MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Como as estradas mineiras se preparam para as mudanças climáticas

Com chuvas mais concentradas, ondas de calor e queimadas cada vez mais frequentes, concessionárias reforçam o monitoramento climático

Publicidade
Carregando...

As estradas estão enfrentando um inimigo que não aparece nos mapas: um clima cada vez mais extremo. Para quem está ao volante, o desafio já faz parte da rotina: dirigir sob um calor intenso, com o asfalto sofrendo deformações, ou atravessar uma rodovia durante uma chuva volumosa, com risco de alagamentos, perda de visibilidade e deslizamentos.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

O que por décadas foi tratado como uma preocupação do futuro altera a forma como rodovias são projetadas, administradas e mantidas.

O problema é visível em diferentes partes do mundo. Nesta semana, uma onda de calor extremo elevou os termômetros a níveis recordes na Alemanha e provocou deformações no pavimento, levando à restrição do tráfego em trechos das Autobahn, as famosas vias expressas do país.

No Brasil, as enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, os episódios de chuvas intensas registrados no início deste ano na Zona da Mata mineira e a sequência de queimadas e temperaturas elevadas mostram que os eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção e passaram a colocar à prova uma das principais estruturas do país: as rodovias.

Responsáveis por cerca de 65% do transporte de cargas no país, as rodovias brasileiras estão vulneráveis a esse novo cenário.

Em Minas Gerais, concessionárias começaram a combinar monitoramento climático, ciência e engenharia para antecipar riscos e reduzir impactos. A BR-381 é um dos exemplos desse movimento.

Na BR-381, considerada uma das rodovias mais desafiadoras do país por atravessar regiões montanhosas e de geologia complexa entre Belo Horizonte e Governador Valadares. Essa preparação começou junto com a nova concessão. Há cerca de um ano e meio, a Nova 381 estruturou um Programa de Resiliência Climática que reúne monitoramento meteorológico, recuperação da infraestrutura e protocolos de resposta rápida.

A concessionária administra 303,4 quilômetros da BR-381/MG, passando por 21 municípios, entre Belo Horizonte e Governador Valadares. No trecho entre Caeté e Governador Valadares, onde a operação é completa, a empresa passou a acompanhar de forma contínua as condições climáticas e os pontos mais vulneráveis da rodovia.

Embora o contrato previsse inicialmente apenas um equipamento meteorológico, a Nova 381 decidiu ampliar o sistema e instalou cinco estações de monitoramento distribuídas ao longo da rodovia. Os equipamentos ficam próximos aos pontos de arrecadação eletrônica e acompanham índices pluviométricos e incidência de raios, enviando as informações via satélite para o Centro de Controle Operacional (CCO).

Segundo a gerente de Qualidade, Segurança, Meio Ambiente e Responsabilidade Social (QSMR) da Nova 381, Egle Humphreys, a prevenção passou a orientar as decisões da concessionária.

O sistema gera boletins meteorológicos encaminhados às equipes de operação, engenharia e conservação. Quando há previsão de chuva intensa, granizo, queimadas ou outra situação crítica, a empresa pode acionar uma sala virtual de crise, reunindo representantes das áreas envolvidas para acompanhar o cenário e definir as medidas necessárias.

Os dados coletados pelas estações são processados por um software que funciona como um mapa climático da rodovia. A ferramenta permite acompanhar a previsão de eventos e o volume esperado de chuva, ajudando a posicionar equipes antes da ocorrência de problemas.

A prevenção também envolveu obras na infraestrutura. A concessionária recupera os sistemas de drenagem, com limpeza e desobstrução de galerias e dispositivos de escoamento de água. Segundo a empresa, quatro pontos que historicamente registravam alagamentos foram eliminados após as intervenções.

Outro eixo do trabalho é o acompanhamento dos taludes. A BR-381 possui 32 pontos monitorados continuamente e classificados conforme critérios geotécnicos como inclinação, presença de fissuras, erosões e características do solo. Os locais mais sensíveis estão concentrados principalmente no chamado Lote 8, onde a composição do terreno aumenta a possibilidade de instabilidade.

Com base nesse levantamento, quatro obras prioritárias de estabilização estão em fase final de projeto e devem começar no segundo semestre. A concessionária avalia soluções específicas para cada ponto, levando em consideração as características geológicas da região.

O investimento inicial no Programa de Resiliência Climática e nas estações meteorológicas ficou entre R$ 900 mil e R$ 1 milhão. A Nova 381 prevê ampliar o monitoramento com novos equipamentos e tecnologias para antecipar riscos ao longo dos mais de 300 quilômetros administrados.

