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Arte ancestral

Mural encontrado há sete anos em casarão do Centro Histórico de Ouro Preto ainda desafia estudiosos e demanda mais pesquisas para esclarecimento da origem

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  As cenas representadas seguem sendo estudadas por especialistas, e uma das hipóteses é de que as inscrições narram a vida de uma mulher
As cenas representadas seguem sendo estudadas por especialistas, e uma das hipóteses é de que as inscrições narram a vida de uma mulher JAIR AMARAL/EM/D.A/PRESS – 29/9/2019
Mural revelado em 2019, pelo Estado de Minas, ganha novos olhares enquanto luzes mais fortes se acendem para explicar origem, possível autoria, época de criação. Confesso que até hoje estou maravilhado com o que vi naquela manhã de setembro. A um palmo do nariz, estavam os misteriosos desenhos existentes na parede de um sobrado da Rua Conde de Bobadela, popularmente chamada Rua Direita, no Centro Histórico de Ouro Preto. Guiada pelos proprietários do imóvel, nossa equipe conheceu as inscrições possivelmente feitas pela mão escravizada.

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Na época da nossa visita, a família não escondeu a emoção ao falar das cenas descobertas durante a restauração do sobrado. Para eles, era como se fosse uma mensagem numa garrafa jogada no mar e no tempo, para que, um dia, fosse achada por alguém.


A preservação do legado gráfico ocorreu graças à localização do compartimento do casarão que, anteriormente, tinha saída para a Rua das Flores e era ventilado, impedindo a deterioração pela umidade e o tempo. Desde o achado, o casarão recebeu visita de especialistas de universidades e instituições públicas de preservação do patrimônio.


Também em 2019, uma equipe de arqueologia e restauração da superintendência em Minas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) esteve no casarão para iniciar estudos sobre o mural que ocupa área de 3,70 metros de altura por 1,79m de largura. O local foi cadastrado, pela autarquia federal, como sítio arqueológico “Inscrições Afrodiaspóricas”. Conforme o documento, os grafismos foram feitos sobre argamassa de revestimento da parede de pedras.


Frequentadora de arquivos de Ouro Preto e Mariana, a professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Mariza de Carvalho Soares, especialista em história da escravidão e África, disse o seguinte: "Tudo indica que as inscrições narram a vida de uma mulher, e certamente foram feitas entre a segunda metade do século 18 e a primeira do 19. Junto a isso, está a origem do grupo mostrado ali: provavelmente da região da Costa da Mina, com destaque para Benim, na África".


À luz das pesquisas, há outras hipóteses. Os desenhos narram a trajetória de uma mulher recém-falecida, sendo, portanto, uma homenagem póstuma. Recriam também a vida da mulher na África até a travessia no Oceano Atlântico, certamente feitas entre a segunda metade do século 18 e a primeira do 19. O povo mostrado no mural seria provavelmente da região da Costa da Mina, com destaque para Benim, na África. E houve, no mínimo, três pessoas envolvidas: aquela cuja vida é contada, a que constrói a narrativa e a que gravou na parede.


MODO DE NARRAR

Lembrando que um dos destaques nessa história é "o modo de narrar", a professora Mariza ressaltou que o mural em nenhum momento trata da escravidão no Brasil, e que são retratados, na totalidade, grupos de mulheres trabalhando no pilão, na travessia marítima, "pois o velame (velas e mastro) da embarcação é muito alto", e em situações desencadeadas a partir da morte. Há também animais, a exemplo de um felino, e aves grandes e pequenas.


Nós, aqui da coluna, acompanhamos o caso com atenção, mantendo acesa a chama da curiosidade para que os mistérios no casarão de Ouro Preto sejam desvendados e possam ser conhecidos – e admirados – por brasileiros e estrangeiros.

DE BRAÇOS DADOS COM A PRODUÇÃO...

Pinga, aguardente, “marvada” e até “água que passarinho não bebe” – o apelido da cachaça não importa muito, mais vale a história que atravessa os séculos e faz parte da valorização da mesa mineira. Equipe da Secult-MG e do Iepha faz estudos, para elaboração de um dossiê, a fim de garantir a proteção dos alambiques tradicionais como patrimônio cultural. A iniciativa integra o programa Minas Essencial, que articula patrimônio, cultura, gastronomia, turismo e desenvolvimento territorial a partir das expressões mais autênticas da mineiridade. Em campo, a equipe encarregada do trabalho vai mapear e documentar saberes, técnicas de produção, relações dos estabelecimentos com o território, formas de transmissão entre gerações e práticas culturais associadas à produção artesanal da cachaça.

