Idosos que ainda não se vacinaram contra a gripe na capital podem participar de teste para uma vacina mais forte, voltada para pessoas com mais de 60 anos. O estudo é uma realização do Instituto Butantan e na capital mineira ele é promovido com o apoio do Centro de Terapias Avançadas e Inovadoras da UFMG e do Centro Universitário UniBH.
O objetivo do estudo é desenvolver uma vacina contra o Influenza adjuvada, voltada para a população idosa, que é a parcela da população mais atingida pela Síndrome Respiratória Grave (SRAG) em Minas Gerais.
Segundo dados do Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica (Sivep-Grive), disponibilizados pela Secretária de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), no ano passado foram registradas 2.883 mortes por SRAG. 2.171 desses óbitos foram de pessoas com mais de 60 anos, o que representa 75% dos óbitos.
Até junho deste ano, a estatística se mantém em 75%, tendo sido registrados 952 óbitos, dos quais 712 são de idosos. Foram registradas 18.661 internações em 2026, 30% de pessoas com mais de 60 anos.
A iniciativa precisa do apoio da população, pois ainda faltam 735 voluntários para participar do ensaio clínico. A meta é alcançar 7.200 voluntários em todo o Brasil.
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O professor Mauro Teixeira, responsável por conduzir os estudos no CT Terapias detalhou o funcionamento do estudo. Inicialmente os pacientes vão até o centro e assinam um termo de consentimento para participar do estudo.
Num segundo momento, os idosos passam por exames rápidos, e quando é atestada a saúde necessária para o estudo, eles tomam a vacina. O professor comenta as limitações da participação e explica que, tomar remédios, não é necessariamente um impedimento.
"Não podem participar pessoas que têm uma doença descontrolada. Por exemplo, que está em tratamento ativo de câncer, que mudou o tratamento de pressão há um mês, dois meses. Mas fora isso nada.”, diz.
Os idosos que participam do teste levam um diário para casa para fazer anotações sobre sintomas. Eles voltam duas vezes para o acompanhamento. A primeira 28 dias depois e a outra seis meses. Eles são orientados on-line frequentemente por pesquisadoras do CT, que são responsáveis por esse contato próximo com o paciente.
O atendimento pode ser agendado por telefone. O teste vai se estender até o preenchimento completo de todas as vagas.
No local, desde o início do estudo, em 9 de abril, já foram atendidos 258 idosos. O CT tem 360 vagas disponíveis para o estudo. O doutor destacou que o início do atendimento veio depois do início da campanha de vacinação, o que impossibilitou quem já tinha tomado de participar. Apesar disso, a adesão tem sido boa, segundo ele.
Grupo de Risco em BH
“O desenvolvimento de uma vacina especializada para esse grupo se mostra importante porque os idosos são justamente a população mais atingida por doenças respiratórias. O jovem, a grávida, respondem bem à vacina atual. O idoso responde pior.”, afirmou Mauro Teixeira, professor da UFMG sobre o estudo.
Dados mostram que os idosos são a população mais afetada por doenças respiratórias.
Na capital mineira, até 4 de julho, 337 mil atendimentos hospitalares por doenças respiratórias foram feitos na capital. No mesmo período do ano passado, houve cerca de 446 mil atendimentos. Desse total, 48.200 foram de pessoas acima de 60 anos, uma diminuição em relação ao ano passado, em que o número foi de 100.800 atendimentos.
As internações por doenças respiratórias no SUS foram de 6.220 pacientes, até maio de 2026. Em 2025 foram cerca de 7.051 casos no mesmo período.
Das solicitações de internação em 2025, 2.540 são de pessoas de mais de 60 anos, enquanto em 2026, 2.791. Isso representa 36% e 44%.
Os óbitos por Síndrome Respiratória Grave (SRAG) na capital são de 220 no total, 180 das quais de pessoas com mais de 60 anos. Os números apresentam pequena melhora dos do ano passado, que no mesmo período registrou 416 mortes totais, sendo 336 de idosos.
Os dados do estado também reforçam que os idosos são o maior alvo dessa categoria de doenças. No primeiro semestre de 2026, de acordo com o Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Grive) da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), foram registrados 18.661 casos hospitalizados de SRAG, 5.950 apenas de idosos. Em relação ao número de óbitos, foram registrados 952, dos quais 75% são da população maior de 60+, totalizando 718 mortes.
Maio foi o mês que mais registrou casos com 4.528. O maior número de mortes foi registrado em Abril com 196. Também foi o período em que a população idosa mais morreu, totalizando 147 mortes, com sete mortes a mais que maio, o segundo mês mais expressivo.
Janeiro foi o mês mais leve da doença, com 1.726 registros de casos hospitalizados. No entanto, o número de mortes seguiu alto com 152 óbitos. Porém não foi o mês com menor número de mortes. Até a data final dos dados (30/6), fevereiro com 130 mortes, foi o mês recordista em comparação ao grande número de casos, que totalizou 1.899.
Engajamento do público
Dona Dayse Lima, de 73 anos, estava participando do estudo quando o Estado de Minas visitou o CT e destacou a importância do projeto. “É importante se vacinar com certeza, ainda mais essa vacina mais completa.”, disse. A senhora estava recebendo acompanhamento, dois dias depois de receber a vacina.
CT de terapias da UFMG faz recrutamento de idosos para teste da nova vacina contra a gripe. Na foto, Dayse Lopes de Queiroz com a dr. Luisa Ferraz Borba Torres.
