Luzia revive nas cinzas do Museu Nacional
Em exposição no equipamento cultural que pegou fogo em 2018, Vik Muniz recria o fóssil da primeira brasileira, com datação de 11,4 mil anos, encontrado em 1975
compartilhe
SIGA
Rio de Janeiro – Tive oportunidade de visitar três vezes, com sentimentos bem distintos, o Museu Nacional, na capital fluminense, alvo do tenebroso incêndio em 2018. Na primeira, meu maior interesse se voltava para Luzia, o fóssil humano com datação mais antiga do país (11,4 mil anos). Fiquei maravilhado diante do crânio – daquela que é considerada a primeira mulher da América – encontrado em 1975 na Lapa Vermelha, em Pedro Leopoldo, na Grande BH. Na segunda vez, com aperto no coração, presenciei os escombros do monumental espaço cultural e científico vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que tentava, a duras penas, ressurgir e seguir sua trajetória bicentenária na história do Brasil.
Leia Mais
Já na semana passada, em tarde ensolarada, meus olhos se iluminaram pelo brilho da esperança ao ver a multidão, com pessoas de todas as gerações, no Museu Nacional. Chamou minha atenção a longa fila para conhecer “Rescaldo das Memórias”, mostra individual do artista Vik Muniz. Composta por fotografias e esculturas criadas a partir de cinzas e fragmentos de peças resgatadas no local, a exposição se encontra na sala onde o incêndio teve início e na qual é possível observar vigas de aço retorcidas pelo fogo. Ficará em cartaz até 30 de agosto.
Conforme a direção da instituição, o trabalho aborda perda, memória e reconstrução, ao mesmo tempo em que reafirma a permanência do Museu Nacional e sua capacidade de reinvenção. Para Vik Muniz, transformar resíduos em patrimônio artístico significa o poder da memória, da imaginação e da reconstrução coletiva: “Não se trata apenas do que foi perdido. Trata, sobretudo, do que permanece. E daquilo que pode renascer".
Diante do quadro de Luzia, uma turista se emociona, certa de que um pedaço da pré-história, depois da trágica situação vivida pelo museu, pode ser contemplado por brasileiros e estrangeiros. “E tudo isso graças à arte”, observa. Um pouco mais distante, perto da escultura do crânio da “primeira mulher”, um pai conta aos filhos sobre Luzia, que viveu na região cárstica de Lagoa Santa. Vale lembrar que os fragmentos do fóssil resgatados do incêndio estão guardados no museu.
ROSTO E NOME
Há pouco mais de meio século, nossa pré-história ganhava rosto e nome a partir da descoberta de repercussão internacional. Chefiando missão franco-brasileira, sob chancela da Unesco, a arqueóloga Annette Laming Emperaire (1917-1977) encontrou, em 1975, o fóssil humano com datação mais antiga do país, dando nova dimensão aos achados do naturalista dinamarquês Peter Lund (1801-1880). Lund viveu 46 anos na região de Lagoa Santa e se tornou o pai da paleontologia e da arqueologia brasileiras.
Duas décadas mais tarde, o bioantropólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo (USP), fez estudos aprofundados sobre os ossos e providenciou a datação. O nome surgiu de forma espontânea, num trocadilho. Quando perguntaram a Neves se essa seria nossa Lucy (fóssil encontrado na Etiópia, em 1974), ele respondeu que estava mais para Luzia. E assim ficou batizada.
Ao longo do tempo, o rosto de Luzia “sofreu” alterações. Em 2018, um grupo de estudiosos apresentou resultados inéditos sobre o povoamento pré-colombiano das Américas. Um deles surpreendeu: Luzia não tinha feições africanas, e sim mais semelhantes à dos indígenas brasileiros. O trabalho, feito a partir de DNA fóssil com amostras dos mais antigos esqueletos encontrados no continente, confirmou a existência de um único grupo populacional ancestral de todas as etnias da América. E apontou os traços de Luzia como mais próximos dos povos ameríndios. Dessa forma, houve, em 2018, mudança na reconstrução facial do rosto da primeira brasileira ocorrida, na Inglaterra, em 1990. Quem visita o Museu de Ciências Naturais, da PUC Minas, no Bairro Coração Eucarístico, em BH, pode ver a nova versão.
NOVO TEMPO PARA O ESPETACULAR...
