teatro São Francisco, em Taquaraçu de Baixo, aguarda elaboração de projetos crédito: Gustavo Werneck/EM/D.A Press
Minas Gerais tem tradição nas artes cênicas – basta ver o Teatro Municipal Casa da Ópera, em Ouro Preto, o mais antigo em funcionamento nas Américas. Desde o século 18, as cortinas se abrem para peças, shows e outras atrações que encantam o público. Em outras regiões do estado, o palco cresce e aparece, como ocorre agora em Simão Pereira, na Zona da Mata, onde um antigo galpão se transforma na primeira sala de espetáculo do município. Serão 180 lugares, fruto de iniciativa da prefeitura com recursos próprios e do governo estadual. A expectativa é de término das obras no segundo semestre.
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“Teremos dois camarins com banheiros para os artistas, palco, coxia, banheiro público, ‘foyer’ (área onde o público aguarda o início da apresentação), copa e bilheteria, enfim, toda a estrutura. Em anexo, haverá uma biblioteca, completando o espaço cultural”, conta o secretário Municipal de Cultura e Turismo, Geraldo Nascimento. Simão Pereira tem cerca de 3 mil habitantes e o objetivo é fomentar atividades culturais no município distante 285 quilômetros de BH.
O outro lado da história está na zona rural de Santa Luzia, na Grande BH, onde se encontra um dos únicos teatros dentro de um curral – isso mesmo! – no mundo. Espaço pelo qual a comunidade de Taquaraçu de Baixo, que fica a 25 quilômetros do Centro da cidade, tem verdadeira paixão, o São Francisco está digno de dó: em completo abandono, tomado pelo mato e de porta sempre fechada. Com as chuvas, a deterioração é inevitável.
Em maio, o Teatro São Francisco completará 71 anos, e recorremos a uma pesquisa do Iepha-MG para conhecer o início. Tudo começou quando, então seminarista, o padre Raimundo Nonato, hoje com 94 anos, passava férias na casa de seu irmão, Expedito Costa Moreira, na fazenda da família às margens do Rio Taquaraçu. Ali, ele resolveu reunir alguns jovens para fazer teatro.
Como não havia lugar onde se pudesse improvisar um palco, Raimundo Nonato, sempre muito criativo, sugeriu a cocheira do curral de Nelson Gonçalves Marques, o “Tio Nelson”, que consentiu em ceder o espaço. Assim, o palco foi montado onde prendiam o bezerro, e a plateia ficava onde tiravam o leite das vacas. Já no lugar onde o leite era desnatado foi improvisado um camarim para as mulheres.
A primeira apresentação ocorreu em 31 de maio de 1955, com a peça “Mundo velho tá sem Quintino”. O sucesso foi tal, que a comunidade formou um mutirão para construir uma casa de teatro. “Tio Nelson” doou o terreno, os materiais de construção, desenhou a planta e, como era o único que conhecia um teatro, acompanhou a obra mesmo depois de ter ficado cego. Após um ano de trabalho, o Teatro São Francisco estava pronto, mas, com as primeiras chuvas, desabou. No entanto, o desejo de representar continuou firme, e Nelson e comunidade fizeram construção mais resistente, só ocorrendo reformas em 1992 e no fim da década de 2000.
Procuramos a Prefeitura de Santa Luzia, que enviou a seguinte nota: “O setor de arquitetura da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo concluiu a atualização do projeto arquitetônico de restauração do teatro, etapa fundamental para a continuidade do processo de recuperação do imóvel. No momento, o processo se encontra na fase de elaboração dos projetos complementares de engenharia, necessários para o completo detalhamento técnico da intervenção e a instrução das etapas subsequentes de aprovação junto aos órgãos competentes”.
Após a conclusão desses projetos e obtenção de aprovações institucionais, “o Município dará prosseguimento às etapas necessárias para viabilização da execução da obra, incluindo a captação de recursos destinados à restauração do equipamento cultural.”
Estamos aqui de olho para ver, finalmente, o teatro em funcionamento.
aguinaldo ferry/fundação cultural Carlos drummond de andrade/DIVULGAÇÃO
CERTIFICAÇÃO ESTADUAL PARA CIDADES...