A concessionária também realizou interdições preventivas em pontos com movimentação de terreno para evitar acidentes. Segundo a empresa, entre 2025 e 2026, mesmo com volumes elevados de chuva, não foram registrados acidentes relacionados aos taludes monitorados, nem novos alagamentos nos pontos onde houve recuperação da drenagem.

BR-040: monitoramento e prevenção contra eventos extremos

Na BR-040, administrada pela EPR Via Mineira, a adaptação aos eventos climáticos extremos passou a fazer parte da rotina da concessão. O trecho de 232 quilômetros entre Belo Horizonte e Juiz de Fora atravessa 15 municípios mineiros, incluindo áreas do Quadrilátero Ferrífero, onde fatores como chuvas intensas, instabilidade de solo e queimadas exigem atenção permanente.

Segundo o diretor executivo da EPR Via Mineira, Eric de Almeida, o debate sobre mudanças climáticas ganhou espaço no setor rodoviário e já influencia o planejamento das concessões.

“A questão das mudanças climáticas é um tema bastante complexo e que ganhou muito espaço nos últimos anos. Hoje, a agência reguladora e a Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias discutem formas de incorporar o conceito de resiliência climática aos contratos de concessão”, explica.

Na prática, a concessionária mantém um acompanhamento contínuo por meio do Centro de Controle Operacional (CCO), que funciona 24 horas por dia, em Nova Lima. O sistema de monitoramento meteorológico, desenvolvido em parceria com a Climatempo, permite acompanhar as condições da rodovia em tempo real e antecipar cenários de risco, como chuvas intensas, baixa visibilidade e queimadas.

Os dados também orientam as equipes de campo e os projetos de engenharia. Quando há previsão de condições adversas, áreas consideradas mais sensíveis recebem acompanhamento reforçado, com atuação integrada entre operação, conservação e engenharia.

Além da tecnologia, a prevenção passa pela manutenção constante da infraestrutura. A concessionária realiza limpeza e desobstrução de sistemas de drenagem, conservação das estruturas de escoamento da água, inspeções em encostas e intervenções para reduzir riscos de erosão e instabilidade.

“Incorporamos soluções para aumentar a segurança da rodovia, como reforço dos sistemas de drenagem, ampliação de galerias pluviais, limpeza constante das estruturas de escoamento e melhorias em encostas”, afirma Eric.

A concessionária também mantém diálogo com municípios próximos à rodovia, uma vez que intervenções urbanas fora da faixa de domínio podem afetar a operação da BR-040. Outro ponto acompanhado é a região do Quadrilátero Ferrífero, onde a presença de áreas minerárias exige monitoramento preventivo.

Segundo Eric, a BR-040 atualmente não possui pontos considerados críticos de forma permanente. No entanto, trechos com taludes mais inclinados e áreas mais baixas recebem atenção especial durante períodos de maior risco climático.

“Além do monitoramento meteorológico, nossas equipes de geotecnia acompanham constantemente os pontos que exigem maior atenção”, diz.

A concessionária aposta em soluções sustentáveis para o pavimento. Uma delas é o CAP Borracha, que utiliza borracha de pneus descartados na composição do asfalto, aumentando a resistência do revestimento e reduzindo impactos ambientais.

“O investimento inicial é maior, mas o retorno ao longo do tempo também aumenta porque o pavimento suporta melhor as deformações provocadas pelas mudanças de temperatura”, explica Eric.

Monitoramento climático, drenagem e pavimento mais resistente

Na BR-262, administrada pela Way-262, uma das principais apostas para aumentar a segurança diante dos eventos extremos está no uso de novos materiais de pavimentação. O trecho concedido, de 438,9 quilômetros entre Betim e Uberaba, recebeu a aplicação do TSD poroso, um revestimento com adição de borracha de pneus reciclados.

O material possui uma superfície mais rugosa, aumenta a aderência dos veículos e melhora a resistência do pavimento, especialmente em trechos de serra. A tecnologia foi implantada entre Campos Altos e Luz, região com muitas curvas, e que exige mais dos motoristas.

Apesar de ter custo maior, em comparação ao revestimento convencional, a solução também contribui para reduzir o descarte irregular de pneus e aumentar a durabilidade da pista.

Segundo o gerente de Engenharia da Way-262, Reginaldo de Morais, a concessionária iniciou a operação em março de 2025 e fez um levantamento completo da rodovia para identificar pontos de risco e definir prioridades.

