As águas da bacia hidrográfica e da calha principal do Rio Pará perderam praticamente um terço de sua superfície nos últimos 40 anos.
O encolhimento trouxe perdas para a vida aquática, a agricultura, o abastecimento, assim como impactos como o aumento da concentração de esgoto, poluentes e sedimentos.
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Situações como essas foram denunciadas pela Expedição Rio Pará Vivo 2026, que atravessa com caiaques o manancial, como ação de sensibilização do Comitê da Bacia Hidrográfica (CBH) do Rio Pará.
Os dados sobre a redução da área superficial de águas entre 1985 e 2024 são da rede de universidades, institutos e ONGs Mapbiomas, compilados pela reportagem do Estado de Minas tanto na bacia quanto por segmentos do rio principal (veja abaixo).
Na primeira década analisada (1985 a 1994), a Bacia do Rio Pará ostentava uma média de 8.405 hectares (ha) de superfície de água. Mas, nos últimos dez anos avaliados (2015 a 2024), a média encolheu para 5.323 ha, uma perda de 36,6% do espelho d'água.
As perdas na bacia foram progressivas, encolhendo na segunda década (1995-2004) para 7.575 ha e, na terceira (2005-2014), para 6.129 ha.
Perda também na calha principal do Rio Pará. Na primeira década da série histórica a média era de 4.307 ha contínuos de extensão hídrica, mas que minguou para 2.907 hectares na última década. Nada menos que 32,5% de área que se evaporou.
Caiaques atravessam o Rio Pará entre Conceição do Pará e Pitangui cumprindo a quarta etapa da expedição da nascente a foz do Rio Pará
Onde a situação é mais dramática no Rio Pará?
A situação mais dramática é em Desterro de Entre Rios, no Campo das Vertentes, onde o espelho d'água foi quase dizimado a ponto de o rio quase secar completamente em anos recentes. De 9 ha de superfície nas primeiras décadas analisadas, o segmento passou a 0,31 ha (-96,5%).
O segundo trecho mais afetado fica em Passa Tempo, no Centro-Oeste, e demonstra um definhamento sistêmico, perdendo quase dois terços de sua massa d'água ao longo de 40 anos, passando de 209,75 ha para 74,27 ha (-64,6%).
Em terceiro como o ponto onde o Rio Pará mais perdeu superfície está o segmento entre Itaguara e Cláudio, onde a média de 93,63 ha passou para 42,17 ha (-55%).
O quarto trecho do Rio Pará onde a superfície foi mais reduzida é justamente onde a expedição passa nesta quinta-feira, entre Conceição do Pará e Pitangui.
Entre os dois municípios do Centro-Oeste mineiro a perda em quatro décadas foi de 155,58 ha para 73,62 ha (-52,7%).
Conhecido ponto de pescaria, sobretudo entre as pedras escuras que delimitam cachoeiras e corredeiras, o rio ali tem experimentado uma contínua redução da sua fartura, segundo apontam pescadores. Por outro lado, a proliferação de cágados tende ao desequilíbrio.
Os carrapatos-estrela também proliferam nas margens ressecadas e entre as capivaras, trazendo a ameaça da febre maculosa. A Prefeitura de Conceição do Pará chegou a espalhar placas alertando para a presença dos parasitas transmissores.
Placa alerta para a proliferação de carrapatos-estrela que podem transmitir a febre maculosa nas margens do rio. Desequilíbrio ambiental
A febre maculosa é uma doença infecciosa febril aguda, que pode matar e é causada por bactérias do gênero Rickettsia.
A redução da água possibilita menor diluição dos esgotos e efluentes químicos lançados no Rio Pará, tornando o rio mais poluído.
Os pescadores estão entre os alvos da expedição pelo Rio das Velhas, justamente por estarem entre os mais prejudicados nesse trecho.
"Pitanguí e Conceição do Pará têm um bom potencial turístico, áreas bem preservadas. Há muitos pescadores e a gente quer também trazer esse pessoal para eles começarem a entender como podem ajudar na conscientização e na mobilização pela melhoria de todo o rio", destacou o presidente do CBH do Rio Pará, José Hermano Oliveira Franco.
O desavio de navegar por entre as rochas e sequências de corredeiras trouxe ainda mais atenção para os expedicionários, sobretudo porque dificilmente os barcos de pesca passam por esses locais.
"Já estamos a alguns quilômetros do grande epicentro de poluição que é Divinópolis. Então, o Rio já deu uma depurada em Conceição do Pará. Não dá para abusar e ter contato com a água demais, mas é muito melhor. A gente já começa a ver mais pescadores nas margens, pesqueiros, ranchos de pesca. Essa relação com o rio mostra que têm mais afeto e que se interessam mais em cuidar", afirma o
coordenador-geral da navegação, Rodrigo de Angelis.
