“Uma parte de mim se foi com eles”, diz Wellerson Catalunha, voluntário na Casa de Repouso Pró-Vida há sete anos. O imóvel desabou na madrugada de quinta-feira (5/3) com 29 pessoas. Doze morreram no local.
Catalunha contou que ficou sabendo do desabamento às 5h da manhã, quando o familiar de um dos internos ligou para ele. Emocionado, afirma que a tragédia deixou um vazio em seu peito. Ele relembra que às segundas e sextas-feiras, uma psicóloga ia ao local fazer atividades com os idosos, como rodas de conversas e recreação.
Também comemoravam datas como Natal, Dia das Mães e dos Pais. Nas redes sociais , há registros do último dia das bruxas, com os residentes fantasiados com chapéus de bruxa e dentaduras de vampiros.
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Memórias que vão durar para sempre
A primeira pessoa que Wellerson conheceu na casa de repouso foi Sônia Maria Morgado, que tinha 77 anos quando morreu no desmoronamento. O voluntário conta que a ex-técnica em enfermagem era uma das pessoas mais independentes com quem já teve contato e, mesmo aposentada, seguiu cuidando dos amigos no lar.
“A Sonia era uma simpatia, uma pessoa uma das mais independentes do Brasil, queria fazer tudo sozinha e gostava de ajudar todo mundo. Era uma pessoa muito guerreira mesmo, sobreviveu até a um câncer de mama”, lembra.
Sônia era muito amiga de Argentina Mendes da Cruz (88), uma das últimas vítimas a ser retirada dos escombros. Segundo Wellerson, elas andavam juntas para todo lado na casa de repouso: “Sempre me abraçava apertado, era muito carinhosa com todo mundo. E era muito amiga da Sônia, as duas eram muito apegadas, uma onde uma tava, a outra tava atrás. Era muito bonitinho de ver. Ela quem ensinou a dona Sônia a fazer fuxico”.
Catalunha ainda conta que Maria Lourdes dos Santos Miranda, mais conhecida como Lurdinha, também gostava de ajudar os amigos, assim como Sônia. Já Maria Ordália de Jesus (69) era mais reservada, mas era só chamá-la de “pitucha” que abria um sorriso e se acabava de rir.
Maurilio Eduardo Fernandes Mol (69), já era mais extrovertido: “Quando eu chegava, ele saía de onde estava para vim me dar um abraço. Ele conversava com todo mundo, não fazia diferença de ninguém. Sempre um carinhoso”.
Amor pela terceira idade
A vida de Wellerson sempre esteve permeada por idosos importantes na sua vida. Ele revela que quando sua avó morreu em 2018, ele encontrou conforto no trabalho voluntário.
Em 2019 ele resolveu transformar essa experiência no livro “Minha vida mais 60”. “Têm muitas histórias que merecem ser resgatadas. Porque os idosos, infelizmente, muitas vezes, eles são deixados de lado, então eu resolvi organizar essas histórias para mostrar que o idoso tem valor", afirma.
Depois ele lançou outros três livros, todos com a temática voltada para a terceira idade, e um quinto programado para ser lançado em abril. Neste último, ele conta a história de Sônia, que planejava ir ao lançamento do livro com sua irmã.
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“Ela me contou a história dela todinha, desde a infância. Na última terça-feira ela falou: ‘Tá chegando o lançamento, né?", e eu confirmei: "Tá tudo certinho". Nunca imaginava que ela ia falecer antes do lançamento, isso mexeu muito comigo. Foi muito repentino”, disse, emocionado.