A partir desse diagnóstico, foram executadas ações como recuperação de erosões, contenções e melhorias nos sistemas de drenagem.

“A chuva contribui para acelerar a degradação do pavimento, principalmente quando ocorre em volumes muito elevados. Sempre que identificamos algum problema, realizamos intervenções rápidas”, explica.

Além das obras, a concessionária mantém ações diárias de conservação, como limpeza dos dispositivos de drenagem, roçada nas margens da rodovia e acompanhamento dos pontos mais sensíveis.

Nas áreas de serra, a BR-262 tem características que reduzem alguns riscos relacionados à erosão, já que muitos trechos ficam no topo dos terrenos, sem grandes aterros. Mesmo assim, os locais considerados críticos passam por acompanhamento periódico.

“No primeiro ano da concessão, não registramos ocorrências significativas relacionadas a escorregamentos provocados pelas chuvas”, afirma Reginaldo.

Outro ponto acompanhado é a neblina, principalmente na região de Campos Altos, onde a altitude favorece o fenômeno. Nessas áreas, as equipes inspecionam frequentemente a sinalização para garantir melhores condições de segurança.

A Way-262 também passou a utilizar um sistema de monitoramento climático no Centro de Controle Operacional (CCO).

A ferramenta, em funcionamento há cerca de seis meses, reúne dados meteorológicos e consegue indicar as condições previstas para as próximas seis horas, emitindo alertas em casos de eventos severos, como chuvas intensas e queda de granizo.

Segundo o coordenador do CCO, Carlos Rogério, a tecnologia utiliza informações de bases públicas, como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), atualizadas ao longo das cidades cortadas pela rodovia. Os dados permitem preparar equipes, organizar recursos e avaliar se intervenções podem ser realizadas com segurança diante das condições previstas, “o ganho operacional é muito grande. Conseguimos trabalhar de forma preventiva, preservar a trafegabilidade da rodovia e informar os usuários antes que eles cheguem a um ponto com problemas”, explica.

A concessionária também prevê ampliar a estrutura tecnológica ao longo da concessão, com novas estações meteorológicas e câmeras em pontos estratégicos para melhorar a resposta operacional.

Clima mudou de comportamento

Segundo o professor de Climatologia do IFMG – Campus Governador Valadares, Fulvio Cupolillo, Minas Gerais já apresenta mudanças no comportamento do clima. Uma das principais alterações está no regime de chuvas: a estação chuvosa tem ficado mais curta, enquanto grandes volumes de água passam a cair em períodos menores.

"A quantidade total de chuva ao longo do ano continua praticamente a mesma, mas ela passa a ocorrer em um período menor."

Na prática, isso aumenta a intensidade dos temporais e amplia riscos para estruturas como drenagens, pavimentos e encostas, favorecendo erosões e alagamentos.

O aumento das temperaturas também passou a ser um desafio. Segundo Cupolillo, a estação seca mais longa contribui para períodos mais quentes em Minas Gerais.

"As temperaturas vêm aumentando em Minas Gerais, principalmente porque a estação seca está mais longa. Quanto maior o período sem chuva, maiores tendem a ser as temperaturas. As temperaturas mínimas registradas durante a madrugada também estão um pouco mais elevadas em comparação com anos anteriores."

Para o pesquisador, acompanhar as tendências climáticas se tornou essencial para a gestão das rodovias, ajudando a antecipar obras, reforçar estruturas e preparar equipes. Com um clima diferente do previsto originalmente, a engenharia precisa rever materiais e formas de construção. "Isso exige uma avaliação sobre os materiais utilizados e sobre a forma de construir as rodovias."

Monitorar é importante, mas agir é indispensável

O professor da Escola de Engenharia da UFMG, especialista em pavimentação e geotecnia, Ronderson, afirma que o avanço dos eventos climáticos extremos coloca um desafio para as rodovias, mas também revela problemas antigos de infraestrutura.

Segundo ele, chuvas intensas não devem ser tratadas como a única causa dos danos.

“Quando aparece um problema no pavimento durante o período chuvoso, a culpa não é da chuva. Normalmente existe algum problema anterior de execução, compactação, drenagem ou manutenção que acaba sendo evidenciado quando chega a água”, explica.

O especialista afirma que a infiltração é um dos principais fatores de degradação das pistas. Quando surgem fissuras no asfalto, a água consegue penetrar nas camadas inferiores do pavimento. Com a passagem constante de veículos, especialmente cargas pesadas, essas trincas aumentam e aceleram o processo de deterioração.

