Mesmo distante do debate público, a tuberculose nunca deixou de rondar Minas Gerais e o mundo, diante de uma epidemia global que dura décadas. Os anos recentes, no entanto, mostram que a doença voltou a ocupar um espaço incômodo no cotidiano dos mineiros.

Em 2023 e 2024, o estado voltou a registrar mais de 5 mil casos anuais — níveis que não apareciam desde 2008. As mortes seguem a mesma curva: 2021, 2022 e 2023 estão entre os anos mais letais desde 2010, com 220, 272 e 261 óbitos, respectivamente. Histórias recentes revelam o peso desse ressurgimento pós-pandemia — como a de Joicemaira Santana, de Manhuaçu, que só entendeu o que tinha quando a dor no peito e a tosse persistente se tornaram insuportáveis.

Ao mesmo tempo que o factual merece atenção, o aspecto histórico da enfermidade em Belo Horizonte, cidade que era modelo para o combate à doença em décadas anteriores, compõe este material especial “A volta da tuberculose”, publicado pelo Estado de Minas.

Dentro desse histórico, está a trajetória da família do ícone da MPB Gonzaguinha, cuja mãe morreu vítima da bacteriose aos 26 anos. Ele, inclusive, enfrentou dois tratamentos contra o bacilo de Koch ao longo da vida – um dos motivos de manter, em BH, antes de morrer em 1991, um convívio marcado pelo cuidado com a saúde. Essa história é contada pela filha do artista – Mariana Gonzaga, professora e pesquisadora da UFMG, doutora justamente na área da tuberculose. Ela traz detalhes nunca antes revelados, como a maneira que a doença foi combustível criativo para composições históricas de autoria do pai.

Tísica, mal do século e até peste branca. Os sinônimos para descrever a tuberculose dão o peso de uma doença que continua epidêmica globalmente mesmo séculos após o seu surgimento. Em Minas Gerais, dados alertam para o retorno da enfermidade nos últimos anos. Tanto em 2024 quanto em 2023, o estado ultrapassou a marca de 5 mil casos, algo que não acontecia desde 2008 – os dados de 2025 ainda estão em consolidação pelo Datasus. O total de mortes também chama a atenção: desde 2010, os três anos com mais registros de vidas perdidas pela bacteriose foram justamente períodos recentes: 2022 (272), 2023 (261) e 2021 (220).

Belo Horizonte inaugurou o sanatório idealizado por Hugo Werneck em 1928. Equipamento hoje está abandonado

Leandro Couri/EM/D.A Press

Moradora de Manhuaçu, na Zona da Mata mineira, Joicemaira Santana, de 31 anos, foi diagnosticada com a tuberculose em 2023. Durante o tratamento, chegou a perder cerca de 30 quilos e a passar a enfermidade para os filhos, de 1 e 3 anos.

“Eu não sabia o que era tuberculose. Nunca tinha ouvido falar nisso. Sentia muita dor no peito, como se estivesse enfiando uma faca mesmo. Suava muito à noite. Muita tosse também. Minha irmã que chegou até mim e disse: ‘Joice, isso está parecendo tuberculose’. Foi aí que procurei ajuda”, conta.

O tratamento de seis meses, no caso de Joice, como prefere ser chamada, durou um ano. “Achei (o combate à doença) pior do que a própria tuberculose. Muito ruim. Sofri demais com efeitos colaterais. Passei muito mal. Mas vi o resultado”, diz.

A suspeita de Joice é de que um amigo tenha transmitido a doença. “A irmã dele chegou pra mim e disse: ‘Joice, você sabia que meu irmão tem tuberculose, né?’. Eu não fazia ideia. Ele tossiu bastante perto de mim. Só que a dele já dura muitos anos”, afirma. Hoje, a mulher agradece pela cura sua e dos filhos. “Ainda bem, não temos qualquer sequela”.


Hipóteses

Para tentar explicar a nova alta da tuberculose, o Estado de Minas ouviu três especialistas no assunto. Entre uma análise e outra, todas convergiram para um mesmo ponto: a pandemia da COVID-19. Em primeiro lugar, a crise sanitária represou a detecção de casos de muitas doenças, entre elas a tuberculose. Na prática, os pacientes deixavam de procurar ajuda nas unidades médicas por medo da infecção pelo novo coronavírus. Sem tratamento e sem busca ativa de casos, a tuberculose encontrou um tapete vermelho para se espalhar.

“A tuberculose ficou esquecida. Houve mudança nas condições de vida das pessoas e na atenção primária à saúde, que é fundamental para o diagnóstico e tratamento. Isso pode interferir nesses dados, porque o diagnóstico passa a ser tardio, já num serviço secundário (no hospital, em vez do centro de saúde)”, afirma Giselle Lima, professora do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da UFMG.

Joicemaira Santana durante o tratamento, em 2023

Arquivo pessoal

A pneumologista da Santa Casa BH, Michelle Andreata, alerta para outro problema trazido pela pandemia. “Desde então, as pessoas têm tido menos acesso ao plano de saúde devido à crise econômica. O sistema público de saúde tem seu ônus e o seu bônus. Ele está treinado para fazer esse diagnóstico, mas há uma latência, uma demora para isso. O que poderia ser tratado em pouco tempo acaba levando mais tempo, e a transmissão acontece dentro da própria casa”, diz.

