Embora tenha sido criada para acolher pessoas em situação de migração dentro de Belo Horizonte, a nova Unidade de Atendimento e Acolhimento ao Migrante já está atravessando limites bem maiores que os da capital mineira e até fronteiras internacionais. A unidade, inaugurada na Rua Espírito Santo, no Centro, oferece estadia para os que precisam pernoitar, passagens para os que querem voltar aos seus locais de origem e ainda ajuda a encaminhar aqueles que desejam se estabelecer na cidade. Em visita ao serviço, a reportagem do Estado de Minas descobriu que histórias diferentes, vindas da Colômbia, do Marrocos, de Roraima e da Bahia, dividem o mesmo espaço.
Já na entrada, onde é feito o primeiro atendimento e a triagem de cada pessoa, diferentes trajetórias se encontravam na mesma espera. Um homem viúvo, recém-chegado depois de mais de 30 anos fora de BH, aguardava ser chamado, em silêncio. Ao lado dele, um rapaz vindo de Caratinga, no Vale do Rio Doce, segurava uma mochila. Mais adiante, outro homem, da capital de São Paulo, contava que desembarcou em Belo Horizonte atrás de trabalho e acabou vivendo um período nas ruas. Todos aguardando na recepção, que presta auxílio para indivíduos em trânsito, deslocados ou sem rede de apoio.
Lá dentro, outro leque de bagagens se abre. O espaço ainda é pequeno. Hoje, comporta oito vagas, sendo quatro já ocupadas por homens – ainda não há mulheres hospedadas. Os quartos são simples, os banheiros amplos e adaptados para pessoas com deficiência (PCDs) e uma pequena cozinha fornece quatro refeições diárias, com apoio dos restaurantes populares. Há uma área espaçosa com mesas e bancos, e uma televisão que permanece ligada para preencher o lento passar das horas. Sobre as mesas, jogos de tabuleiro tentam oferecer distração aos dias suspensos.
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Segundo a coordenadora da unidade, Raquel Jannuzzi, a expectativa é que o espaço cresça nos próximos meses e chegue a abrigar 120 pessoas. Segundo ela, o plano prevê quatro andares: um destinado a famílias, outro para mulheres, um para homens e um emergencial, além do térreo, onde são feitas as primeiras triagens.
“No futuro, a intenção é que a unidade tenha oficinas para preencher o tempo e dar conhecimento a eles”, projetou a responsável. Desde já, o cuidado transparece nas equipes que circulam os corredores chamando os acolhidos pelos nomes.
Um deles é o colombiano Gennaro González Cardona, que há duas semanas aguarda ajuda para voltar ao país de origem. Ele contou que deveria já estar na Colômbia, mas caiu em um golpe ao comprar a passagem de ônibus pela internet. “Parece que clonaram o site da agência e roubaram meu dinheiro”, lamentou. Enquanto espera uma nova passagem, Gennaro tenta lidar com o sentimento de “suspensão” da vida.
Ele disse sentir falta da mãe, que está doente, e da esposa. Trabalhou por mais de um ano no Brasil, mas decidiu voltar depois de perceber que o salário baixo já não compensava a distância da família. “Eu me sinto entediado, porque dependo da minha família, do meu sustento”, comentou. Mesmo ansioso para partir, descreve o abrigo com gratidão. “Estar na rua é perigoso. Aqui tem café da manhã, almoço e jantar. É uma bênção. As pessoas cuidam da gente”, afirmou o colombiano.
O PERIGO DAS REDES
Nem todos que chegam à unidade foram empurrados por questões financeiras ou trabalho. Alguns atravessam o país movidos por promessas construídas nas redes sociais e encontraram na capital mineira uma realidade diferente da imaginada. Foi o caso do senhor Valter Rodrigues da Silva, de 72 anos. Ele veio de Roraima após acreditar em uma mulher que conheceu por rede social.
A moça, segundo relatou, se apresentava como fazendeira em Minas, oferecia trabalho e insinuava a possibilidade de um relacionamento. Quando chegou à capital mineira, porém, ele percebeu que nada daquilo existia. Sem documentos, dinheiro ou contato familiar, Valter acabou perdido em BH. A equipe investiga o caso e procura por contato da família. Em caso de informações, ligue: (31) 3568-1065 ou 1053.
Raquel Jannuzzi também relembrou um caso antigo, que reforça a existência de perigos e más intenções por trás das redes sociais. Conforme ela, uma mulher, também idosa e em situação de vulnerabilidade, procurou o serviço pedindo uma passagem para Salvador onde acreditava que encontraria um namorado conhecido pela internet. “Ela mostrava os vídeos que ele gravava na rede social e dizia que o homem mandava recados todos os dias. Fomos conversando e percebemos que era uma situação de golpe. Às vezes, o investimento não foi financeiro. Foi emocional”, disse a coordenadora.
DE ACOLHIDO A ACOLHEDOR
O abrigo tem atualmente 27 funcionários, que trabalham em escala 12hx36h, em operação contínua, todos os dias da semana. Entre os trabalhadores que hoje ajudam a receber migrantes na nova unidade está alguém que, pouco tempo atrás, também precisava de acolhimento. Aos poucos, Cláudio Lima aprendeu os caminhos de Belo Horizonte depois de chegar à cidade há um ano e cinco meses, vindo de São Paulo.
