"Ela estava vivendo o melhor momento da vida". A frase dita por Bruno Theodoro Moço, de 27 anos, filho de Alzira Maria Theodoro Luiz, produtora rural e influenciadora digital assassinada à tiros por dois homens aos 43 anos dentro da própria casa, em um sítio na zona rural de Mutum, no Vale do Rio Doce, resume o sentimento da família ao falar sobre ela. O crime, que une suspeitas de feminicídio e disputa pelas terras da mulher, aconteceu em 8 de junho e até o momento ninguém foi preso.

Conhecida nas redes sociais pelos vídeos sobre o cotidiano na lavoura, especialmente a produção de café, Alzira acumulava cerca de 70 mil seguidores e compartilhava uma rotina marcada pelo trabalho no campo. Para Bruno, a mulher mostrada na internet era a mesma de dentro de casa.

"Trabalhadeira, honesta. Apesar de tudo que passou, sempre se manteve forte", define o filho. Segundo ele, a mãe raramente reclamava dos problemas que enfrentava e não tinha nenhum desafeto.

"Nunca se queixou sobre problemas com ninguém. Sempre estava focada no trabalho dela, cheia de sonhos e planos", conta.

Família unida

Alzira nasceu em Mutum e construiu sua vida entre Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Teve quatro filhos: Bruno, de 27 anos, Daniel, de 25, Antonías, de 20, e Maria, de 18. Também era avó de três crianças, dois filhos de Bruno e um filho de Daniel.

A relação com os filhos é descrita como próxima e afetuosa. Segundo a advogada da família, Carina Goiatá, os quatro mantinham contato constante com a mãe e costumavam ajudá-la nas atividades do sítio. "Tinha uma relação excelente com todos eles", afirma.

A filha mais nova, Maria, era especialmente próxima da mãe. As duas sempre moraram juntas em Mutum, e por um período, no Espírito Santo. Elas compartilhavam praticamente toda a rotina. "A menina fazia tudo junto com ela. Imagina o que ela está passando?", diz a advogada.

Os filhos também costumavam demonstrar publicamente o carinho que sentiam por Alzira. No último Dia dos Pais, por exemplo, deram uma cesta de presente para a mãe. "Sempre foi mãe e pai", relata Carina.

Perdas e recomeços

A trajetória de Alzira foi marcada por sucessivos recomeços. O primeiro marido, pai de Bruno, foi assassinado no Rio de Janeiro anos após a separação do casal. Mais tarde, ela construiu uma nova família e teve outros três filhos. O segundo marido morreu em um acidente de carro há cerca de oito anos.

A morte do companheiro representou uma das fases mais difíceis de sua vida. "Depois que meu padrasto morreu, ela ficou cerca de um ano tentando se reerguer", conta Bruno.

Mesmo diante das dificuldades, a produtora rural não abandonou os projetos que havia construído. Ao longo dos anos, trabalhou em diferentes atividades para sustentar a família e investir nos próprios sonhos. Foi motorista de aplicativo, cuidadora de idosos e produtora rural.

O sítio que virou projeto de vida

Por volta de 2009, Alzira foi contemplada em um programa governamental que possibilitou a compra de um pedaço de terra em Mutum.

O local possuía cerca de 12 hectares e já contava com pés de café plantados. A propriedade se transformou no principal projeto da vida da produtora rural.

Ela contratava trabalhadores para auxiliar nas épocas de colheita e recebia ajuda dos filhos para cuidar da lavoura. Grande parte dos vídeos publicados nas redes sociais mostrava justamente o cotidiano no sítio.

"Estava dando muito certo. O carro dela foi mérito do sítio. Ela reformou a casa com dinheiro do sítio", relatou o primogênito.

Além de investir na propriedade, ele conta que Alzira investia em si mesma. "Ela era muito vaidosa", recorda.

Nova fase no Espírito Santo

No ano passado, depois de uma colheita pouco produtiva, Alzira decidiu buscar novas fontes de renda. Mudou-se para Conceição do Castelo, no Espírito Santo, onde passou a trabalhar como cuidadora de idosos.

O objetivo era juntar dinheiro para investir novamente no sítio. Ela viveu cerca de um ano na cidade capixaba e dividia a rotina com dois dos filhos, Maria e Bruno.

"Ela estava muito feliz", diz o filho mais velho de Alzira, com pesar e nostalgia. Segundo ele, aquele período representava uma fase especial. Mas pouco mais de um mês antes da morte, a mãe decidiu retornar para Mutum, e teve os sonhos interrompidos em uma execução brutal.

Sonhos que ficaram pelo caminho

Os filhos já estavam adultos. Os netos faziam parte da rotina. O sítio seguia sendo fonte de renda e os perfis nas redes sociais cresciam cada vez mais. Bruno afirma que os objetivos da mãe eram simples. "Só queria cuidar dela, do sítio e deslanchar na internet."

Hoje, além da busca por respostas sobre o assassinato, a família tenta preservar a memória da mulher que criou quatro filhos, enfrentou perdas, trabalhou em diferentes profissões e construiu praticamente sozinha o patrimônio que sonhava ampliar.

"Ela tinha um coração muito bom", resume Bruno. "Amava os filhos, amava os netos e estava realizando os sonhos dela."

Momentos antes da morte


Em 2025, ainda em Mutum, Alzira teve um relacionamento com um homem. Porém, quando a influenciadora descobriu que ele era casado, findou a aliança. “Cerca de um mês e meio antes da morte dela, minha mãe voltou para Mutum”, relata o filho mais velho.

