BH: Museu da História da Inquisição reabre revitalizado
Reformado e ampliado, o museu reabre ao público, após um ano fechado, a partir de 1° de abril. Sua reinauguração ocorrerá em 31 de março
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Com novas salas, recursos interativos e espaço ampliado, o Museu da História da Inquisição reabre para o público em 1º de abril, no Bairro Ouro Preto, Região da Pampulha, em Belo Horizonte. O local passou por uma reforma durante um ano motivada pelo aumento da procura de visitantes interessados em história, genealogia e na compreensão de um dos períodos marcantes da formação do Brasil.
Fundado em 2012 pelo engenheiro Marcelo Miranda Guimarães, antes de se tornar um espaço aberto à visitação, tudo começou como uma inquietação pessoal. Ainda na adolescência, Guimarães descobriu que sua família tinha ligação com os chamados cristãos-novos — judeus obrigados à conversão ao catolicismo durante a Inquisição.
A curiosidade para saber quem eram seus antepassados foi aumentando e com o passar dos anos em suas viagens a trabalho pela Europa, Guimarães aproveitou para investigar a própria genealogia por meio dos documentos e registros históricos.
Com o tempo, ele percebeu que sua história não era isolada. “Quando eu me deparei que essa história minha se aplicava a milhares, até milhões de brasileiros, veio a ideia de criar um museu”, afirma.
A coleção de documentos, livros e objetos que reunia de forma pessoal acabou se tornando a base para a criação do espaço, com a proposta de tornar pública uma narrativa pouco conhecida.
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Desde então, o museu se consolidou como um local de memória e pesquisa, dedicado a apresentar a história da Inquisição em territórios portugueses, espanhóis e também no Brasil. Segundo Guimarães, trata-se de um capítulo ausente nos livros didáticos, apesar de ter durado mais de 300 anos e influenciado diretamente a formação social do país.
Após um ano fechado, o espaço reabre ao público em 1º de abril, com reinauguração marcada para o dia anterior. A escolha da data não foi por acaso; ela marca o fim da Inquisição luso-brasileira, em 31 de março de 1821, hoje lembrado em Belo Horizonte como um dia em memória das vítimas desse período histórico.
Interessados em história
A reforma foi motivada pelo aumento da procura por parte dos visitantes, especialmente nos últimos anos. O museu passou a atrair não apenas interessados em história, mas também pessoas em busca de informações sobre suas origens familiares, impulsionadas por mudanças na legislação portuguesa relacionadas à cidadania de descendentes de judeus sefarditas.
“Nós temos um banco de dados muito grande e o visitante pode pesquisar o seu sobrenome, conhecer a história da sua família. E a partir dessas pesquisas, mais de mil pessoas já conseguiram identificar sua descendência e, em alguns casos, obter cidadania portuguesa”, afirma.
Com isso, o espaço ampliou sua atuação como centro de pesquisa genealógica. A instituição reúne cerca de 600 livros sobre o tema e uma base de informações que permite aos visitantes investigarem sobrenomes e trajetórias familiares.
Tecnologia facilitadora nas buscas
A modernização trouxe recursos interativos que facilitam esse processo. Computadores instalados no local permitem que o público realize buscas durante a visita, acessando registros históricos e informações sobre possíveis ancestrais. A iniciativa amplia a experiência e aproxima o visitante do conteúdo apresentado.
Além da tecnologia, a reforma incluiu a ampliação do auditório, utilizado para exibição de documentários e realização de atividades educativas. O espaço também ganhou uma nova sala dedicada ao combate à intolerância.
“Nós criamos uma sala onde falamos sobre a intolerância histórica no Brasil, desde a escravização indígena até a africana, e a perseguição aos cristãos-novos. A ideia é ampliar o debate e conectar diferentes contextos históricos marcados por violações de direitos”, afirma o fundador.
Acervo e raridades
O acervo reúne peças que atravessam séculos e ajudam a contar essa história. Entre os destaques estão livros raros dos séculos 16 ao 19, documentos históricos e gravuras de artistas como Francisco Goya, que retratam cenas relacionadas à Inquisição.
Também fazem parte da exposição objetos adquiridos em leilões e antiquários, além de itens vindos de países como Israel, Marrocos e Portugal. A peça mais antiga do acervo data do final do século 15, período diretamente ligado aos eventos iniciais da Inquisição na Europa.
Entre os itens mais simbólicos está um fragmento de um rolo da Torá. “É uma peça muito importante datada possivelmente anterior à expulsão dos judeus da Espanha, em 1492”, ressalta o fundador. O museu também abriga um livro de 1623, conhecido como “manual do inquisidor”, que descreve práticas e critérios dos tribunais inquisitoriais.
A exposição também reúne réplicas de instrumentos de tortura e execução utilizados na época, como o polé e o garrote, que contribuem para ilustrar os métodos empregados tanto na obtenção de confissões quanto na aplicação da pena de morte.
História fora dos livros
A Inquisição foi instituída pela Igreja Católica, em parceria com o Estado, inicialmente na Espanha e posteriormente em Portugal, com o objetivo de combater heresias. No contexto da época, eram considerados hereges aqueles que contrariavam os dogmas católicos. "Ser judeu (cristãos-novos), protestante, feiticeiros, bruxos, ateus e qualquer grupo que confrontasse os dogmas católicos era crime.”
Essa história permaneceu por muito tempo fora dos livros didáticos. “Leva-se a crer que havia interesse tanto da Igreja quanto do Estado em não mencionar essa história”, diz. Apenas nas décadas finais do século passado, pesquisadores passaram a resgatar esses acontecimentos.
No Brasil, esse processo teve impacto direto na formação social, especialmente em Minas Gerais, onde muitos cristãos-novos se estabeleceram durante o ciclo do ouro. “O Brasil já foi descoberto em plena Inquisição. Quando os cristãos-novos vieram da Espanha e de Portugal para o Brasil, tiveram um papel importante no desenvolvimento econômico e cultural, principalmente em Ouro Preto, Mariana, Sabará”, afirma.
O museu busca destacar esse legado apresentando nomes, trajetórias e contribuições desses grupos. Para Guimarães, compreender esse passado é essencial para evitar que erros se repitam.
Atividades educativas e ações itinerantes
A instituição também desenvolve atividades educativas voltadas para escolas e universidades. Além da sede fixa, o projeto inclui ações itinerantes, como exposições e peças teatrais que abordam a Inquisição.
Mantido como instituição privada, o museu conta com apoio de doações, associados e recursos provenientes da visitação. Para visitar, o ingresso custa de R$ 10 (meia-entrada para estudantes e idosos) a R$ 20 (inteira), e as visitas podem ser agendadas previamente pelo e-mail contato@museudainquisicao.org.br ou pelo site www.museudainquisicao.org.br.
A expectativa com a reabertura é ampliar ainda mais o alcance do museu. “Queremos que mais pessoas tenham acesso a essa história e possam refletir sobre ela”, afirma. Para ele, o espaço cumpre um papel que vai além da preservação. “É também um convite à reflexão”, finaliza.
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Serviço
- Museu da História da Inquisição
- Endereço: Rua Cândido Naves, 55 – Ouro Preto, Belo Horizonte
- Funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 9h às 16h, e aos domingos, das 9h às 15h
- Ingressos: R$ 10 (meia para estudantes e idosos) e R$ 20 (inteira)
- Mais informações: (31) 2512-5194 ou www.museudainquisicao.org.br
*Estagiária sob supervisão da subeditora Regina Werneck