Suspeito de jogar tijolo em carro e atingir mulher vai a júri popular
A vítima, de 38 anos, estava no banco de trás ao lado da filha, de 2, quando o bloco de concreto quebrou o teto solar e a atingiu
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O suspeito de arremessar um tijolo que atingiu um carro e acertou a cabeça de uma passageira em Belo Horizonte, em outubro de 2025, será levado a júri popular por quatro tentativas de homicídio qualificado. A decisão foi assinada pela juíza Ana Carolina Rauen Lopes de Souza, da 1ª Vara do Tribunal do Júri da capital, que manteve a prisão preventiva do réu Yuri Henrique de Oliveira Nunes, de 30 anos, diante da gravidade do caso e dos indícios reunidos durante a investigação.
O caso aconteceu na manhã de 19 de outubro de 2025, por volta das 9h20, no Túnel Presidente Tancredo Neves, quando uma família voltava para casa depois de um evento de corrida no Centro da cidade.
No veículo estavam quatro pessoas: o motorista Carlos Henrique Fernandes Guerra, de 42; o sobrinho Bernardo de Almeida Guerra, de 19, no banco do passageiro da frente; a esposa de Carlos, Laura de Carvalho Moreira, de 38, e a filha do casal, Manuela Moreira Guerra, de 2, na cadeirinha de bebê, ambas no banco traseiro.
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Em depoimento à Justiça, Laura contou que os momentos antes do ataque eram de tranquilidade. “A gente conversava sobre uma viagem de fim de ano. Essa foi minha última lembrança antes de acordar no hospital”, relatou.
Segundo o processo, Yuri estava na parte superior do túnel quando arremessou o bloco de concreto de cerca de 8,6 quilos em direção à pista. O objeto destruiu o vidro do teto solar do automóvel e atingiu o rosto de Laura, que perdeu a consciência imediatamente após o impacto e só soube do que havia acontecido depois, já internada. Os outros ocupantes do carro não foram atingidos, mas ficaram em estado de choque durante o ataque.
Laudos médicos anexados ao processo mostraram que Laura teve graves sequelas decorrentes do trauma sofrido, como perda de continuidade óssea no rosto, lesões no nariz, no globo ocular e no ducto lacrimal, além de múltiplas cicatrizes. Durante o tratamento, foram implantados 32 parafusos, seis placas e uma malha de titânio para sustentação do olho esquerdo, que havia se deslocado da órbita.
Ela contou que ficou cerca de 40 dias sem conseguir falar e precisou se alimentar apenas com líquidos e segue fazendo sessões semanais de fisioterapia e ainda enfrenta limitações para abrir a boca, além da necessidade de novas cirurgias na região nasal. “Até hoje faço fisioterapia e ainda tenho dificuldade para abrir a boca”, disse.
O companheiro dela, Carlos, também relembrou os momentos de desespero vividos dentro do carro. Segundo o depoimento, ele ouviu um estrondo muito forte enquanto passava pelo túnel. Logo depois, percebeu que a filha do casal chorava e que Laura não respondia aos chamados.
Carlos contou que reduziu a velocidade e viu a companheira caída sobre o cinto de segurança. “Quando olhei para trás, a metade do rosto da minha esposa estava caída sobre o corpo dela, eu vi ossos, músculos e dentes expostos.”
Mesmo abalado, ele conseguiu dirigir até o Hospital São Camilo, no Bairro Horto, na Região Leste de BH, para buscar socorro. Laura foi atendida inicialmente na unidade e depois transferida para o Hospital de Pronto-Socorro João XXIII, na Região Centro-Sul da cidade, por causa da gravidade dos ferimentos.
Carlos também falou sobre os impactos emocionais causados pelo crime na rotina da família. “Nossa filha ficou afastada da mãe por causa da rotina intensa de tratamento e cuidados médicos”, disse.
Uma testemunha ouvida pela Justiça disse ter visto o momento exato em que o bloco foi lançado. Diego Monteiro de Barro Lins contou que passava pelo túnel quando viu um homem debruçado na parte de cima da estrutura segurando um bloco de pedra.
Segundo ele, o objeto foi lançado em direção aos carros que passavam pela via e atingiu o veículo da família. Diego relatou que tentou alcançar o carro para avisar as vítimas, mas elas seguiram em direção ao hospital. No dia seguinte, após assistir a reportagens sobre o caso, ele reconheceu o suspeito e procurou a polícia.
Os policiais militares responsáveis pela investigação disseram que chegaram até Yuri após conversarem com moradores em situação de rua do Bairro Lagoinha, na Região Noroeste da capital. De acordo com os agentes, o suspeito havia sido encaminhado para uma clínica de reabilitação em Sabará, na Grande BH, onde acabou preso em flagrante no dia seguinte ao crime.
Segundo os militares, Yuri apresentou versões diferentes sobre o caso. Em um primeiro momento, teria afirmado que a pedra caiu na pista durante uma discussão com outro morador de rua. Depois, confessou ter lançado o bloco em direção ao túnel.
Durante o processo, a defesa pediu a abertura de incidente de sanidade mental, argumentando que o uso excessivo de álcool e drogas poderia ter comprometido a capacidade do réu de compreender seus atos e de agir de acordo com esse entendimento no momento dos fatos. No entanto, o pedido foi negado pela Justiça.
Na decisão, a juíza afirmou que existem provas da materialidade do crime e indícios suficientes de autoria para que o caso seja analisado pelos jurados. “A prova oral indica que o réu teria, de forma deliberada, arremessado um expressivo bloco de concreto em direção à via pública”, escreveu a magistrada.
A juíza também destacou que o acusado assumiu o risco de atingir todos os ocupantes do carro. “Há indícios de que o réu assumiu o risco de causar a morte de todos os ocupantes do automóvel”, afirmou.
Ao manter a prisão preventiva, a juíza citou “a brutalidade do crime”, além da necessidade de “garantir a ordem pública” e evitar novos delitos.
Yuri responderá por tentativas de homicídio qualificadas por motivo torpe, meio cruel, perigo comum e recurso que dificultou a defesa das vítimas. No caso da pequena Manuela, também foi mantida a qualificadora por o crime ter sido cometido contra menor de 14 anos.
Agora, o processo seguirá para uma das varas do Tribunal do Júri de Belo Horizonte, onde será marcada a data do julgamento popular.
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*Estagiária sob supervisão da subeditora Regina Werneck