Descobrir como crianças e adolescentes pensam, sentem e se comportam pode ser decisivo para prevenir problemas de saúde mental e orientar famílias e escolas. Foi com esse objetivo que o pesquisador Pedro Martins, doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), desenvolveu a Acenna, Escala de Personalidade Infantojuvenil.

O instrumento, baseado em sua tese defendida em dezembro de 2025, está em fase final de ajustes e deve ser submetido ao Conselho Federal de Psicologia até 2027.

Martins buscou ir além da atualização de métodos, construindo uma ferramenta que dialogasse com o contexto cultural, social e emocional das novas gerações brasileiras. "A personalidade começa a se manifestar desde cedo, e entender esses padrões ajuda a gente a pensar em prevenção, não só em diagnóstico", explica.

A Acenna nasce de uma trajetória acadêmica que começou ainda no mestrado, quando o pesquisador investigava a adequação de testes internacionais à realidade nacional. Mas o projeto não só ajusta modelos estrangeiros: em vez de adaptar, decidiu criar. Segundo ele, muitos instrumentos utilizados hoje "foram desenvolvidos em contextos muito diferentes do brasileiro, o que pode limitar a compreensão mais precisa das crianças daqui". 

O resultado é um material estruturado para captar traços de personalidade em crianças e adolescentes - entre 5 e 17 anos - de forma mais ampla e precisa. A escala combina duas perspectivas fundamentais: o autorrelato, quando o próprio jovem responde às questões, e o relato de informantes, como pais ou responsáveis.

Essa abordagem múltipla permite uma visão mais completa do comportamento, reduzindo distorções e ampliando a confiabilidade dos dados. "Essa combinação permite comparar diferentes pontos de vista e entender melhor como a criança se comporta em diferentes contextos", comenta. 

Um retrato mais fiel da infância brasileira

A proposta parte de um princípio simples, mas frequentemente negligenciado: jovens brasileiros não vivem a mesma realidade para qual muitos testes clássicos foram criados. Diferenças culturais, sociais e até linguísticas podem impactar diretamente a forma como as perguntas são compreendidas e, consequentemente, como as respostas são dadas.

Ao considerar essas variáveis, o instrumento busca captar nuances que muitas vezes passam despercebidas em avaliações tradicionais. Isso inclui desde a forma como jovens lidam com emoções até padrões de comportamento social, autocontrole e percepção de si mesmos. Como ressalta o pesquisador, "não dá para avaliar uma criança brasileira com base em parâmetros que não consideram o contexto em que ela vive". 

A ideia é construir um perfil psicológico que ajude a compreender o funcionamento individual de cada indivíduo.

Outra inovação está no modelo teórico adotado. A escala foi construída com base no chamado "Modelo dos Seis Pequenos Fatores", uma abordagem contemporânea da psicologia da personalidade que expande e refina modelos clássicos, como o Big Five. Essa escolha permite uma análise mais detalhada dos traços, oferecendo maior sensibilidade para captar diferenças individuais, especialmente importantes durante fases de desenvolvimento tão dinâmicas quanto a infância e a adolescência.

Na prática, o teste permite identificar traços como:

  • Sociabilidade;
  • Organização;
  • Empatia;
  • Impulsividade;
  • Estabilidade emocional. 

"Um dos pontos que mais me entusiasma é ver como dados de personalidade podem revelar conexões inesperadas entre comportamento, emoções e aprendizagem. Cada criança tem um perfil único, e a pesquisa nos permite começar a mapear essas singularidades de forma sistemática, algo que até pouco tempo era quase impossível", relata. 

Ciência aplicada à prevenção

Um dos pontos centrais do projeto é o potencial preventivo da ferramenta. Ao identificar padrões de comportamento e funcionamento emocional ainda na infância, torna-se possível antecipar intervenções e evitar o agravamento de problemas.

De acordo com o doutor em psicologia, traços de personalidade estão diretamente ligados a questões como ansiedade, reações, dificuldades de socialização e até comportamentos agressivos. Quando bem avaliados, eles oferecem pistas importantes sobre riscos futuros, sem que isso signifique, necessariamente, um diagnóstico clínico.

A intenção é que a escala se torne uma aliada tanto no ambiente clínico quanto no educacional, proporcionando que psicólogos a utilizem para orientar atendimentos, enquanto escolas e famílias podem se beneficiar de uma compreensão mais aprofundada do desenvolvimento dos jovens. "A ideia não é rotular a criança, mas entender como ela funciona para poder ajudar melhor", esclarece.

Próximos passos

Antes de chegar aos consultórios e escolas, o trabalho ainda precisa passar por uma etapa fundamental: a avaliação do Conselho Federal de Psicologia. Esse processo garante que o instrumento atenda a critérios rigorosos de validade, precisão e ética.

"A submissão está prevista para meados de 2027. Ainda estamos terminando de escrever o manual necessário para o envio do projeto", esclarece. 

Para os responsáveis, a expectativa é que, uma vez aprovado, ele represente um avanço na avaliação psicológica infantojuvenil brasileira, não apenas pela atualização metodológica, mas pela capacidade de refletir, de forma mais fiel, quem são os jovens brasileiros hoje.

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*Estagiária sob supervisão do subeditor Gabriel Felice

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