Ela soube do estudo através do posto de saúde Centro de Saúde Santos Anjos, no Bairro Caiçara, enquanto fazia aula de ginástica. Essa é uma das formas de divulgação realizada pelo CT para adesão da população.
O professor Mauro Teixeira destacou que não há uma forma específica de propagar a campanha e o boca a boca entre os idosos tem dado resultado. “Até carro de som no meio da rua, nós já fizemos!. Sempre que a gente tem acesso à mídia, vamos atrás e tentamos porque é sempre útil!”, diz o professor.
Maria Amália Ferreira, aposentada de 70 anos, engajou-se na vacinação: “Já participei do recrutamento da vacina da dengue, fazia parte do estudo e participei agora pela confiança que eu tenho e por achar que é interessante você ajudar a melhorar. Essa nova vacina será mais interessante, ela cobrirá mais com uma proteção melhor.”
Outros dois pacientes souberam do teste através de uma das funcionárias do local. Júlio Tavares, de 65 anos, avalia a proximidade das equipes com o paciente: “Acompanhamento perfeito!”.
Ele também acredita que a participação na campanha ajuda o grupo do qual faz parte. “Achei interessante participar dessa parte para melhorar a vacina para mais 60 porque nossa imunidade torna-se menor”, disse ele.
“Achei super tranquilo! Eu acho importante participar! Nossa população tem envelhecido muito rápido. Agora nós temos que ter um foco maior nos 60+”, destacou Diuza Braga, de 63 anos, que também participou dos testes.
Enfrentamento a fake news
Mauro Teixeira relata que a população idosa é bastante informada e engajada em campanhas por ter vivido o começo deste movimento, com personagens como o Zé Gotinha.
“Nos últimos anos, por causa da Covid, houve uma piora enorme na questão da vacinação. Isso é nítido. Então existe um sentimento antivacina que é muito forte. Isso eu não tenho dúvida. Mas ele é menos óbvio nessa população. Porque é a população que viveu com o Zé Gotinha.”, diz Mauro.
CT de terapias da UFMG faz recrutamento de idosos para teste da nova vacina contra a gripe. Na foto, o dr. Mauro Teixeira.
Uma das novas estratégias utilizadas nas campanhas é justamente o resgate dessa memória. O CT produziu cartazes com o Zé Gotinha e Ana Gotinha 60+, que são os personagens envelhecidos.
“Essa geração de 60 anos, ela claramente entende isso, viu o Zé Gotinha, viu os amiguinhos com paralisia infantil, viu que quando chegou a vacina, esses amiguinhos nunca mais aconteceram.”
“Tem muita resistência à vacinação. Acho que precisa de mais esclarecimento! Sai muita fake news!”, diz Diuza, uma das participantes do estudo.
Desenvolvimento fácil
Apesar de ser novidade no Sistema Único de Saúde (SUS), vacinas para influenza voltada para a população 60+ já são desenvolvidas pelo mundo. “Ela é vendida nos Estados Unidos, na Europa, mas não tem aqui. A que tem no Brasil é uma vacina que tem mais vírus. E é o que nós estamos comparando.”, afirmou o professor.
A vacina que está sendo produzida é denominada vacina adjuvada porque diferentemente das doses disponibilizadas pelo SUS, que são trivalente e tetravalente, ela não tem mais vírus, mas sim um adjuvante.
“Aumentando a dose de vírus ou adicionando o que a gente chama de adjuvante, que é um ajudador da vacina mesmo. Então essas duas soluções já existem no mundo e já são aprovadas. Isso não significa que não tem coisa nova. Porque você tem diferentes tipos de adjuvantes, você tem coisas que você está tentando fazer para melhorar ainda mais. Então a vacina que nós estamos testando é uma vacina que tem um adjuvante que não é vendida no Brasil.”, explicou Mauro Teixeira.
“Então o estudo que a gente está fazendo é muito simples. Eu pego a vacina comercial e pego essa vacina do Butantan e comparo. Se a vacina do Butantan é tão boa quanto essa aqui. E esse é o estudo que está sendo feito no momento.”, detalha o doutor.
As vacinas desenvolvidas fora do país são exportadas para o Brasil. Na rede privada, se pode ter acesso a este tipo de vacina por uma média de R$250,00. O objetivo da pesquisa do Butantan é permitir o acesso gratuito a uma vacina
O professor da UFMG indica que, apesar de não ser novo, é um estudo importante. “É importante o Butantan fazer isso porque ele tem que ter a tecnologia. Senão ele não vai conseguir e vai ter que comprar. O esforço é melhorar a vacina dele e colocar no SUS. É um desenvolvimento tranquilo de se fazer. Não é uma coisa totalmente inovadora, mas é para o nosso meio. É importante você ter acesso no sistema público de forma gratuita.”, esclarece.
Apesar de ainda não poder afirmar os resultados do teste em andamento, Mauro Teixeira afirma que tem visto a segurança como a principal qualidade do teste. “Sempre que a gente faz um estudo, eu tenho dois objetivos primários: primeiro e segurança, segundo eficácia. Não adianta ter uma vacina eficaz se ela não é segura. O que eu posso dizer até o momento é que nós temos bons sinais de segurança. Tudo até o momento foi seguro.”, afirma.
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Saiba aonde ir para ser voluntário:
- Centro de Terapias Avançadas e Inovadoras da UFMG: rua Carlos Pinheiro Chagas, 20, bairro Jardim Montanhês, Região Noroeste de BH
- O atendimento pode ser agendado através do telefone (31) 99509-7634.
*Estagiário sob supervisão da subeditora Juliana Lima
