BH: festival de carrinho de rolimã transforma asfalto em pista de memórias
Evento na Avenida Cristóvão Colombo atrai famílias, promove o resgate da infância e conecta avôs, pais e filhos em uma das brincadeiras de rua mais tradicionais
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A Avenida Cristóvão Colombo, no entorno da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte (MG), mudou de ritmo na manhã deste domingo (24/5) e se transformou em uma agitada pista de rolimã. Promovida pela Federação Mineira de Carrinhos de Rolimã (Femcar), a terceira edição do festival celebrou o dia municipal da modalidade, unindo famílias, resgatando memórias e arrancando gargalhadas do público.
Durante quatro horas, a pista ficou aberta para quem quisesse arriscar a descida. O evento celebrou uma das brincadeiras de rua mais tradicionais do país, oficializada pela Lei nº 11.503/2023 (que alterou a Lei nº 11.397/2022), instituindo a data comemorativa no calendário oficial da capital mineira.
“Retorno para a infância”
O evento é visto como um retorno para a infância de quem acompanha as crianças. É o que conta Vinicius Valadares, vendedor de 48 anos que mora no Bairro Alto dos Pinheiros, região Noroeste da capital. Ele levou a filha Lara Portela, de 5 anos, para brincar avenida abaixo. Em conversa com o Estado de Minas, ele contou que a brincadeira de rolimã foi uma de suas memórias vívidas da infância.
“Era a brincadeira mais acessível que a gente tinha na época e as ruas favorecem, têm muita ladeira e era na rua de casa. A gente não ia pra longe”, contou. Em resgate da memória, ele detalhou que era costume construir os carrinhos durante dias e fazer testes. “Aí a gente testava alguma coisa nova, quebrava, machucava, arranhava todo, ralava, chegava em casa, apanhava, porque tava todo ralado”, brincou. “Era apanhar de criança, né? Não era nada de machucar a gente, mas só pra gente deixar de ser levado”, garantiu, brincando.
Segundo ele, a filha, apesar de resistente no início, se divertiu muito com as descidas e nem queria ir embora. “Ontem, ela estava assim: ‘Ah, papai, vamos não, vou ver televisão’. Falei ‘Não, vou te mostrar como é que é. Se você não gostar na primeira volta, a gente vai pra casa’. E hoje ela já falou que não vai embora”, relatou Vinicius. O vendedor comentou ainda que a família tem um compromisso mais tarde neste domingo, mas que a filha já decidiu que eles iriam se atrasar para aproveitar ainda mais a festa.
O resgate ainda veio além da brincadeira em si, mas na preparação para ela. Isso porque a dupla de pai e filha montaram o próprio carrinho para poder participar. “Hoje ela está entendendo o que eu estava falando na cabeça dela, que é muito legal e que ela iria adorar”, disse Vinícius, que considera as descidas com carrinho de rolimã muito saudáveis.
Outra dupla que aproveitou a festa foi a dupla de avô e neta, composta pelo aposentado Antônio Eugênio Fernandes, de 67 anos, que levou Lara Fernandes, de 5 anos, amiga de escola da primeira Lara. Ao EM, Antônio contou que é a primeira vez que participa de um evento parecido e avaliou a organização como “muito boa”.
Segundo ele, os carrinhos estão em bom estado e o uso deles foi tranquilo pela orientação. “[A organização] ensina tudo, orienta. Tudo está muito legal”, comentou. Na visão dele, a neta aproveitou bastante a festa, sem faltar animação.
Diversão não tem idade
Apesar de ser uma brincadeira “de criança”, pais e filhos aproveitaram a festa. José Maurício Ribeiro, de 80 anos, aproveitou o festival independentemente da idade que tem. À reportagem, Walter Reis, policial militar reformado de 59 anos, que é marido da sobrinha de José Maurício, contou que Ribeiro é fabricante de carrinhos de rolimã. Ele, que tem mais de 20 carrinhos em casa, não deixou a oportunidade passar desta vez.
“Ele sempre teve essa vontade de participar. Esses carrinhos de rolimã estão na casa dele há muito tempo. E hoje apareceu essa oportunidade, menina. Foi pra nós muito bom, muito gratificante”, contou Walter.
A festa foi em família: mais de 15 pessoas, incluindo a esposa dele, Raquel, outros tios, sobrinhos e primos, desceram a avenida e participaram do evento por toda a manhã. “Vai ficar gravado. Ainda mais ele que está um pouquinho debilitado, foi um presente para todos nós, graças a Deus”, afirmou.
A distância não impediu a diversão. Isto porque Walter e Raquel moram em um sítio em Igarapé (MG), na Região Metropolitana de BH, e viajaram aproximadamente 50 quilômetros para o evento. “Para me arrastar daqui só sendo uma pessoa muito especial. E ele é especial demais pra nós”, comentou.
Inclusão
A festa pôde ser vivida tanto por pessoas que já dispunham dos próprios carrinhos quanto por quem não conseguiu fazê-los ou descobriu ali naquele momento sobre o Festival. Para isso, a equipe dispõe de mais de 50 carrinhos disponíveis para empréstimo.
“Inclui muito todo mundo. Tem morador de rua andando de carrinho de rolimã aqui, tem gente que estava no hotel saiu para ver o que é, tem belo-horizontino que estava passeando com a criança, chegou aqui e já está andando de carrinho de rolimã…”, contou Vinícius Valadares.
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Ele, que já acompanha eventos do gênero há um tempo, garantiu que esta é uma prática recorrente: “A ideia do evento mesmo, de todas as equipes que estão aqui, é sempre de compartilhar esses momentos, que hoje, infelizmente, estão morrendo”.