A Dinamarca não conseguiu se classificar para a Copa do Mundo 2026, mas a rua Dinamarca, no bairro das Nações Unidas, em Sabará, Região Metropolitana de Belo Horizonte, está mais que dentro do espírito do Mundial. Ali a tradição de decorar a rua para torcer para o Brasil segue firme e forte desde 1994.
Leia Mais
Tudo começou com Demétrio Ubiratan dos Santos, mais conhecido pela vizinhança como Tio Det. Apaixonado pelo futebol, ele começou com artes simples a base de cal, mas logo a comunidade se juntou e hoje a decoração conta com bandeiras dos países participantes replicadas à perfeição e artes elaboradas nos muros.
“O Tio Det pintava essas bandeiras com cal e aí vinha a chuva e levava tudo. Depois começou a melhorar por conta das doações, o bairro todo ajuda: um doa o pincel, outro doa a tinta… e assim a gente faz esse projeto acontecer. Todo ano, desde o início, nós fazíamos as bandeiras. Agora veio o grafite e temos a caricatura do Det, o cachorro caramelo, o menino sonhando…”, conta a educadora física, Viviane dos Santos, de 40 anos.
Viviane é casada com o guarda civil Hércules dos Santos, sobrinho de Det e responsável por pintar as bandeiras nos mínimos detalhes. Depois que os traços principais estão prontos, todos colaboram para colorir tudo.
Já o responsável pelas artes é Claudinei de Carvalho, vulgo Ploc, que fez homenagem ao Tio Det e representações do cachorro caramelo, do Canarinho e de um menino com olhar sonhador: “Me inspirei em um menino aqui da rua. No desenho ele está olhando para o futuro, sonhando em ser um dos jogadores da seleção”.
Ele também fala sobre a importância de passar a tradição para as crianças para que ela não se perca no tempo. “Este é o primeiro ano seguindo o sonho do Demétrio sem ele, mas um sonho bom é aquele que a gente sonha junto”, reflete. “Essa época da Copa do Mundo é muito boa para se reunir e passar o conhecimento artístico para as novas gerações. Hoje em dia, com a tecnologia, está tudo muito rápido, então se a gente não se mobilizar, eles perdem o interesse em pintar a rua”, completa.
Legado
Infelizmente, Tio Det faleceu pouco mais de um mês depois do fim da Copa de 2022, aos 53 anos. Cherle Carina, 44 anos, prima de Det, o descreve como um homem simples, com alma de menino e dono de um coração gigante, que amava a Copa do Mundo. Na época do Mundial, usava sempre uma camisa listrada, com a qual foi retratado na arte que agora decora a rua.
A família e amigos não pouparam esforços para manter o legado vivo e crescendo cada vez mais. Cherle Carina, prima de Det, conta que fica feliz em ver a filha participando da mobilização em torno da Copa do Mundo.
“Para nós, é um privilégio dar continuidade ao legado dele. Eu sempre digo que legado é semente que frutifica na vida das pessoas. Por exemplo, eu tenho uma filha que em 2018 estava sentada no meio das bandeiras, hoje ela tem 15 anos e faz parte do meu legado”, conta Cherle.
A empreendedora ainda ressalta que a comunidade não se reúne apenas na época da Copa do Mundo. Segundo ela, qualquer acontecimento é motivo para todos se reunirem e celebrar a união, até mesmo a simples vontade de se encontrar: “As pessoas acham que viver o Brasil é a cada quatro anos mas, para mim, isso é deixar memórias para minha filha, é o ato de servir e é o que o Demétrio nos ensinou”.
Este ano, a comunidade conta com um telão instalado na rua para que toda a vizinhança possa curtir os jogos da seleção juntos. Viviane começou a participar da festa há 17 anos, mesmo antes de se casar com Hércules, e lembra de cada competição com carinho.
“Era muito bom. Antigamente a gente colocava uma televisão de 40 polegadas na garagem, que era onde tinha sombra, e sentava todo mundo de frente, sentados na escada da calçada. Aí um fazia um caldo, outro um arroz e todo mundo trazia alguma coisa. Hoje a gente tem um telão e mais gente vem assistir”, conta Viviane. “Espero que esse ano venha o hexa. É Brasil na cabeça!”, torce.
BH verde e amarela
O espírito esportivo também tomou conta das ruas Comendador José Farah, no bairro Barreiro, e Coletivo, no bairro Flávio Marques Lisboa, ambas na Região do Barreiro, que já exibem as cores da bandeira.
Tudo começou com Deleon Stangherlin, presidente da Associação de Moradores da Vila Cemig. Desde a Copa de 1994 ele tem o costume de decorar a vizinhança para o evento no Vale do Jatobá, também no Barreiro, onde cresceu. “É a primeira copa que estou participando aqui na Vila Cemig. Lá no Vale do Jatobá, toda copa a gente pintava e colocava as bandeirinhas, eu quis continuar isso aqui”, diz.
A decoração teve início de forma discreta, com a pintura do meio fio. Mas logo chamou a atenção das crianças da rua Coletivo. Vendo a mobilização, os vizinhos entraram no clima e um depósito próximo doou dois galões de tinta, até que os moradores da rua Comendador José Farah pediram para participar também. “É só ver um balde de tinta que a garotada se anima. Agora tá todo mundo doido. Teve um morador que pintou uma bandeira do Brasil no muro da casa dele, aí o outro já pintou na casa da frente. Está indo aos pouquinhos, daqui a pouco a vila tá toda pintada”.
Deleon conta que o interesse da população, principalmente das crianças, cresceu muito depois da convocação do Neymar Jr. Segundo ele, o atacante tem mais conexão com as gerações mais novas. A expectativa é que esse ano o Brasil finalmente conquiste o tão sonhado hexacampeonato.
Já na Vila São Vicente, no bairro Santa Tereza, Região Leste da capital, a mobilização da decoração da rua envolveu até a artista Raquel Bolinho, conhecida por espalhar seu personagem por toda BH.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
O local escolhido era uma antiga galeria de esgoto, que está passando por reforma e se transformando em uma área de convívio dos moradores. “A gente foi contemplado com o orçamento participativo em 2024 e a obra está sendo executada agora em 2025 e 2026. A comunidade, além de apoiar o projeto, está encantada, porque o espaço está todo revitalizado. As crianças estão adorando essa primeira experiência de pintar a rua e os adultos revivendo o passado”, diz o líder comunitário Leonardo Freitas.
