Um feminicídio seguido de suicídio chocou moradores e mudou a rotina do fim de semana no Bairro Sagrada Família, na Região Leste de Belo Horizonte (MG), na manhã desse domingo (17/5).
O caso terminou com a morte de uma empresária de 43 anos, atingida por disparos de arma de fogo. O suspeito do crime é o marido dela, de 49, que tirou a própria vida logo em seguida. O casal morava em Sabará (MG), na Região Metropolitana da capital, e tinha duas filhas, de 6 e 13 anos.
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Segundo o boletim de ocorrência, militares faziam patrulhamento quando receberam informações de que um homem havia efetuado disparos de arma de fogo contra uma mulher na Avenida José Cândido da Silveira, no Bairro Cidade Nova. As informações iniciais apontavam que o suspeito usava camisa rosa, bermuda preta e tênis branco e teria fugido correndo após os tiros.
Com base nas características informadas, os policiais foram até o local. Ao chegarem, encontraram a mulher caída sob o Viaduto Murilo Rubião, com vários ferimentos causados por tiros e já sem sinais de vida. Equipes do Samu foram chamadas e confirmaram a morte da vítima ainda no local.
Uma testemunha contou aos policiais que o homem se aproximou da vítima enquanto ela estava sob o viaduto, sacou a arma e apontou em direção à mulher. Em seguida, efetuou vários disparos. Logo depois, trocou o carregador da pistola e voltou a atirar antes de fugir correndo pela lateral do viaduto, em direção à Avenida José Cândido da Silveira.
Durante a perícia, foram recolhidos estojos de munição espalhados pela cena do crime. Próximo ao corpo, os policiais encontraram um cartão bancário em nome da vítima e um bilhete, recolhidos para análise.
Enquanto as equipes ainda atuavam no local do feminicídio, uma nova ocorrência foi transmitida via Copom sobre um possível suicídio na Rua João Gualberto Filho, no Bairro Sagrada Família. Os policiais seguiram para o endereço e encontraram um homem com as mesmas características repassadas anteriormente como autor do homicídio. Segundo o registro policial, tratava-se de um caso de suicídio.
Os registros mostram que, às 8h10, o homem sobe a rua na contramão e estaciona o carro. Às 8h19, ele deixa o veículo e segue a pé em direção à Avenida José Cândido da Silveira. Seis minutos depois, às 8h25, retorna correndo para próximo do automóvel.
O suspeito foi encontrado sem vida ao lado do carro utilizado por ele. O Samu foi novamente acionado e confirmou a morte. Conforme constatado pela perícia, o homem apresentava um disparo de arma de fogo na boca, ferimento compatível com suicídio.
Ao lado do corpo, os policiais apreenderam uma pistola carregada e diversas munições. Dentro do veículo também foram localizadas outra arma de fogo, uma PT .380, munições e uma faca.
Crime abalou moradores do Sagrada Família
O crime abalou moradores da região ao longo do dia. A movimentação policial, o isolamento da rua e a cena do crime geraram medo e comoção entre vizinhos, que acompanharam tudo de dentro de casa e por câmeras de segurança. O clima era de tensão, principalmente após a confirmação da morte do suspeito.
“Foi um domingo muito pesado, muita gente ficou assustada, principalmente as crianças”, contou uma moradora. Segundo pessoas ouvidas pela reportagem, moradores evitaram sair de casa e orientaram crianças e adolescentes a não se aproximarem da área onde o corpo foi encontrado.
A síndica de um dos prédios próximo ao local Efigênia Maria Alves contou que o homem chegou de carro, estacionou na rua e voltou correndo para o veículo minutos depois. As câmeras do prédio registraram parte da movimentação, mas não o momento do disparo, já que uma delas estava desligada.
Uma moradora relatou ainda que viu o sangue pela janela e preferiu não descer. Nos grupos do condomínio, mensagens pediam que crianças não fossem para a rua. “Falavam para não deixar as crianças descerem porque era uma cena horrorosa.”
“Casal discreto”, dizem conhecidos
O crime também surpreendeu pessoas próximas ao casal, descrito por amigos, vizinhos e comerciantes como reservados e de rotina tranquila.
Um funcionário de um restaurante localizado ao lado do prédio onde a família morava, em Sabará, contou que o homem costumava almoçar no estabelecimento e jamais apresentou comportamento agressivo. "O casal era muito discreto. Ninguém imagina que uma pessoa pode fazer isso”, relatou o funcionário, que preferiu não se identificar.
“Ele sentava aqui, almoçava normalmente.” O funcionário contou ainda que as duas filhas do casal também eram vistas com frequência na região e que a família morava próxima ao restaurante, sendo comum vê-los andando pela rua no dia a dia.
Ele afirmou também que nunca presenciou discussões ou comportamentos agressivos entre o casal, dizendo que “pareciam unidos” e que nunca viu nada de errado na relação. Segundo relatos de vizinhos, a família aparentava ter uma vida financeira estável e mantinha uma convivência discreta, sem chamar atenção no cotidiano.
Moradores do Bairro Fernão Dias, onde o suspeito nasceu e cresceu, demonstraram surpresa com o caso. A esposa de um amigo de infância dele afirma que ele era visto como uma pessoa centrada, ligada à família e responsável pelos cuidados da mãe, que enfrentava um quadro de depressão após perdas familiares.
Segundo ela, o casal levava uma vida reservada ao lado dos filhos e não apresentava sinais aparentes de conflitos ou violência. O homem era descrito como tranquilo e discreto. “Ele era extremamente pacato e ligado à família. Poderia ser qualquer outra pessoa, menos eles.”
A entrevistada afirma que a família era considerada estruturada e que jamais imaginou uma situação semelhante. “Nunca imaginei que ele faria isso.”
Ela conta que a mãe do suspeito enfrentava um quadro de depressão desde a morte da filha e que, após perder também o marido, passou a depender ainda mais dos cuidados do filho. “Depois que o pai faleceu, ele se dedicava muito a cuidar dela.”
Homem deixou carta de seis páginas
Durante buscas na residência da família, em Sabará, policiais fizeram contato com familiares do casal, que entregaram uma carta de seis páginas escrita pelo homem. Segundo o boletim de ocorrência, no documento ele detalharia as motivações e circunstâncias da ação.
O material foi recolhido pela perícia para análise. Já o veículo utilizado pelo suspeito ficou sob responsabilidade do irmão dele, uma vez que, conforme registrado pela PM, não havia indícios de crime relacionados diretamente ao automóvel.
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Os corpos foram encaminhados ao Instituto Médico-Legal Dr. André Roquette. Somente após a conclusão dos laudos as circunstâncias das mortes serão confirmadas oficialmente. O corpo da empresária foi velado nesta segunda-feira (18/5), no Cemitério Parque da Colina, na Região Oeste de Belo Horizonte.