Treze municípios mineiros, dos 251 que apresentaram Declaração de Acervos Culturais (DAC), conseguiram pontuação máxima e, portanto, certificação concedida pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult-MG). São eles Campo Belo, Divinópolis, Formiga, Itabira, João Pinheiro, Limeira do Oeste, Machado, Oliveira, Ouro Preto, Paracatu, Poços de Caldas, Pouso Alegre e Uberlândia. O reconhecimento atesta que cada um mantém acervos organizados conforme diretrizes técnicas estabelecidas pelo estado, incluindo ações de conservação, acesso público e desenvolvimento de atividades culturais e educativas. Instrumento que integra o Programa ICMS Patrimônio Cultural, a DAC fortalece a política cultural local e reafirma o compromisso do município com a preservação de sua história.
...QUE PRESERVAM ACERVOS CULTURAIS
A certificação da DAC é concedida aos municípios que cumprem exigências mínimas estabelecidas pela Secult para cada tipo de acervo. Entre os critérios avaliados, estão organização técnica do acervo conforme normas e diretrizes estaduais, adoção de medidas adequadas de preservação e conservação, garantia de acesso público e promoção de atividades culturais e educativas para valorizar o patrimônio no contexto da comunidade e outros. Em Itabira, terra do poeta Drummond, o atendimento simultâneo às exigências em três equipamentos públicos – Arquivo Público Municipal, Biblioteca Pública Municipal Luiz Camillo de Oliveira Netto (foto) e Museu de Itabira – foi determinante para a cidade alcançar reconhecimento completo. “O município cumpriu com os requisitos de manter a política cultural e de memória”, diz o superintendente de Bibliotecas, Museus e Economia da Criatividade da Secult, Bruno Tripoloni Balista.
Raphaella Dias/UFMG/Divulgação
PAREDE DA MEMÓRIA
Felizmente, a Casa da Glória, um dos tesouros de Diamantina, está livre, por enquanto, de ser um retrato na parede da memória. Foi concluída pela Universidade Federal de Minas Gerais a primeira etapa do restauro, iniciado em 2022, com financiamento do Departamento de Estado norte-americano. Em 1979, a edificação do século 18 foi incorporada como órgão complementar do Instituto de Geociências/UFMG, após o conjunto arquitetônico ser adquirido pelo então Ministério da Educação e Cultura para sediar o Instituto Eschwege que, posteriormente, passou a se chamar Centro de Geologia Eschwege. No espaço são ministrados cursos na área de geologia de campo e mapeamento geológico para estudantes. Já foram concluídos biblioteca e alguns dormitórios. A previsão é de que os trabalhos sejam finalizados até 2027, com a reabertura da visitação ao público. Até o fim das obras, o governo norte-americano deverá investir mais de R$ 1,2 milhão, valor proveniente do Fundo de Embaixadores para Preservação do Patrimônio Cultural.
CARTOGRAFIA DO ACASO
Em cartaz até 12 de abril, no Centro Cultural UFMG, em BH, a exposição “Cartografia do acaso”, do artista e pesquisador Gui Orzil. Ele mostra um conjunto de fotografias que tem como característica principal a construção narrativa atravessada pelo acaso, o deslocamento e o tempo. Formado em artes visuais com habilitação em escultura, Gui Orzil diz que as imagens emergem do acúmulo de seus registros de afeto e memórias, “com fragmentos do trajeto colidindo e se entrelaçando em único enquadramento”. A exposição fica aberta de terça-feira à sexta-feira, das 9h às 20h, e aos sábados, domingos e feriados, das 9h às 17h. O Centro Cultural UFMG fica na Avenida Santos Dumont, 174, na Praça da Estação (Praça Rui Barbosa).
RODADAS DO PATRIMÔNIO
No próximo dia 25, o Iepha-MG realiza dois encontros simultâneos das Rodadas do ICMS Patrimônio Cultural – em Governador Valadares e Poços de Caldas – para orientar e conversar com os gestores locais sobre as diretrizes do programa. Esse, importante destacar, incentiva a preservação a partir do repasse de recursos aos municípios com políticas públicas estruturadas de proteção e promoção de seus bens culturais. Os encontros também funcionam como espaço de esclarecimento sobre atualizações do ICMS Patrimônio Cultural. O presidente do instituto, Paulo Roberto Nascimento, estará presente nos dois encontros. Em Poços de Caldas, vai participar o diretor de Promoção, Saulo Carrilho.
Mineiro de São Gotardo, Luiz Sérgio Fonseca Soares lança “Risco de lápis, Risco de cal – Ou o livro do Vavá, do Bernardo e do Serginho”, com ilustrações de Carol Rosseti. São muitas histórias, memórias e casos envolvendo futebol, educação e sonhos vida afora. A obra custa R$ 70 e está à venda na Livraria da Rua (Rua Antônio de Albuquerque, 913, Savassi), em BH.