As marcas das chuvas ainda permanecem em muitas encostas de Belo Horizonte. Em vilas e favelas, rachaduras em muros, deslizamentos de terra e estruturas comprometidas continuam sendo problemas para famílias que convivem diariamente com o risco geológico. Para tentar evitar novas tragédias, a Companhia Urbanizadora e de Habitação de Belo Horizonte (Urbel) mantém uma série de obras de contenção e ações preventivas em áreas consideradas vulneráveis.
Somente entre janeiro e abril de 2026, quase 700 vistorias técnicas foram realizadas em áreas classificadas como de risco geológico. No mesmo período, 33 obras de contenção de encostas e manutenção de estruturas foram concluídas, enquanto outras 82 intervenções seguem em andamento por todas as regionais da cidade. As ações fazem parte do Programa Estrutural em Áreas de Risco (PEAR), desenvolvido pela Urbel há mais de três décadas. O programa atua desde o diagnóstico das áreas vulneráveis até a execução de obras e orientação direta aos moradores.
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Segundo a diretora de Manutenção e Áreas de Risco da Urbel, Isabel Volponi, o trabalho vai além da construção de muros de contenção e drenagens. “O programa faz o diagnóstico das áreas de risco, trabalha a mobilização e sensibilização da população para entender o que é o risco e executa obras para mitigar essas situações”, explicou.
Ela afirma que o monitoramento é contínuo e ocorre tanto por meio de levantamentos técnicos quanto por solicitações feitas pelos próprios moradores. “Se a pessoa percebe uma trinca, uma movimentação na encosta ou qualquer situação que gere insegurança, ela pode pedir uma vistoria. A equipe vai até o local, avalia e identifica se existe risco e qual o nível desse risco”, disse. Em casos considerados graves, a orientação pode incluir até mesmo a saída imediata da família do imóvel. “Há situações muito sérias em que os indivíduos nem podem permanecer no local”, afirmou
Enock Santos acompanhou o processo desde o deslizamento até a conclusão da obra:
Moradores e construtores
Uma das características do programa é justamente a participação direta da comunidade em parte das intervenções. Dependendo da complexidade da situação, algumas obras podem ser executadas pelos próprios moradores, com orientação técnica e apoio da companhia.
Esse modelo tem sido utilizado especialmente em intervenções menores, como drenagens, desvios de água e pequenos muros de contenção. “Às vezes é uma pequena intervenção. A gente orienta tecnicamente, ajuda com algum material pertinente e o próprio morador executa a obra”, explicou Volponi.
A diretora destaca que muitos moradores já têm experiência na construção civil, o que facilita a execução dos serviços. “Muitas pessoas são profissionais da construção civil e sabem e têm condições de executar o procedimento. Então, a gente orienta, ajuda com algum material e ele mesmo é responsável por fazer a obra na sua casa”, afirmou.
A participação dos habitantes, segundo ela, é considerada essencial para a manutenção das estruturas e para a prevenção de novos riscos. “Só a obra não resolve. Se a população não cuidar, ela pode perder a eficiência. É muito importante que os moradores entendam o risco e participem da gestão dele”, disse.
Além das contenções de encostas, as equipes executam recuperação de drenagem, manutenção de becos, limpeza de áreas afetadas e recomposição de pavimentação comprometida pelas chuvas. As reformas ocorrem ao longo de todo o ano, mas costumam ganhar maior intensidade após o período chuvoso, quando aumentam os danos provocados pela água e os riscos de novos escorregamentos.
No Bairro Madre Gertrudes, na Região Oeste, inquilinos acompanharam durante anos os impactos causados por um desmoronamento antes da realização da obra de contenção. Um trabalhador que participou da intervenção contou que o serviço foi realizado por uma equipe de nove pessoas ao longo de aproximadamente 90 dias. A obra foi concluída há cerca de quatro meses. “Ficou muito bom mesmo. Fui eu que fiz essa escada”, relatou o homem, que preferiu não ser identificado.
Segundo ele, o desmoronamento atingiu diretamente uma moradora da região, conhecida como dona Didi, que perdeu parte da propriedade e também o salão de beleza que mantinha ao lado da residência. O local teria sido atingido pelas chuvas anos antes, comprometendo construções e obrigando algumas famílias a deixarem a área.
Vizinho da moradora, Enock Soares dos Santos, de 56 anos, acompanhou o processo desde o deslizamento até a conclusão da obra. Ele afirma que a situação permaneceu sem solução definitiva por cerca de três a quatro anos, até a chegada da intervenção. Enock conta que a obra ocorreu sem novos incidentes e que os moradores aprovaram o resultado. “Foi muito bem feita. Durante o processo não houve desmoronamento. Depois teve chuva e a estrutura se manteve, sem trinca e sem nada. O pessoal da região ficou muito satisfeito”, afirmou.
“A população faz parte do processo de gestão do risco. Entender o que gera risco geológico e como evitar é fundamental”
Isabel Volponi
Diretora de Manutenção e Áreas de Risco da Urbel
Sem perdas humanas
Segundo a companhia urbanizadora, as reformas têm como principal objetivo evitar deslizamentos capazes de provocar destruição de moradias e mortes. “O risco geológico precisa ser mitigado porque um escorregamento pode provocar perda de vidas”, alertou Volponi. Ela explica que um deslizamento pode atingir não apenas uma residência, mas também imóveis vizinhos e áreas de circulação de pessoas. “O poder destrutivo do escorregamento é significativo. Dependendo da situação, ele pode atingir casas do outro lado da encosta.”
Por isso, além das obras estruturais, o programa aposta em ações educativas para conscientizar a população sobre práticas que podem aumentar o risco geológico, como descarte irregular de lixo, lançamento inadequado de água e construções feitas sem orientação técnica. “A população faz parte do processo de gestão do risco. Entender o que gera risco geológico e como evitar é fundamental”, destacou.
*Estagiária sob supervisão da editora Vera Schmitz
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SERVIÇO
Moradores que identificarem sinais de instabilidade podem solicitar uma vistoria técnica da Urbel pelo telefone 3277-6409. Também é possível acionar a Defesa Civil, que encaminha os casos para avaliação da companhia.
