Arte ancestral
Mural encontrado há sete anos em casarão do Centro Histórico de Ouro Preto ainda desafia estudiosos e demanda mais pesquisas para esclarecimento da origem
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Na época da nossa visita, a família não escondeu a emoção ao falar das cenas descobertas durante a restauração do sobrado. Para eles, era como se fosse uma mensagem numa garrafa jogada no mar e no tempo, para que, um dia, fosse achada por alguém.
A preservação do legado gráfico ocorreu graças à localização do compartimento do casarão que, anteriormente, tinha saída para a Rua das Flores e era ventilado, impedindo a deterioração pela umidade e o tempo. Desde o achado, o casarão recebeu visita de especialistas de universidades e instituições públicas de preservação do patrimônio.
Também em 2019, uma equipe de arqueologia e restauração da superintendência em Minas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) esteve no casarão para iniciar estudos sobre o mural que ocupa área de 3,70 metros de altura por 1,79m de largura. O local foi cadastrado, pela autarquia federal, como sítio arqueológico “Inscrições Afrodiaspóricas”. Conforme o documento, os grafismos foram feitos sobre argamassa de revestimento da parede de pedras.
Frequentadora de arquivos de Ouro Preto e Mariana, a professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Mariza de Carvalho Soares, especialista em história da escravidão e África, disse o seguinte: "Tudo indica que as inscrições narram a vida de uma mulher, e certamente foram feitas entre a segunda metade do século 18 e a primeira do 19. Junto a isso, está a origem do grupo mostrado ali: provavelmente da região da Costa da Mina, com destaque para Benim, na África".
À luz das pesquisas, há outras hipóteses. Os desenhos narram a trajetória de uma mulher recém-falecida, sendo, portanto, uma homenagem póstuma. Recriam também a vida da mulher na África até a travessia no Oceano Atlântico, certamente feitas entre a segunda metade do século 18 e a primeira do 19. O povo mostrado no mural seria provavelmente da região da Costa da Mina, com destaque para Benim, na África. E houve, no mínimo, três pessoas envolvidas: aquela cuja vida é contada, a que constrói a narrativa e a que gravou na parede.
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MODO DE NARRAR
Lembrando que um dos destaques nessa história é "o modo de narrar", a professora Mariza ressaltou que o mural em nenhum momento trata da escravidão no Brasil, e que são retratados, na totalidade, grupos de mulheres trabalhando no pilão, na travessia marítima, "pois o velame (velas e mastro) da embarcação é muito alto", e em situações desencadeadas a partir da morte. Há também animais, a exemplo de um felino, e aves grandes e pequenas.
Nós, aqui da coluna, acompanhamos o caso com atenção, mantendo acesa a chama da curiosidade para que os mistérios no casarão de Ouro Preto sejam desvendados e possam ser conhecidos – e admirados – por brasileiros e estrangeiros.
DE BRAÇOS DADOS COM A PRODUÇÃO...
Pinga, aguardente, “marvada” e até “água que passarinho não bebe” – o apelido da cachaça não importa muito, mais vale a história que atravessa os séculos e faz parte da valorização da mesa mineira. Equipe da Secult-MG e do Iepha faz estudos, para elaboração de um dossiê, a fim de garantir a proteção dos alambiques tradicionais como patrimônio cultural. A iniciativa integra o programa Minas Essencial, que articula patrimônio, cultura, gastronomia, turismo e desenvolvimento territorial a partir das expressões mais autênticas da mineiridade. Em campo, a equipe encarregada do trabalho vai mapear e documentar saberes, técnicas de produção, relações dos estabelecimentos com o território, formas de transmissão entre gerações e práticas culturais associadas à produção artesanal da cachaça.
...A CULTURA E O SABOR DAS GERAIS
Minas ocupa posição de liderança nacional no setor. Dados do Anuário da Cachaça 2025, do Ministério da Agricultura e Pecuária, apontam o estado como o maior produtor do país, com mais de 500 estabelecimentos registrados e cerca de 40% da produção formal brasileira. Para o secretário de Estado de Cultura e Turismo, Leônidas Oliveira, o avanço do setor deve caminhar junto com uma política de proteção da sua história e da sua identidade. “Defendemos e incentivamos profundamente os processos de legalização e qualificação, porque são fundamentais para ampliar mercados, gerar segurança, fortalecer os produtores e preparar Minas para crescer também no cenário internacional. E mais diz Leônidas: “Tão importante quanto a legalização é a proteção da história. Os alambiques tradicionais carregam memória, conhecimento, técnicas e modos de fazer transmitidos entre gerações”.
MÚSICA E HISTÓRIA 1
Comemorando, em 2026, 170 anos de fundação, a Banda Euterpe Cachoeirense, do distrito de Cachoeira do Campo, em Ouro Preto, abre seu valioso patrimônio à pesquisa. Integrantes do Centro de Estudos dos Acervos Musicais Mineiros (Ceamm), sediado na UFMG, visitaram os arquivos da agremiação em atividade ininterrupta desde 1856. A equipe de pesquisadores foi recebida pelo trompetista e musicólogo Tiago Viana, que iniciou suas atividades musicais na Banda Euterpe e integra a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e pelo professor de história e diretor da banda, José Augusto. Da Ceamm, estiveram presentes os professores doutores João Vidal, Edite Rocha e Jonatha do Carmo, o doutorando Luís Finelli e o bolsista de iniciação científica David Costa. Entre os objetivos da visita, divulgação, troca de experiências e fomento a projetos de preservação do acervo mineiro.
MÚSICA E HISTÓRIA 2
Fundada em 1856 pelo capitão Rodrigo José de Figueiredo Murta, a Banda de Cima, como também é conhecida a Euterpe Cachoeirense, nasceu em meio à efervescência política do Império favorecida pelos partidos Conservador e Liberal. Murta, que se alinhava com o Partido Conservador, havia tentado fundar uma banda na localidade, na década de 1850, com o mestre Tássara, mas não foi bem-sucedido. Por ser uma do século 19, a Euterpe Cachoeirense vem despertando interesse de diversos pesquisadores, principalmente por guardar em seu acervo histórico instrumentos, documentos administrativos, fotografias, objetos diversos e um grande e rico conjunto de partituras.
VIOLA CAIPIRA
Será realizado entre 9 e 12 de julho de 2026, em São Lourenço, o 3º Festival Viola Caipira – O Som das Minas Gerais. Inscrições abertas até o próximo dia 25, devendo ser feitas exclusivamente pela internet, por meio do endereço: realizaminas.com.br. A participação é gratuita e destinada a duplas interessadas em mostrar talento e manter viva a tradição da viola caipira. A lista dos selecionados será divulgada no dia 29 de junho de 2026.
PAREDE DA MEMÓRIA
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A recente prisão de um homem apontado pela Polícia Federal como o maior ladrão de livros raros e documentos históricos do Brasil mostra que os crimes contra o patrimônio cultural estão em todos os cantos, e não apenas nas igrejas e capelas barrocas. Olho vivo, portanto, em bibliotecas, arquivos e instituições públicas. Em Minas, há centenas de documentos desaparecidos, felizmente muitos recuperados, a exemplo deste (foto) de 1743 furtado do Arquivo Público Mineiro (APM), em BH. Despareceu em 2014 e foi resgatado cinco anos depois. Trata-se do Contrato da Fábrica de Pesca de Baleia na Ilha de Santa Catarina. Pertencente ao fundo Secretaria de Governo da Capitania, o contrato cede a um particular o direito à exploração de pesca de baleias que, na época, era um monopólio real. Quem tiver informações sobre documentos desaparecidos pode acessar a plataforma Sondar, do Ministério Público de Minas Gerais (sondar.mpmg.mp.br).