Além disso, um dos desafios do sistema de saúde para combater a tuberculose passa pelo longo período de tratamento. São seis meses de medicação até a cura na maior parte dos casos. No entanto, pela vulnerabilidade social e pelo combate duradouro, é comum pacientes interromperem a medicação antes do seu término, o que dá origem aos chamados casos resistentes.

Ao mesmo tempo, o fato de a doença acometer especialmente setores da população em vulnerabilidade social faz com que as interrupções de tratamento sejam ainda mais comuns. Fatores como consumo de álcool e outras drogas e a convivência em ambientes pouco arejados deixam, por exemplo, a população privada de liberdade e em situação de rua no alvo do bacilo de Koch, a bactéria causadora.

“A gente usa o termo ‘interrupção de tratamento’, porque há uma estrutura que leva ao abandono, não somente o paciente isoladamente. Na população em situação de rua e na privada de liberdade, infelizmente, há uma alta carga de interrupção. É preciso entender o motivo disso, de forma multidisciplinar”, afirma Silvana Spíndola, pneumologista e professora do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG.


História de abandono

Os desafios que envolvem a doença duram décadas em BH, uma cidade que tem parte da sua história contada pela tuberculose. Em meados do século 20, acreditava-se na teoria de que cidades mais arborizadas, portanto com uma melhor qualidade do ar, seriam a chave para o tratamento da tísica. Com isso, a capital mineira entrou na rota de muitos pacientes, até mesmo alguns famosos (leia mais nas páginas 18 e 19).

Erguido em 1928, o sanatório Hugo Werneck, na Região Norte da cidade, é o maior símbolo dessa trajetória. O equipamento tinha capacidade para 180 leitos, mas durante a epidemia chegou a acolher mais de 250 tuberculosos. Na década de 1970, o prédio de mais de 8 mil metros quadrados se tornaria o Recanto Nossa Senhora da Boa Viagem, vinculado à Paróquia da Boa Viagem. Hoje, está fechado, completamente em ruínas e cercado por muita vegetação.
O que diz o governo

A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) informou que o aumento recente dos casos da tuberculose refletem os impactos da pandemia, quando “o sistema de saúde registrou queda significativa na detecção da doença devido à redução na busca por atendimento e à sobrecarga dos serviços”.

Segundo a pasta, “esses diagnósticos represados tendem a emergir nos anos subsequentes”. A SES também destaca que parte desse incremento “decorre do fortalecimento da vigilância, que se tornou mais ativa e sensível”.

Entre as medidas contra a doença, a pasta ressalta que “desenvolve capacitações presenciais e on-line; realiza o Workshop para o Controle da TB e o Seminário de Tuberculose no Sistema Prisional; e qualifica os profissionais quanto aos sistemas de informação”.

A SES informa que tem feito “monitoramento mensal de casos com suspeita de drogarresistência ou interrupção precoce do tratamento; distribuição de insumos como teste rápido molecular; e estímulo ao diagnóstico e tratamento da infecção latente, que já preveniu milhares de casos desde 2018”.

Quanto aos casos drogarresistentes, o governo informa que o estado registra 35 casos em tratamento atualmente. “A complexidade deles exige respostas mais robustas, pois envolvem tratamentos mais longos, mais custosos e com maior risco de reações adversas. Em 2025, o país passou a contar com novo esquema encurtado para TB-DR, de seis meses, com pretomanida e bedaquilina — reduzindo o tempo de tratamento, antes de até 18 meses”, esclarece.

No plano federal, o Ministério da Saúde reforça, neste ano, o Programa Brasil Saudável, que tem o objetivo de eliminar doenças de determinação social até 2030, entre elas a tuberculose. “Entre as entregas previstas para 2026 está o fortalecimento das ações voltadas à adesão ao tratamento de doenças crônicas, como HIV e tuberculose”, ressalta a pasta.

Nova geração e dificuldades

O fato de a tuberculose ser tratada como uma doença antiga também traz desafios para o sistema de saúde. Michele Andreata, da Santa Casa BH, garante que parcela dos médicos recém-formados não tem conhecimento sobre a bacteriose, o que atrasa os diagnósticos.

A atenção primária (centros de saúde, por exemplo), que deveria ministrar a medicação de imediato, não detecta a doença em determinados casos, o que força o paciente a procurar o hospital já num quadro mais grave.

“A rotatividade de médicos nos centros de saúde também é muito alta, o que dificulta o treinamento dessas equipes. O médico mais jovem, quando começa a conhecer a população, sai daquela unidade e vai para outra (em busca de melhores condições). Daí, entra outro profissional que não sabe nada sobre aquela realidade. Fora que temos muitos cursos de medicina sem controle sobre a qualidade”, diz. Diante disso, o governo federal tem adotado medidas para ampliar a qualidade da graduação.

Em outubro, promoveu um exame para verificar se os estudantes concluintes adquiriram as competências exigidas pelas diretrizes curriculares. O MEC estabeleceu cinco níveis de notas globais. As formações com conceito 2 terão redução de vagas para ingresso de novos alunos de medicina. Já aqueles com conceito 1 terão suspensão total das matrículas.

Infográfico

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Arte/Soraia Piva

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