A morte recente de um jovem, que caiu numa galeria pluvial em Sabará e foi encontrado em Jaboticatubas, arrastado pela enxurrada, me fez lembrar um caso ocorrido em janeiro de 2003. Foi assim: numa noite chuvosa, com ruas tomadas pela água, um homem jogava futebol numa quadra no Bairro Estoril, na Região Oeste de BH. Terminada a partida, esteve num bar com os amigos e, ao caminhar até seu carro a fim de voltar para casa, veio o inesperado. Caiu num buraco na rua e desapareceu.

Dias depois, o corpo foi encontrado pelos bombeiros às margens do Ribeirão Arrudas, na divisa com Sabará. Eu estava no local, fazendo a reportagem aqui para o EM, quando presenciei uma das cenas mais tristes em décadas de jornalismo. Chegou lá um militar que andava à procura do irmão desaparecido. Mesmo que o corpo estivesse inchado, sem roupas, machucado pelo percurso, logo foi feita a identificação. A emoção foi forte.

Foram 17 quilômetros de extensão percorridos entre galerias, mostrando que há uma “cidade invisível” sob nossos pés, conforme diz o historiador e professor da PUC Minas, Yuri Mello Mesquita, autor da tese de doutorado “Uma mão lava a outra: saneamento básico, política e meio ambiente em Belo Horizonte – 1892-1973. “No subterrâneo, há todo um ecossistema, com os animais (ratos, baratas, escorpiões), muitas nascentes, cursos d’água. E também as redes de esgoto, galerias de águas pluviais”, informa Yuri.

Quando a Comissão Construtora da Nova Capital, chefiada pelo engenheiro Aarão Reis (1853-1936), estava trabalhando nos projetos de BH (inaugurada em 12 de dezembro de 1897), criou um “sistema unitário”, que reunia galerias para escoamento de águas pluviais e também as necessárias ao abastecimento da população e coleta de esgoto. “Havia pouco tempo e dinheiro, e muitos serviços ficaram inacabados. Somente em 1909, o sistema unitário foi abandonado e construídas novas redes. Já a partir de 1960, as antigas galerias foram sendo substituídas gradativamente.”

Em 1913, BH tinha uma população de 42 mil habitantes, e, com o crescimento da cidade (hoje com 2,3 milhões), a prefeitura (PBH) teve que fazer obras sanitárias, “cavoucando os subterrâneos da capital”.


SOB OS PÉS

Os números divulgados pela PBH nos mostram um pouco desse universo. A cidade é banhada por 161 córregos, com 700 quilômetros de cursos d’água. Desse total, há 387 quilômetros ainda em leito natural na malha urbana e/ou em áreas de preservação, 266 quilômetros em canais fechados (galerias) e 47 quilômetros em canais abertos.

Vamos aos nomes de algumas avenidas sanitárias (canais fechados), de um total de 70, nas regionais: Vilarinho (Venda Nova), Francisco Negrão de Lima (Pampulha), Cristiano Machado (Norte), Américo Vespúcio/Bernardo Vasconcelos (Nordeste), Pedro II (Noroeste), Prudente de Morais (Centro-Sul), Mem de Sá (Leste), Franciso Sá (Oeste) e Tereza Cristina (Barreiro).


MUSEU DE CONGONHAS RECEBE RECURSOS...

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press - 28/10/21

Ainda em comemoração aos seus 10 anos, completados em dezembro, o Museu de Congonhas recebe um belíssimo presente. Termo de Compromisso Social firmado entre a Prefeitura de Congonhas e a Vale destina cerca de R$ 25 milhões à expansão do equipamento cultural – recursos viabilizados por meio de patrocínio cultural incentivado, conforme as regras da Lei Rouanet. Elaborado pelo arquiteto Gustavo Penna, o projeto de complementação do museu cria pavimento coberto para o anfiteatro, implantação de uma loja, elevador de acessibilidade, climatização, iluminação museográfica e mobiliário. Contempla ainda a Galeria dos Profetas, espaço expositivo para réplicas em tamanho original das 12 esculturas feitas por Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Por enquanto, há duas delas, dispostas de forma semelhante às originais do adro da Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, reconhecida como Patrimônio Mundial.

