo prevê a avaliação do edifício do hospital regional e a elaboração do projeto executivo de engenharia que permitirá a retomada das obras, iniciadas em 2010 e paralisadas em 2017. A expectativa da entrega dos projetos é de 18 meses, a partir da assinatura do convênio. Concluído o projeto, serão destinados mais R$ 65 milhões para a execução da obra. O novo HPS terá capacidade para atender a mais de 205 municípios da região e cerca de 2 milhões de pessoas. 

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