Em meio a protestos de servidores que reivindicam melhorias nas condições de trabalho, em equipamentos e na gestão de recursos, uma equipe do governo de Minas realizou uma vistoria surpresa no Hospital de Pronto-Socorro (HPS) João XXIII, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, na manhã desta segunda-feira (23/3). A ação teve como foco verificar as condições estruturais e de atendimento da unidade.

Acompanhado de representantes da unidade e de sindicatos, o governador Mateus Simões (PSD), percorreu três setores do hospital: o subsolo, as farmácias e o pronto-atendimento (PA). Segundo ele, a visita teve como objetivo conferir de perto problemas já noticiados. “A gente tem assistido na imprensa a situação física do hospital. Então meu primeiro objetivo foi vir aqui ver a estrutura física”, afirmou.

Durante a vistoria, o governador relatou ter encontrado falhas consideradas graves, como infiltrações no subsolo, problemas de climatização nas farmácias e superlotação no pronto-atendimento, com pacientes sendo atendidos fora dos leitos.

"Visitei o subsolo onde tem problemas estruturais graves, visitei também as farmácias que têm um problema de climatização que a gente precisa resolver e fiz uma visita ao PA onde a gente continua tendo paciente sendo tratado no corredor”, disse.

Simões destacou que a visita não foi previamente agendada para evitar interferências no cenário real da unidade. “Eu não avisei antes, porque eu acho que o aviso dá sempre aquela possibilidade de não me mostrarem o que está acontecendo”, afirmou. Ele acrescentou que decidiu incluir representantes sindicais na inspeção. “Ao invés de eu ir embora, eu entrei e pedi para eles acompanharem a minha visita”.

Após a vistoria, o governador se reuniu com representantes dos trabalhadores e assumiu o compromisso de apresentar, em até 10 dias, um cronograma de obras para reestruturação do hospital. “A gente precisa garantir, em um prazo de até 10 dias, um cronograma de obras do que precisa ser feito aqui”, disse.

Simões também prometeu retorno formal sobre as reivindicações apresentadas: “Saí daqui com nove temas que foram trazidos para mim pelo sindicato e assumi o compromisso de voltar com manifestação formal do governo em até 10 dias. Então, até o fim da semana, tanto a Seplag [Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão] quanto a Fhemig [Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais] vão ter retornos”.

Entre os pontos imediatos, Simões citou ajustes no tíquete-alimentação e o fim do desconto durante férias. “Já assumi o compromisso de não fazer mais o desconto da alimentação em período de férias”, afirmou.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Rede Fhemig (Sindpros), Carlos Martins, disse que a reunião ocorreu após abordagem dos servidores durante a chegada do governador. “Para nossa surpresa, não sabíamos que ele viria. Quando vimos ele entrando, os trabalhadores o abordaram pedindo para ele uma reunião”, relatou.

Segundo Martins, uma comissão acompanhou a vistoria e apresentou as demandas da categoria. “Apresentamos para o governador a nossa pauta de reivindicação que motivou a realização da nossa greve. Falamos das dificuldades que estamos enfrentando nas condições de trabalho, na questão econômica”, disse.

De acordo com o sindicalista, apesar do prazo de 10 dias para respostas, a abertura para o diálogo foi importante. “Desde que eu sou sindicalista, somente o Antonio Anastasia (2010-2014) e o Fernando Pimentel (2015-2018) que já haviam sentado nestes momentos de greve com a gente para estar discutindo os encaminhamentos dos trabalhadores", contou.

A categoria deve decidir, em assembleia que será realizada agora a parte da tarde, os próximos passos do movimento. “Vamos agora realizar uma assembleia geral dos trabalhadores para tomarmos essa decisão”, disse Martins.

Referência em atendimento de urgência e trauma em Minas Gerais, o Hospital João XXIII enfrenta, segundo trabalhadores e governo, problemas estruturais e de funcionamento. Para Simões, a situação exige intervenção imediata. “Ele é o principal hospital de trauma de Minas Gerais e não pode mais ter infiltração, e problema de climatização. A gente vai trabalhar com isso”, afirmou.

Histórico de caos

Casos antigos mostram que os problemas apontados por Simões não são de hoje. Segundo a diretora executiva do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde de Minas Gerais (Sind-Saúde/MG), Neuza Freitas, as falhas estruturais no Hospital João XXIII e em outras unidades da rede estadual se repetem há anos, sem solução definitiva.

“Esses problemas não começaram agora e muito menos não são só no João XXIII, são em todos os hospitais da rede Fhemig”, afirmou.

Entre as principais deficiências apontadas estão problemas recorrentes de infraestrutura, como infiltrações, alagamentos e falhas no sistema de climatização. “Nós temos problemas sérios estruturais, como alagamento dos setores, a questão de ar-condicionado e nós não temos solução. A cada dia surge um problema novo. Quando eles dizem que estão resolvendo o problema, o outro já está aparecendo”, disse.

Segundo ela, situações semelhantes já foram registradas em outras unidades da rede, como os hospitais João Penido, em Juiz de Fora, e Alberto Cavalcanti, na capital mineira.

A superlotação também é um problema generalizado. De acordo com a sindicalista, o cenário se agravou após o fechamento do Hospital Maria Amélia Lins. “Pacientes atendidos no corredor não é de hoje. Piorou muito mais depois que fechou o hospital Maria Amélia Lins”, disse. A unidade, segundo ela, funcionava como suporte para cirurgias e ajudava a reduzir a pressão sobre o João XXIII. “Ele realizava 300 cirurgias ao mês”, destacou.

Outro ponto crítico é a falta de profissionais e a alta rotatividade nas equipes. “Nós temos problema com a falta de pessoal”, disse Neuza. Ela afirma que a constante troca de trabalhadores, especialmente na enfermagem, compromete a continuidade do atendimento e sobrecarrega as equipes. “A gente está percebendo uma rotatividade muito grande que complica a questão da assistência”.

Neuza também relembrou episódios recentes que evidenciam falhas recorrentes na rede, como problemas com alimentação hospitalar, onde cerca de 200 trabalhadores do Hospital Júlia Kubitschek passaram mal, e que apesar das denúncias, não houve soluções definitivas. Segundo ela, a precariedade das condições impacta tanto os profissionais quanto os usuários do sistema, que acabam enfrentando demora no atendimento e situações de superlotação.

Para ela, a solução passa por medidas estruturais mais amplas e diálogo direto com os trabalhadores da linha de frente. “São problemas infinitos. Ele tem que buscar é conversar com o trabalhador, não é com a gestão não, é com o trabalhador que está lá na linha de ponta”, afirmou. Enquanto isso, segundo a sindicalista, o cenário segue marcado por sobrecarga, falta de pessoal e insatisfação crescente.

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*Estagiária sob supervisão da subeditora Tetê Monteiro

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