Natural do Piauí, ele passou primeiro por outro centro de acolhimento da rede municipal antes de conseguir reorganizar a própria vida. Depois da passagem pelo abrigo, Cláudio foi encaminhado para uma moradia social vinculada à prefeitura. Ali, diz ter conquistado mais autonomia: tinha chave própria, horários mais flexíveis e a possibilidade de começar uma nova rotina. Pouco tempo depois, voltou ao mercado de trabalho em restaurantes, área em que já tinha experiência anterior.
A oportunidade de trabalhar na própria rede de acolhimento surgiu durante o acompanhamento feito por técnicas da assistência social. “Disseram para eu preparar um currículo e entregar. Depois de um tempo, apareceu a vaga e eu consegui entrar”, comemorou. Na Unidade de Atendimento e Acolhimento ao Migrante, Lima auxilia na cozinha. Segundo ele, o café da manhã é servido das 6h às 7h; o almoço das 12h às 13h; o lanche fica disponível das 15h às 16h; e por último, o jantar, das 18h às 20h.
AULAS DE PORTUGUÊS
As conversas com o marroquino Guerch Hanza acontecem quase sempre pela tela de um celular. Ele fala apenas árabe. As perguntas são traduzidas por aplicativo, assim como as respostas, digitadas com calma antes de aparecerem em português. Entre uma tradução e outra, às vezes ele sorri, tenta repetir algumas palavras sozinho e mostra o Duolingo instalado no telefone – ferramenta que vem usando para aprender português antes mesmo de começar as aulas que serão oferecidas pela rede de apoio nas próximas semanas.
Hanza chegou ao Brasil em 5 de maio. Passou dois dias em São Paulo, mas decidiu seguir para Belo Horizonte depois de considerar a capital paulista “cheia demais”. Agora, instalado no centro de acolhimento recém-inaugurado pela prefeitura, tenta construir um novo começo a milhares de quilômetros de casa. No país de origem, ele trabalhou durante um ano como vigia em turnos noturnos de 12 horas. Em seguida, o marroquino passou um período desempregado até decidir migrar para a Turquia em busca de oportunidades. Viveu lá por um ano e meio trabalhando, retornou ao país de origem por mais dois anos e, sem conseguir estabilidade, iniciou outra travessia – dessa vez para a América do Sul.
Em Belo Horizonte, diz que pretende permanecer. Quer trabalhar como faxineiro ou entregador de comida enquanto tenta se adaptar à nova rotina e ao idioma. A família – pai, mãe, irmã e irmão mais novo – continua no Marrocos. O contato com eles é feito pelo mesmo celular que hoje lhe serve de ponte para novas oportunidades.
EXAMES PARA TRABALHAR
Manuel Ferreira Campos chegou a BH há oito dias, diretamente de Feira de Santana, na Bahia. Ele veio acompanhado de um amigo que já conhecia o centro de acolhimento, e agora ocupa uma das vagas. Aos 52 anos, completados ontem, Manuel já foi auxiliar de limpeza, ajudante de pedreiro e porteiro em São Paulo, profissão que, segundo ele, ficou mais difícil de exercer com o passar do tempo e as novas exigências do mercado.
Antes de chegar à unidade, viveu em situação de rua. Agora, enquanto aguarda exames de saúde e os próximos encaminhamentos da assistência social, tenta reorganizar os planos com calma. “Minha expectativa é arrumar um emprego”, disse, esperançoso. No abrigo, Manuel encontrou o que descreve como um primeiro respiro depois de dias difíceis. “Aqui está ótimo, Graças a Deus, me acolheram aqui”, disse.
TIPOS DE ATENDIMENTO
De acordo com Raquel Jannuzzi, a permanência no espaço varia a cada caso. “Tem gente que fica só aguardando o horário da passagem. Outros querem reconstruir a vida em Belo Horizonte. Então, a gente faz um plano individual de atendimento”, explicou. Segundo ela, o trabalho tenta equilibrar acolhimento e autonomia. Para quem deseja permanecer na cidade, a equipe estabelece metas práticas: conseguir documentos, procurar emprego, buscar moradia. O prazo máximo de permanência é de três meses, mas cada situação é tratada de forma individual. “A gente não pode deixar ninguém desassistido”, resumiu Raquel.
Conforme levantamento da Prefeitura de BH, em sua maioria, os assistidos optam por voltar ao lar de origem. Desde 4 de maio, 80 passagens foram efetivamente concedidas. Anteriormente, o serviço de atendimento ao migrante funcionava dentro do BH Resolve.
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Segundo o Executivo, em 2023, antes de ganhar endereço físico, foram concedidas 800 passagens. Já nos últimos 12 meses, estima-se que 1.200 pessoas tenham recebido auxílio, e este ano, a PBH aponta uma média de 190 bilhetes de retorno concedidos por mês. Além disso, a iniciativa pretende retomar a recepção de pessoas em situação de migração no Terminal Rodoviário de BH. Uma equipe atuará no local para realizar o encaminhamento adequado para a rede socioassistencial.
