Dilemas da adolescência
Livro de psicanalista e professora da UFMG aborda as diferentes nuances do adolescer
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A cena é comum em consultórios, salas de aula e jantares de família: adultos atarantados, tentando decifrar o enigma das novas gerações por meio de siglas. Millennials, gerações X, Y, Z. Enquanto o mercado tenta rotular comportamentos para vender identidades, a realidade dos jovens brasileiros foge de definições simplistas. O que significa, afinal, "adolescer" em um país onde a transição para a vida adulta pode ser tanto um luxo prolongado quanto um rito de passagem abreviado?
Esta é a provocação central de "Adolescências Plurais" (Editora Perspectiva), novo livro de Andréa M. C. Guerra. Psicanalista e professora da UFMG, a autora mergulha no que chama de "geopolítica da diferença" para denunciar um apagamento histórico: a ideia de que existe uma adolescência única e universal, pautada pelo modelo eurocêntrico e de classe média.
A história oficial da adolescência, como hoje é conhecida, é uma construção recente. Do "Emílio" de Rousseau, no século 18, ao surgimento do termo teenager, no pós-guerra estadunidense, a imagem do jovem rebelde, porém protegido, tornou-se o padrão ouro.
Mas Andréa Guerra questiona. Ao olhar para o mapa global, ela identifica sintomas distintos: no Japão, os hikikomori isolam-se em seus quartos por meses, recusando o contato físico. Nos EUA, a violência explode em tiroteios em massa, reflexo de uma crise de sentido. No Brasil, jovens indígenas de etnias como Ianomâmi e Iecuana apresentam taxas de suicídio três vezes superiores às da população urbana, acuados pelo embate entre tradição e ausência de futuro.
Esses fenômenos mostram que o "adolescer" não é apenas um processo biológico — a puberdade —, mas uma construção social profundamente afetada pela cor da pele, classe social e localização geográfica.
Uma das teses do livro surge das pesquisas de Andréa Guerra sobre adolescência e infração no Brasil. Enquanto as classes abastadas vivem o que a psicanálise chama de "moratória" — um tempo de espera, estudo e experimentação onde o erro é permitido —, os jovens das periferias enfrentam um curto-circuito.
A escritora relata casos de jovens que, aos 14 anos, assumem o comando financeiro de suas casas a partir do tráfico de drogas. Eles pulam a etapa simbólica da adolescência para vestir um semblante de vida adulta, por necessidade material. "As crianças pobres são iniciadas no trabalho doméstico em torno dos cinco anos. Aos 10, já estão nas ruas e, aos 14, são cooptadas pela criminalidade", pontua a autora.
Essa realidade cria um paradoxo: ao mesmo tempo em que a classe média vive uma "adultescência" (o prolongamento da juventude e a recusa em assumir responsabilidades), o Estado e a sociedade tratam o jovem periférico como um adulto pronto para o punitivismo, ignorando que seu corpo e psiquismo ainda estão em plena mutação.
Ela aponta o século 21 como o da "diversidade inclassificável". Hoje, o adolescente é autor da própria história em uma horizontalidade nunca antes vista, mas também está vulnerável a novas formas de controle, vindas do mundo virtual (algoritmos e inteligência artificial), da "patologização" (tentativa da indústria farmacológica de transformar a angústia adolescente em diagnóstico tratável com pílulas), e da percepção de corpos não-binários (quebra das hierarquias de gênero e busca por novas formas de habitar o próprio corpo).
ALERTA
"Adolescências Plurais" é um chamado para que pais, educadores e profissionais da saúde abandonem a crença de que a própria experiência de vida serve de medida para o outro. Para Andréa Guerra, o caminho para um acompanhamento mais ético passa por reconhecer que o "Sul Global" produz modos de existir que não cabem nos manuais europeus. É preciso oferecer aos jovens não apenas nomes e diagnósticos, mas o direito ao tempo, o direito de serem sujeitos do próprio desejo.
Se antes a escola e a família eram bússolas de autoridade, hoje o que se vive é o que Andréa chama de "desamparo generalizado". Em um mundo no qual as tradições perderam a força e a inteligência artificial é vista com desconfiança, os jovens buscam novas lógicas de sobrevivência. "A evasão escolar e a crise institucional refletem a falta de um projeto civilizatório comum. A saída, contudo, não está em restaurar uma autoridade autoritária, mas em observar o que os jovens estão criando sozinhos", reflete.
Para a psicóloga clínica com formação em sexologia, Cynthia Dias Pinto Coelho, essa transição é inerentemente paradoxal. Segundo ela, o sofrimento surge da ambiguidade entre o desejo de autonomia e o medo de perder o porto seguro.
"É comum o adolescente querer os ‘direitos de gente grande’, mas com as ‘obrigações da criança’. Vemos jovens que já namoram, mas ainda dormem com seu ursinho de pelúcia, ou que jogam videogame com o mesmo interesse com que assistem a filmes pornôs", observa Cynthia.
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Se no passado fantasiar era uma ferramenta para lidar com as falhas dos pais, hoje esse espaço é invadido por um fluxo ininterrupto de informações. Cynthia aponta que a busca pela perfeição nas redes sociais tem gerado um adoecimento psíquico severo, manifestado em transtornos alimentares e dismorfia corporal, entre outros problemas.