...PARA EXPANSÃO E AÇÕES EDUCATIVAS

Conforme as autoridades municipais, os recursos vão contribuir substancialmente para o projeto de retomada das ações de revitalização urbana e turística do Centro Histórico de Congonhas. O projeto prevê ainda reformas pontuais e ações educativas para valorização do patrimônio histórico, acessibilidade cultural e formação de novos públicos. O diretor-presidente da Fundação Municipal de Cultura, Lazer e Turismo (Fumcult), Pedro Cordeiro, diz que a complementação do projeto original do Museu de Congonhas, após dez anos da inauguração, cria condições para a permanência do turista religioso e cultural por mais tempo na cidade, fomentando toda a cadeia turística, da qual fazem parte hotéis, restaurantes, comércio e serviços. O Termo de Compromisso Social firmado entre a Prefeitura de Congonhas e a Vale totaliza investimentos de até R$ 225 milhões em projetos nas áreas de saúde e cultura.

QUE FIM LEVOU?

Novidade neste espaço. A partir de hoje, vamos alternar a “Parede da Memória” com a pergunta “Que fim levou?”, sobre projetos anunciados há tempos e não realizados. E contamos com a ajuda dos leitores! Para começar, lembramos o programa Luz no Patrimônio, coordenado pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult-MG) e Iepha. Como objetivo, requalificar a paisagem urbana e bens protegidos, por meio da conversão das redes elétricas aéreas existentes para redes subterrâneas, além de projetos de iluminação cênica e edifícios tombados. Em maio de 2021, chegou a ser firmado um acordo de cooperação técnica entre Secult, Iepha e Cemig. Mais de 40 localidades seriam contempladas, a exemplo de Catas Altas, aos pés da Serra do Caraça. Segundo o Iepha, o programa segue como prioridade estratégica para valorização do patrimônio cultural e qualificação da paisagem urbana dos núcleos históricos mineiros. Por se tratar de intervenções complexas, que envolvem preservação do patrimônio, articulação com concessionárias e financiamento, a implementação ocorre de forma gradual, com bases técnicas já consolidadas.

CIVILIZAÇÃO E CULTURA

HUGO DE CASTRO MACHADO/DIVULGAÇÃO – 16/12/24

Será realizado na próxima quinta-feira (26), em Pompéu, o 1º Seminário Civilização e Cultura do Centro-Oeste Mineiro. Na programação, palestras, debates sobre o patrimônio e apresentação de trabalhos sobre a história da região. Promovido pela prefeitura local, via Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Turismo, Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e Instituto Histórico e Geográfico de Pompéu, o encontro terá atividades no Centro Cultural Dona Joaquina do Pompéu (foto), que fica na Avenida João Serra Machado, 22, Bairro São José. À frente do seminário, está o presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Pompéu e diretor Municipal de Políticas Culturais, Patrimônio Histórico e Turismo, Hugo de Castro Machado.

VIVA O CIRCO 1

O “respeitável público” tem muito a comemorar ao lado de trapezistas, palhaços, domadores e outros profissionais. O circo de tradição familiar foi registrado como Patrimônio Cultural do Brasil, em decisão do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. Com a deliberação, o bem cultural passa a ser inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão, reconhecimento que confirma a relevância dessa manifestação para a memória, a identidade e a formação da sociedade brasileira. O Conselho foi favorável à inscrição e destacou o papel do circo como referência cultural de relevância nacional, além de sua força na promoção de espetáculos, práticas lúdicas e memória social.

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VIVA O CIRCO 2

Quem nunca chegou a uma cidade do interior do Brasil e encontrou a lona colorida à espera do público? Pois o circo agora reconhecido tem como característica a itinerância, a organização em torno de núcleos familiares e a transmissão oral, entre gerações, de saberes, técnicas, modos de fazer e formas de convivência. Tradição mantida por famílias que, em alguns casos, chegam à oitava geração circense. Vale lembrar que a atividade sob a lona não se resume ao espetáculo: é também trabalho, casa, sustento e modo de vida. Assim, a família ocupa papel central, sustentando a continuidade dos conhecimentos e das práticas que estruturam a vida sob a lona. Vida longa ao circo!

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