Impossível esquecer o incêndio no Museu Nacional, localizado na Quinta da Boa Vista, no Rio. Na noite de 2 de setembro de 2018, entre 80% e 85% dos 20 milhões de itens catalogados viraram fumaça, numa perda irreparável para o patrimônio cultural e científico brasileiro. Agora, a instituição vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro vive o tempo de reconstrução, e há muito entusiasmo, principalmente nos finais de semana, por parte dos cariocas e visitantes que podem conhecer parte do prédio bicentenário e as exposições em cartaz. Segundo a direção do Museu Nacional/UFRJ, as obras se concentram atualmente na parte posterior do palácio, permitindo a realização de eventos abertos ao público na área frontal. “As exposições mostram que o Museu Nacional está mais vivo do que nunca, e que seu corpo social aprimora cada vez mais sua nobre missão de produzir ciência, preservar acervos, formar pessoas e compartilhar conhecimento com a sociedade, articulando pesquisa, ensino, memória, cultura e educação científica", diz o reitor da UFRJ, Roberto Medronho.
...PATRIMÔNIO DOS BRASILEIROS
Com reabertura completa prevista para abril de 2029, o Museu Nacional apresenta muitas conquistas. Já tem 75% das fachadas restauradas, incluindo esquadrias e ornamentos históricos, 80% dos telhados refeitos, com sistemas de proteção contra descargas atmosféricas e captação de águas pluviais instalados, e esculturas centenárias de mármore restauradas, réplicas instaladas no topo do palácio. Em andamento, restauro do bloco posterior do palácio, reforma e ampliação do prédio anexo e da Biblioteca Central, avanço na restauração de ambientes internos emblemáticos, como a sala do meteorito Bendegó e o pátio da escadaria monumental de mármore, entre outros serviços. O orçamento total do projeto de reconstrução é de R$ 527,7 milhões, estando já captados 363,4 milhões (69%). Entre parceiros e patrocinadores, estão o governo federal (emendas parlamentares, BNDES, e ministérios da Educação/MEC e da Ciência, Tecnologia e Inovação/MCTI. Setor privado, rendimentos financeiros e doações de pessoas físicas complementam a receita para resgate deste grande patrimônio dos brasileiros.
GOSTEI DO QUE VI
Religiosidade, beleza, criatividade e grande participação popular mantêm tradições centenárias no interior do estado. Em Taquaraçu de Minas não é diferente. A comunidade se reuniu para festejar o Divino Espírito Santo, tendo à frente o titular da Paróquia do Santíssimo Sacramento, padre João Carlos da Silva. A celebração deste ano teve como festeiros Valdir e Vaninha Serra. O casal desfilou no cortejo pelas ruas principais do município da Grande BH sob o dossel carregado pelos jovens Pedro César Luiz, Paulo César Santos, Igor Santos e Rony Nascimento.
RUA CONGONHAS
O artista plástico e arquiteto Décio Moreno Gomes Leite, o Demogolet, lança seu livro “As Casinhas da Rua Congonhas”. A obra reúne pinturas, relatos históricos e registros fotográficos para homenagear um dos conjuntos arquitetônicos mais simbólicos e afetivos de Belo Horizonte: as tradicionais casinhas da Rua Congonhas, no bairro Santo Antônio. Inspirado pela atmosfera poética e importância cultural das construções em estilo art déco, Demogolet, mineiro de Lavras, apresenta em sua obra formas e cores das edificações, assim como as histórias dos seus habitantes ao longo das décadas. O livro foi editado em parceria com o fotógrafo e editor Hermam Alexander. Informações no instagram @demogolet
RESTAURAÇÃO GRATUITA
Excelente iniciativa para preservação do patrimônio sacro. A Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop) abriu inscrições do projeto Imaginárias de Minas, que irá selecionar bens culturais móveis e acervos documentos para restauração gratuita. A iniciativa integra o programa Minas da fé, lançado pelo governo estadual em parceria com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Podem participar instituições responsáveis por bens culturais em Minas, a exemplo de prefeituras, museus, bibliotecas, arquivos públicos, paróquias, igrejas e dioceses. Inscrições até 16 de agosto no site da Faop. Entre peças já restauradas na Faop, está a imagem de Nossa Senhora do Carmo, atribuída a Aleijadinho, pertencente à Igreja São Bartolomeu, no distrito de São Bartolomeu, em Ouro Preto.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
CARETAGEM
Manifestação bicentenária de matriz quilombola e afro-mineira, a Caretagem reúne fé, dança, máscaras, música e ancestralidade em celebração única no país. Para valorizar essa história, o governo de Minas, via Secult-MG, iniciou o processo de documentação da Caretagem de Paracatu a fim de garantir a proteção como patrimônio cultural imaterial do estado. Uma equipe especializada da Secult esteve no município do Noroeste mineiro para registros técnicos, audiovisuais e institucionais que serão organizados e encaminhados ao Iepha-MG. Na sequência, será elaborado um dossiê para reconhecimento da manifestação.