SEXUALIDADE
O impacto é particularmente crítico na construção da sexualidade. "Cria-se a ilusão de que o sexo será sempre impecável, mas o encontro real em nada se parece com a construção dos filmes. O resultado é um misto de frustração e insuficiência. Recebo jovens com dificuldades de ereção ou anorgasmia por causas puramente psicológicas, frutos dessa expectativa inatingível", revela a especialista.
Cynthia também percebe uma dificuldade crescente dos pais em exercer a autoridade necessária para esse amadurecimento, muitas vezes por medo de serem rejeitados. Para a psicóloga, poupar o filho da frustração é, na verdade, deixá-lo vulnerável. Ela defende que o "não" é uma ferramenta fundamental para a resiliência.
"Os pais que temem ser odiados tornam-se reféns dos filhos. O amor é exigente e a introdução do limite é o que permite o desenvolvimento de um psiquismo saudável. A vida não poupará esses jovens da dor, e é em casa que eles precisam aprender a lidar com as perdas."
Quando o sofrimento ultrapassa o limite do suportável, ele costuma se materializar no corpo. Cynthia destaca que a autolesão e o isolamento são pedidos de socorro que não podem ser ignorados sob o pretexto de serem coisa da idade (veja o quadro).
É o adolescente, salienta a especialista, fala através de palavras, mas sobretudo através de comportamentos, que muitas vezes passam despercebidos por pais, professores e colegas. "Essa fase não é uma fase a ser vivida com tranquilidade, em função de suas múltiplas transformações e demandas, mas quanto mais segura e amada a pessoa se sente desde a infância, maior a chance de ela caminhar bem nesse processo de amadurecimento da vida."
Para Maria Cristina Barbosa Campos, de 47 anos, esse processo é assistido de perto — e, por vezes, em silêncio. Cuidadora de idosos, ela hoje se depara com o vigor e as complexidades da filha Mariana, de 14 anos. A mudança física de Mariana foi abrupta, um estirão que transformou a menina de 12 anos em uma jovem de 1,68 metro. "Ela cresceu e emagreceu de uma vez, quase me alcançando", conta a mãe.
Mas esse novo corpo não vem sem o peso do olhar social. Aluna de balé, Mariana sente a cobrança estética da dança. "Ela vê a magreza como forma de aceitação. Olha as fotos de quando era mais pesada e não gosta. No balé, existe essa pressão pelo corpo definido”, relata Maria Cristina.
O amadurecimento biológico caminha junto a uma independência de pensamento que fascina e, ao mesmo tempo, desafia a mãe. Mariana já tem as próprias percepções sobre política, comportamentos e sexualidade, lidando com naturalidade tanto com as relações heterossexuais quanto homoafetivas, que observa entre os colegas.
No entanto, essa construção de si muitas vezes acontece atrás de uma tela. Para Maria Cristina, o celular é o gatilho de um distanciamento afetivo comum na contemporaneidade. A adolescente obedece horários e compromissos, mas quando chega em casa, fica no telefone. Se o assunto na sala não interessa, ela se retira, conta a mãe. "Não acho esse uso do celular positivo. Gostaria que ela ficasse mais com a família. Eu tento me aproximar, deito com ela, mas às vezes não tenho sucesso. Ela fica mais agressiva, respondona."
RESILIÊNCIA
Maria Cristina confessa que a maternidade durante a adolescência exige um tipo diferente de resiliência. "Pode me dar 50 idosos para cuidar, mas não me dá cinco meninos. Aprendi a ficar em silêncio. Às vezes, se eu falo algo, ela briga, e eu nem sempre tenho paciência. A gente não é perfeito."
Mariana conta que essa tem sido uma fase difícil. "Além de tantas mudanças, muitas vezes a gente não sabe lidar com a gente mesmo e tem que lidar com as outras pessoas. Preciso aprender a ter mais paciência."
A adolescente diz que "ainda não tem ideia sobre o que vai ser quando crescer" - seu gosto pesa para a arte. "Ao mesmo tempo em que penso no futuro, ainda preciso esperar um pouco mais, para entender como será minha personalidade e o que eu vou querer de verdade", diz, ela que, por outro lado, está tranquila quanto a seus relacionamentos. "Crescer é difícil."
Apesar dos conflitos, a filosofia da casa é baseada na responsabilidade - Mariana tem o irmão Lucas, de 10 anos. "Meu lema é que eles são livres para escolher, mas tudo tem consequência", aponta Maria Cristina. Mariana faz terapia quinzenalmente há mais de um ano, um suporte para navegar as águas turvas de uma fase em que, como diz a mãe, "o círculo de amizade é o mundo", mas o porto seguro ainda precisa ser o lar.
Alguns sinais acendem o alerta
>> Comportamento retraído (isolamento excessivo no quarto e falta de interação social)
>> Mudanças bruscas no apetite e episódios de insônia
>> Marcas na pele que tentam concretizar uma dor emocional abstrata.
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Serviço
• Livro: Adolescências plurais
• Autora: Andréa M. C. Guerra
• Editora: Perspectiva
• Páginas: 128 páginas
• Preço: R$ 44,90
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