Constantemente bombardeada com propostas para vender suas terras, a influencer passou por um susto no segundo dia após retornar ao sítio localizado na cidade do Vale do Rio Doce. “Ela estava dormindo, e bateram forte na janela. Ela gritou, e a pessoa (suspeita) fugiu”, recorda Bruno.

Sob um clima de medo e insegurança, a influenciadora contou com a companhia de dois de seus filhos - Daniel e Antonías -, e um funcionário do sítio durante “alguns dias”, relata Bruno. A outra filha dela, Maria, de 18, mora com o irmão mais velho no Espírito Santo.

No entanto, em menos de 24 horas depois que eles deixaram a casa, em 8 de junho, a mulher foi alvejada na cabeça. Dois homens em uma moto, não identificados, são apontados como os responsáveis pelos tiros. “Esperaram ficar sozinha para fazer isso com ela”, completou o filho, referindo-se à morte de Alzira. Até o momento, ninguém foi preso pelo crime.


Suspeitas e incômodo com investigação

Para o filho mais velho de Alzira, o crime apresenta indícios de planejamento. A principal suspeita é que a vítima vinha sendo observada desde que retornou a Mutum.

Bruno aponta incômodo pela forma como as autoridades de Mutum estão guiando o caso. “Acho que a investigação só está de pé até agora pelo esforço que nossa família está fazendo. Te garanto: se minha mãe não tivesse essa quantidade de seguidores, isso cairia no esquecimento, e minha mãe seria só mais uma”, afirma o primogênito da influenciadora.

O filho também teme que o caso perca força com o passar do tempo. "Tenho certeza que, se deixarmos de falar e cair no esquecimento, não teremos nenhuma resposta."

Segundo a advogada Carina Goiatá, o sentimento predominante entre os familiares é de medo. "Não conseguem explicar por que fizeram isso com a Alzira."


Relação com homem comprometido e disputa por terras


Embora não existam suspeitos formalmente apontados pela polícia, a advogada enfatiza que investigações paralelas realizadas pela família levantaram informações que colocam duas hipóteses no centro das atenções.

Segundo Carina, uma das linhas envolve um relacionamento vivido por Alzira no ano passado. O homem teria se apresentado como divorciado, mas posteriormente a influenciadora descobriu que ele ainda era casado e terminou o vínculo.

No entanto, a influenciadora passou a ser perseguida pelo homem e a esposa dele, diz. "A esposa descobriu e começou a mandar mensagens (para Alzira). Ele não aceitou o término com ela (influenciadora) e continuou insistindo", relata Carina.

Segundo ela, mensagens recebidas pela produtora rural mencionavam episódios de violência doméstica já sofridos pela esposa do homem e traziam um tom ameaçador de que algo semelhante poderia acontecer com Alzira.

A outra hipótese considerada pela defesa envolve a propriedade rural da vítima. Alzira era dona de um sítio com cerca de 12 hectares, onde cultivava café e produzia conteúdo sobre o agronegócio nas redes sociais - em seus perfis, possuía 70 mil seguidores; no TikTok, são mais de 1 milhão de curtidas.


Áudio vazado e briga por venda de café são desmentidos


Nos dias seguintes ao assassinato, diferentes versões passaram a circular pelas redes sociais e grupos de mensagens. Uma delas apontava um suposto desentendimento envolvendo a venda de sacas de café. Outra se baseava em um áudio atribuído ao filho da vítima. A advogada da família nega ambas as versões.

Segundo Carina, a última colheita de café da produtora rural ocorreu em maio do ano passado e não teve um bom resultado. Foi justamente por causa das dificuldades financeiras da lavoura que Alzira decidiu trabalhar como cuidadora de idosos em Conceição do Castelo para reunir recursos e investir novamente na propriedade.

Bruno também afirma ter sido alvo de acusações após o crime. "Fui alvo de muitas acusações de fazer isso por herança", relatou o filho. “Pelo contrário, nós ficávamos muito felizes por ele ter a casinha dela, o sítio, conquistar as coisas dela.”

Ele evita apontar suspeitos publicamente. "Suspeita a gente sempre tem, mas se eu acusar alguém, posso cometer o mesmo erro de quem está me acusando", diz.


Recompensa de R$ 2 mil por informações

Diante da falta de respostas, a equipe jurídica criou um canal próprio para recebimento de informações e denúncias sobre o assassinato.

A iniciativa oferece recompensa de R$ 2 mil por alguma informação que auxilie na investigação e busca estimular moradores da região a compartilharem o que sabem de forma segura. "Já tivemos 11 denúncias (até as 18h dessa sexta-feira - 19/6), dentre elas, uma bem forte. Só podemos passar para a polícia depois de verificar", afirma.

Carina acredita que o silêncio em torno do caso pode estar relacionado ao medo de retaliação por parte dos criminosos.


Polícia mantém sigilo


Desde o assassinato, a reportagem procurou a Polícia Civil e a Prefeitura de Mutum em busca de informações sobre suspeitos, linhas de investigação e possíveis avanços no caso.

Em várias ocasiões, a Polícia Civil respondeu ao Estado de Minas, por meio da mesma nota, que “as investigações seguem em andamento sob sigilo e confidencialidade”.

O prefeito da cidade, Claudinei Clemente (Republicanos), disse que conversa com a polícia diariamente, mas não comentou detalhes sobre as apurações.

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*Estagiária sob a supervisão do subeditor Humberto Santos

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