“Essas fissuras tendem a aumentar e a água vai procurando um caminho. É assim que aparecem problemas como os buracos. O ideal é fazer a manutenção quando surgem os primeiros sinais, antes que o dano se agrave”, afirma.

Ronderson destaca que eventos extremos, como chuvas volumosas, alagamentos e deslizamentos, podem comprometer mesmo uma estrutura bem executada. Uma inundação prolongada, por exemplo, pode reduzir a qualidade do pavimento, enquanto o deslocamento de um talude pode atingir diretamente a pista.

Por isso, o monitoramento de encostas e das condições da rodovia precisa estar associado a ações concretas, “não basta apenas acompanhar os dados. Se o sistema identifica que um talude está se movimentando ou que existe deficiência na drenagem, é preciso executar imediatamente as obras necessárias”, avalia.

O professor também considera positivas soluções adotadas pelas concessionárias, como pavimentos com borracha reciclada. Além do benefício ambiental pela reutilização de pneus descartados, o material aumenta a aderência e pode melhorar a segurança em trechos mais críticos, principalmente em regiões de serra.

Outra alternativa apontada é o uso de pavimentos drenantes, conhecidos como asfalto poroso, que ajudam a reduzir o acúmulo de água sobre a pista e diminuem o risco de aquaplanagem.

Apesar das novas tecnologias, Ronderson alerta que o Brasil ainda precisa avançar na adaptação das rodovias ao novo cenário climático. Para ele, parte dos problemas está ligada ao próprio modelo de transporte do país, que concentra grande parte da movimentação de cargas nas estradas.

“A nossa malha rodoviária sofre muito com o excesso de cargas pesadas. Enquanto outros países utilizam mais ferrovias para esse transporte, nós ainda concentramos esse impacto nas rodovias”, afirma.

A necessidade de adaptação é respaldada pela ciência. O ciclo de avaliações do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta que o aquecimento global aumenta a frequência e a intensidade de diversos eventos extremos, exigindo que países adaptem suas infraestruturas para reduzir impactos econômicos e sociais.

Diante do aumento da frequência de eventos climáticos extremos, países têm buscado adaptar suas rodovias para um cenário de maior incerteza climática.

Entre os exemplos internacionais de adaptação às mudanças climáticas, a Inglaterra tem revisado os sistemas de drenagem de suas rodovias com base em projeções futuras de precipitação, buscando preparar a infraestrutura para suportar volumes cada vez maiores de chuva. 

Já na Califórnia, o departamento estadual de transportes, Caltrans, testa pavimentos de alta refletância que ajudam a reduzir a temperatura da superfície das vias durante períodos de calor extremo. No Japão, a NEXCO combina sensores geotécnicos e monitoramento meteorológico para identificar áreas suscetíveis a deslizamentos e adotar medidas preventivas, incluindo a interdição temporária de trechos rodoviários quando há risco para os usuários.

No Brasil, essa adaptação também entrou na agenda pública. A necessidade de preparar a infraestrutura para um clima mais extremo passou a ser incorporada pelo Ministério dos Transportes, que criou, em fevereiro de 2025, o Programa PRO-AdaptaVias.

A iniciativa busca aumentar a resiliência da infraestrutura federal de transportes terrestres diante das mudanças climáticas, com ações de planejamento, uso de dados climáticos e desenvolvimento de soluções para tornar rodovias e ferrovias mais preparadas.

O programa prevê a criação do Sistema de Inteligência, Monitoramento e Gestão de Dados do PRO-AdaptaVias (SIM-AdaptaVias), que deverá reunir informações sobre riscos, vulnerabilidades e impactos climáticos para orientar investimentos e decisões.

Um relatório do Projeto AdaptaVias apontava os principais riscos para a malha rodoviária brasileira: erosões, assoreamentos, alagamentos e inundações. 

As pesquisas mostram que chuvas intensas aumentam o transporte de sedimentos, comprometem sistemas de drenagem, reduzem a capacidade de suporte do pavimento e elevam os riscos de danos em pontes, galerias, aterros e taludes.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

A reportagem procurou o Ministério dos Transportes para saber como o PRO-AdaptaVias está sendo implementado na prática nas rodovias federais, quais trechos já foram avaliados e quais medidas já começaram a ser executadas. Até o fechamento desta edição, não houve retorno.

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay