Acidentes de motos causam lesões graves, sequelas e perdas financeiras
Acidentes de motos agravam trauma de pacientes e impactam trabalho
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Cada vez mais pessoas, principalmente homens, usando motos para trabalhar. Caronas, inclusive idosos e gestantes, que lançam mão do serviço pago para se locomover. Uma mudança no perfil dos deslocamentos urbanos nos últimos anos pressiona ainda mais o tráfego e eleva os riscos, constata especialista do Hospital Risoleta Neves. Referência em trauma e, por sua localização, no Vetor Norte de Belo Horizonte, a unidade de saúde recebe muitos casos de acidentes de trânsito, principalmente envolvendo colisões, quedas de moto e atropelamentos.
De janeiro de 2025 a abril deste ano, 6.635 pessoas receberam atendimento no pronto-socorro do hospital em decorrência de acidentes no trânsito. Desse total, 72% são homens e 70% têm idade entre 21 e 50 anos. A maior parte dos acidentes envolveu colisão (44,5%), queda de moto (34,5%) e atropelamento (7,8%). Após o atendimento na urgência, a média de internação é de cerca de nove dias e muitos, após a alta médica, ainda precisam retornar à unidade para seguir com a assistência pós-cirúrgica.
O médico Túlio Campos é coordenador de Ortopedia e Traumatologia do Risoleta Neves e diz que o perfil dos pacientes que chegam à unidade por acidentes tem mudado nos últimos dois anos. “Muitas pessoas usando motos para trabalhar ou se locomover. Algumas pessoas mais velhas usando o serviço e sofrendo acidente. Isso é um desafio. As mulheres também têm utilizado (as motos) com mais frequência e algumas até grávidas. Temos atendido gestantes”, relata.
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Segundo ele, esses acidentes causam lesões graves e deixam sequelas. “É muito comum termos que falar para os pacientes mudarem de profissão ou atividade porque são sequelas para a vida inteira. Podem ter contraturas articulares, infecções crônicas, limitações de movimento. Depois tem a reabilitação.”
Além das sequelas na parte motora, os pacientes têm implicações psicológicas. “Alguns apresentam estresse pós-traumático, transtornos, surto psiquiátrico, além da questão financeira. Muitos deles não têm cobertura previdenciária”, ressalta.Outro problema decorrente dos acidentes é o cancelamento de cirurgias eletivas programadas no próprio hospital. “Sempre que chega um paciente desse, eventualmente, é priorizado pelo risco.”
Para ele, as pessoas deveriam se preocupar com a prevenção desse tipo de acidente. “Temos algumas coisas evitáveis, recebemos pacientes que andam de carro sem cinto de segurança, principalmente no banco de trás. Vítimas de atropelamento por usarem fone de ouvido ou distraídas no celular”, frisa.
O motoboy Pablo Cerciario Santos, de 46, é um dos pacientes internados no hospital. Depois de trabalhar por 26 anos fazendo entregas de moto, ele sofreu seu primeiro acidente há cerca de 70 dias. Já passou por quatro cirurgias, ainda precisa fazer outras três e não tem previsão de alta. Pablo conta que estava no Bairro Jardim Alvorada, Região da Pampulha, quando o motorista de um carro vinha no sentido contrário, avançou a parada obrigatória porque estava no celular, tentou fazer a conversão à esquerda e bateu na moto. Pablo quebrou clavícula e as duas pernas – em uma delas teve fratura exposta.
Ele é casado, tem um filho, e a esposa não trabalha. Enquanto está internado, diz que a família tem contado com a ajuda dos amigos para pagar as contas. “Eles fizeram uma vaquinha e arrecadaram dinheiro. A despesa é alta”, desabafa. “É difícil. O motoboy hoje precisa analisar muito bem o que quer, porque ficar aqui é complicado. O cara sente dor, chora, entra em depressão. Mas graças a Deus estou sendo muito bem atendido. Todos me tratam muito bem”, completa.
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Depois do acidente, o paciente decidiu que não vai mais trabalhar como motoboy. “Ficar em um leito assim é muito ruim. A pessoa precisa pensar demais para trabalhar como motoboy, mototáxi. É um risco total. Às vezes o cara fica na adrenalina, mas não sabe a realidade de quem deita nesse leito aqui. O cara que tira uma carteira de moto tinha que passar pelo menos uma semana aqui e conversar com a gente”, afirma.