LEGENDÁRIOS

Com ingressos a quase R$ 2 mil, Legendários pretendem dobrar presença em MG

Entre fé, trilhas e filantropia, o crescimento barulhento do movimento Legendários gera esperança de um lado e preocupação para outro

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Criado em 2015 na Guatemala, por Chepe Putzu - um pastor guatemalteco da Igreja Casa de Deus -, o movimento cristão masculino Legendários tem ampliado sua atuação no Brasil e em outros países. Em Minas Gerais, o número de integrantes gira em torno de 18,5 mil homens, distribuídos em diferentes núcleos regionais chamados de "pistas", que já totalizam em 24, com presença em 16 cidades mineiras. A previsão até o fim de 2026 é que o agrupamento esteja em um total de 30 cidades no estado. Segundo dados divulgados pela própria organização, atualmente há cerca de 189 mil participantes em 24 países, sendo mais de 110 mil no Brasil.  

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Trilha de quatro dias

A proposta reúne experiências de trilha na natureza, atividades de espiritualidade e iniciativas de voluntariado social. A principal atividade realizada por eles é chamada de TOP (Track Outdoor de Potencial). Trata-se de uma experiência de imersão de cerca de 96 horas, praticada em áreas naturais. Durante quatro dias, os participantes caminham em trilhas, onde escalam as famosas "montanhas" dos Legendários e participam de momentos de reflexão e convivência em grupo. Segundo a organização, o uso de celulares não é permitido durante esse período.

Legendários fazendo trilha
A proposta reúne experiências de trilha na natureza, atividades de espiritualidade Divulgação/Legendários

De acordo com Hamilton Marciano Jr., diretor do LGND Squad, os morros escalados funcionam como uma metáfora para desafios enfrentados na vida cotidiana. "Ao mencionarmos 'montanhas', sugerimos uma conotação no sentido figurado, referindo-se aos problemas a serem enfrentados. A partir disso, sugerimos a transposição desses obstáculos, de forma a gerar esperança e um homem mais consciente, tanto dos seus compromissos com Deus, com a família, com a sua igreja local, mas em especial com a sociedade ao redor onde ele vive", explica.

A seleção é feita apenas entre inscritos homens - a partir de 18 anos e submetidos a entrevista -, que devem apresentar atestados médicos que comprovem suas condições físicas regulares para atividades de trilha.

O acesso à experiência ocorre mediante pagamento de uma taxa. O valor varia entre R$ 1.600 e R$ 1.800, dependendo da região. Segundo o Marciano, a taxa cobre despesas relacionadas à estrutura da programação, como alimentação, transporte, logística e segurança durante os quatro dias de programação. As atividades são realizadas em áreas naturais, incluindo propriedades privadas autorizadas ou áreas ambientais.

Legendários
O movimento se apresenta como um espaço de formação voltado exclusivamente para homens Divulgação/Legendários

Participação exclusiva de homens

O movimento se apresenta como um espaço de formação voltado exclusivamente para homens. A proposta, segundo seus organizadores, é reforçar valores como responsabilidade familiar, fé cristã e compromisso social.

Os participantes costumam se referir ao coletivo como "manada", termo usado internamente para representar os vínculos formados entre os membros.

"A ideia é formar homens que saibam amar, servir e proteger, principalmente a família, o casamento e os filhos", afirma o diretor.

A exclusividade masculina, no entanto, é um dos pontos mais controversos do movimento. Questionado sobre a ausência de mulheres nas atividades principais, Marciano afirmou que o projeto foi concebido especificamente para homens, com o objetivo de “resgatar” responsabilidades que, segundo ele, teriam sido abandonadas ao longo do tempo.

Na mesma explicação, ele afirma que as mulheres participam apenas de forma indireta, em um grupo paralelo formado por esposas de integrantes. Segundo o organizador, o papel delas seria oferecer apoio espiritual enquanto os homens realizam as atividades do movimento. "Enquanto o homem sai para batalhar, para vencer e superar desafios, as esposas abençoam e cobrem espiritualmente", disse.

Olhar acadêmico sobre a masculinidade e papéis de gênero

Em contradição à lógica da “manada”, a doutora e pesquisadora em gênero e misoginia Bruna Camilo, critica a forma como esses papéis são definidos dialoga com uma visão tradicional de família. Segundo ela, discursos que colocam o homem como provedor e a mulher como responsável pelo cuidado doméstico se inserem em uma lógica patriarcal histórica, na qual a autonomia feminina tende a ser vista como uma ameaça.

“Quando as mulheres passam a questionar o casamento, a maternidade ou o próprio papel social, esses movimentos podem interpretar isso como uma crise da masculinidade”, afirma. “Uma mulher não é menos mulher por não ter um homem ao seu lado. Ao meu ver, os Legendários querem uma família a todo custo, mas esse custo vem todo da mulher”.

Na análise da pesquisadora, iniciativas voltadas exclusivamente para homens, especialmente quando associadas à ideia de reconstrução de identidade masculina, podem reforçar essa percepção. Ela observa que práticas simbólicas, como a experiência nas montanhas, podem ser interpretadas como rituais de reafirmação de virilidade e pertencimento. “Existe uma narrativa de superação que também passa por resgatar um modelo de masculinidade associado à força, à liderança e à centralidade do homem na família”, explica.

Bruna Camilo também chama atenção para o papel da religião nesse processo. Segundo ela, a construção de uma masculinidade ligada à proteção e à liderança pode, em alguns casos, pressupor a ideia de uma mulher dependente. “Quando se fala em proteger a família, é importante questionar que tipo de relação está sendo proposta e se há espaço para a autonomia das mulheres dentro desse modelo”, diz.

A pesquisadora ressalta que o fenômeno não é isolado e deve ser analisado dentro de um contexto mais amplo. “Existem diversos grupos, com diferentes abordagens, mas muitos dialogam com uma percepção de que a masculinidade está em transformação. O importante é compreender como essas narrativas impactam as relações sociais e de gênero”, afirma.

“É preciso tomar cuidado com grupos misóginos, tanto os explícitos quanto os implícitos”, continua. “A masculinidade em crise, como ela está, é muito perigosa”.

Saúde emocional

O diretor do LGND Squad afirma participar de ações ligadas à área de saúde emocional. Uma das iniciativas citadas é a participação de voluntários no aplicativo Touch Peace, plataforma de escuta e acolhimento emocional associada ao psiquiatra e escritor Augusto Cury.

Segundo a organização, a ferramenta registrou cerca de 200 mil atendimentos em três meses, com aproximadamente 3 mil voluntários cadastrados.

Legendários
Os participantes costumam se referir ao coletivo como "manada", termo usado internamente para representar os vínculos formados entre os membros Divulgação/Legendários

Ações sociais

O movimento também desenvolve atividades de voluntariado e ajuda humanitária por meio de um grupo chamado LGND Squad. Entre as iniciativas citadas pela organização estão ações realizadas em situações de desastres naturais.

Durante enchentes registradas em Minas Gerais, nas cidades de Juiz de Fora e Ubá, o movimento afirma ter mobilizado mais de 800 voluntários e distribuído cerca de 40 toneladas de doações. Segundo os organizadores, as ações incluíram distribuição de alimentos, entrega de kits de higiene e apoio em atividades de limpeza.

O grupo também relata participação em operações relacionadas a enchentes no Rio Grande do Sul, além de ocorrências como um tornado no Paraná.

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*Estagiária sob supervisão da subeditora Rachel Botelho

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