Pescadores aparecem em grandes quantidades entre Conceição do Pará e Pitangui, sendo um alvo específico das ações de sensibilização da expedição no local
Em paralelo ao avanço dos navegadores pelas corredeiras, a recepção da expedição é na Estação
Cultural Velho da Taipa, localizada na divisa entre os municípios.
A programação contará com apresentação da banda musical local, participação do Conselho de Crianças de Pitangui com mensagem em defesa do meio ambiente e do patrimônio cultural, dinâmicas ambientais conduzidas por estudantes e apresentações artísticas de escolas da região.
O público também poderá visitar a exposição educativa sobre a Bacia Hidrográfica do Rio Pará.
A Expedição Rio Pará Vivo 2026 ocorre até 16 de maio. Após a rodada de diálogos terrestres realizada com as comunidades e lideranças em 2023, o comitê agora coloca seus expedicionários em caiaques para uma incursão fluvial histórica de seis dias.
A rota conectará o eixo produtivo e cultural formado por Resende Costa, Passa Tempo, Carmo do Cajuru, Divinópolis, Pitangui, Conceição do Pará, Martinho Campos e Pompéu.
A viabilidade dessa imersão aquática deve-se ao trabalho prévio do Projeto de Mapeamento da Navegabilidade.
O estudo entregou um raio-X de 294 quilômetros do corpo d'água (de Passa Tempo até o Rio São Francisco) utilizando tecnologias de ponta como batimetria de precisão, posicionamento GNSS e imagens aéreas por drones.
Em cada ponto de ancoragem, o conhecimento técnico se transformará em ação cidadã, com recepções públicas, integração com escolas e exposições.
Além do viés educativo, a expedição trará respostas concretas à infraestrutura sanitária: a assinatura de pactos para construir sistemas autônomos de tratamento de esgoto, beneficiando populações rurais e preservando a integridade do manancial.
Degradação engole o Rio Pará
Tanto a bacia hidrográfica quanto a calha do Rio Pará perderam superfície nas últimas décadas
Redução da área superficial da Bacia Hidrográfica do Rio Pará
1985 a 1994: 8.405 ha
1995-2004: 7.575 ha
2005-2014: 6.129 ha
2015 a 2024: 5.323 ha
Na calha principal do Rio Pará
1985 a 1994: 4.307 ha
1995-2004: 3.862 ha
2005-2014: 3.366 ha
2015 a 2024: 2.907 ha
Encolhimento do rio por segmento, nos últimos 40 anos
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- Desterro de Entre Rios: 9 ha para 0,31 ha (-96,5%)
- Passa Tempo: 209,75 ha para 74,27 ha (-64,6%)
- Carmópolis de Minas/Itaguara (MG): 109,67 ha para 63,63 ha (-42%)
- Itaguara/Cláudio: 93,63 ha para 42,17 ha (-55%)
- Cláudio/Carmo do Cajuru/Divinópolis: 1.974,34 ha para 1.568,54 ha (-20,6%)
- Carmo do Cajuru/Divinópolis: 121,44 ha para 77,15 ha (-36,5%)
- Divinópolis/São Gonçalo do Pará: 70,83 ha para 271,92 ha (-42,2%)
- São Gonçalo do Pará/Nova Serrana/Conceição do Pará: 223,62 ha para 116,50 ha (-47,9%)
- Conceição do Pará/Pitangui: 155,58 ha para 73,62 ha (-52,7%)
- Pitangui/Leandro Ferreira: 234,91 ha para 125 ha (-46,8%)
- Pitangui/Martinho Campos: 157,23 ha para 98,51 ha (-37,3%)
- Martinho Campos/Pompéu: 512,97 ha para 373,42 ha (-27,2%)
Prevenção e ações da expedição fluvial
- Febre maculosa: evitar sentar ou deitar em gramados próximos a rios com capivaras
- Proteção individual: usar calçados fechados e roupas claras para identificar carrapatos
- Sinalização municipal: respeitar placas de alerta sobre a presença de parasitas transmissores
- Contato com a água: evitar mergulhos em trechos próximos a centros urbanos poluídos
- Saneamento rural: implementar sistemas autônomos para tratar esgoto doméstico fora da rede
- Preservação da fauna: manter o equilíbrio populacional entre espécies nativas e predadores
- Navegabilidade técnica: com o mapeamento pescadores, ribeirinhos e desportistas poderão navegar
- Mobilização social: Recepções públicas e atividades em estações culturais
- Educação ambiental: levar crianças e estudantes para conhecer a realidade do manancial
- Pesca sustentável: incentivar pescadores locais a atuarem como guardiões da qualidade da água
Fontes: MapBiomas, CBH do Rio Pará, Ministério da Saúde