...A CULTURA E O SABOR DAS GERAIS

Minas ocupa posição de liderança nacional no setor. Dados do Anuário da Cachaça 2025, do Ministério da Agricultura e Pecuária, apontam o estado como o maior produtor do país, com mais de 500 estabelecimentos registrados e cerca de 40% da produção formal brasileira. Para o secretário de Estado de Cultura e Turismo, Leônidas Oliveira, o avanço do setor deve caminhar junto com uma política de proteção da sua história e da sua identidade. “Defendemos e incentivamos profundamente os processos de legalização e qualificação, porque são fundamentais para ampliar mercados, gerar segurança, fortalecer os produtores e preparar Minas para crescer também no cenário internacional. E mais diz Leônidas: “Tão importante quanto a legalização é a proteção da história. Os alambiques tradicionais carregam memória, conhecimento, técnicas e modos de fazer transmitidos entre gerações”.

MÚSICA E HISTÓRIA 1

Comemorando, em 2026, 170 anos de fundação, a Banda Euterpe Cachoeirense, do distrito de Cachoeira do Campo, em Ouro Preto, abre seu valioso patrimônio à pesquisa. Integrantes do Centro de Estudos dos Acervos Musicais Mineiros (Ceamm), sediado na UFMG, visitaram os arquivos da agremiação em atividade ininterrupta desde 1856. A equipe de pesquisadores foi recebida pelo trompetista e musicólogo Tiago Viana, que iniciou suas atividades musicais na Banda Euterpe e integra a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e pelo professor de história e diretor da banda, José Augusto. Da Ceamm, estiveram presentes os professores doutores João Vidal, Edite Rocha e Jonatha do Carmo, o doutorando Luís Finelli e o bolsista de iniciação científica David Costa. Entre os objetivos da visita, divulgação, troca de experiências e fomento a projetos de preservação do acervo mineiro.

MÚSICA E HISTÓRIA 2

Fundada em 1856 pelo capitão Rodrigo José de Figueiredo Murta, a Banda de Cima, como também é conhecida a Euterpe Cachoeirense, nasceu em meio à efervescência política do Império favorecida pelos partidos Conservador e Liberal. Murta, que se alinhava com o Partido Conservador, havia tentado fundar uma banda na localidade, na década de 1850, com o mestre Tássara, mas não foi bem-sucedido. Por ser uma do século 19, a Euterpe Cachoeirense vem despertando interesse de diversos pesquisadores, principalmente por guardar em seu acervo histórico instrumentos, documentos administrativos, fotografias, objetos diversos e um grande e rico conjunto de partituras.

VIOLA CAIPIRA

Será realizado entre 9 e 12 de julho de 2026, em São Lourenço, o 3º Festival Viola Caipira – O Som das Minas Gerais. Inscrições abertas até o próximo dia 25, devendo ser feitas exclusivamente pela internet, por meio do endereço: realizaminas.com.br. A participação é gratuita e destinada a duplas interessadas em mostrar talento e manter viva a tradição da viola caipira. A lista dos selecionados será divulgada no dia 29 de junho de 2026.

PAREDE DA MEMÓRIA

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A recente prisão de um homem apontado pela Polícia Federal como o maior ladrão de livros raros e documentos históricos do Brasil mostra que os crimes contra o patrimônio cultural estão em todos os cantos, e não apenas nas igrejas e capelas barrocas. Olho vivo, portanto, em bibliotecas, arquivos e instituições públicas. Em Minas, há centenas de documentos desaparecidos, felizmente muitos recuperados, a exemplo deste (foto) de 1743 furtado do Arquivo Público Mineiro (APM), em BH. Despareceu em 2014 e foi resgatado cinco anos depois. Trata-se do Contrato da Fábrica de Pesca de Baleia na Ilha de Santa Catarina. Pertencente ao fundo Secretaria de Governo da Capitania, o contrato cede a um particular o direito à exploração de pesca de baleias que, na época, era um monopólio real. Quem tiver informações sobre documentos desaparecidos pode acessar a plataforma Sondar, do Ministério Público de Minas Gerais (sondar.mpmg.mp.br).

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