UFMG inaugura salas de cuidados parentais e fraldários
Espaços oferecem estrutura para amamentação, descanso e alimentação a crianças, visando facilitar a permanência de alunos com filhos na instituição
compartilhe
SIGA
Pela primeira vez em quase 100 anos de história, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) inaugura salas de cuidados parentais e fraldários voltados ao atendimento de estudantes, servidores e visitantes que precisam cuidar de crianças durante atividades acadêmicas.
Os espaços oferecem estrutura para amamentação, descanso e alimentação a crianças, em uma iniciativa voltada a facilitar a permanência de alunos com filhos na universidade.
Leia Mais
A iniciativa representa um avanço nas políticas de permanência estudantil da universidade, especialmente para pessoas que conciliam a vida acadêmica com a maternidade ou paternidade. Os novos espaços foram criados com recursos provenientes de emenda parlamentar da deputada federal Dandara (PT), no valor total de R$ 200 mil, e oferecem estrutura para cuidados básicos com crianças pequenas e buscam tornar o ambiente universitário mais acessível para famílias.
Neste primeiro momento, cinco salas passam a funcionar na capital mineira na Faculdade de Educação (FaE), na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), no Instituto de Ciências Biológicas (ICB) e no Instituto de Ciências Exatas (Icex) e na Faculdade de Medicina. A universidade prevê ainda a criação de uma sexta sala até o meio do ano, na Escola de Farmácia.
Para a diretora de Ações Afirmativas da UFMG, professora Elisângela Chaves, a implantação desses espaços representa um marco institucional no reconhecimento das demandas de estudantes com filhos. “A implementação desses espaços como política institucional acontece pela primeira vez. Já existia uma sala de amamentação na Faculdade de Medicina, mas salas de cuidados mais amplos, como as que estamos inaugurando agora, são inéditas na universidade”, afirma.
Os ambientes foram planejados para atender diferentes necessidades do cuidado infantil. Cada sala conta com cadeira de amamentação, berço, tapete para brincadeiras no chão, cadeira de alimentação e mesa infantil, além de brinquedos. O objetivo é permitir que mães, pais ou responsáveis possam cuidar das crianças em um espaço adequado enquanto permanecem no campus.
A estudante de Ciências Biológicas da UFMG Thamyris Dias, de 24 anos, avalia que os novos espaços representam um passo extremamente importante para a permanência de pais e mães na universidade. A jovem é mãe de uma menina de 4 anos e, segundo ela, a ausência de estruturas adequadas já trouxe dificuldades em momentos em que precisou levar a filha para o campus.
“Algumas vezes precisei trazer minha filha para a universidade e não tinha lugar para trocar a fralda. Eu precisava procurar um banheiro, apoiar as coisas na mochila e improvisar. Quando não tinha o trocador portátil, precisava cobrir o lugar de colocar as mochilas com roupas para ela não ficar na pedra gelada”, relata Thamyris.
De acordo com a diretora, o modelo adotado busca garantir flexibilidade de uso, permitindo que mais de uma família utilize o espaço ao mesmo tempo. “Pode ter, ao mesmo tempo, uma criança sendo amamentada, outra brincando no chão, uma dormindo no berço ou sentada na cadeira de alimentação. O espaço foi pensado para comportar diferentes formas de cuidado”, explica.
Luiza Campos, mãe de uma menina de 9 anos, também conta que a criação das salas representa um avanço na construção de um ambiente universitário mais acolhedor para quem vive a maternidade durante a formação acadêmica. A estudante de pós-graduação em Genética, de 29 anos, relata que o fraldário pode ajudar diretamente na permanência de estudantes que precisam conciliar estudos e cuidado com os filhos.
“Ter um local adequado para amamentar, trocar fraldas, acolher a criança e até estudar enquanto ela está junto faz muita diferença na rotina. Além de trazer mais conforto e segurança para a criança, também contribui para que estudantes que são mães ou pais consigam dar continuidade às suas atividades acadêmicas”, destaca Luiza.
Além das salas de cuidados parentais, a universidade também implantou 21 fraldários em diferentes unidades acadêmicas e espaços institucionais. Os trocadores estão distribuídos na Escola de Arquitetura e no Museu de História Natural e Jardim Botânico, em Belo Horizonte, e no campus regional de Montes Claros (MG), no Norte do estado. A expectativa é ampliar essa estrutura ao longo do ano, com a instalação de mais dez fraldários em outras unidades.
O acesso aos espaços será organizado pelas próprias unidades acadêmicas, que poderão definir regras de funcionamento e formas de utilização. Em alguns locais, por exemplo, será necessário realizar cadastro ou solicitar a chave para usar a sala. Em outros, o acesso poderá ser mais direto. "As unidades vão fazer ampla divulgação sobre isso para a comunidade saber como acessar", afirma a Elisângela.
Segundo ela, a orientação institucional é que os espaços sejam utilizados por qualquer pessoa que esteja no campus com crianças. “A ideia é que pais, mães ou responsáveis que estejam na universidade participando de alguma atividade possam usar as salas para cuidar das crianças”, destaca.
A criação desses ambientes responde a uma demanda crescente da comunidade universitária. Atualmente, segundo dados da política de assistência estudantil da UFMG, ao menos 372 estudantes que recebem algum tipo de benefício para permanência na universidade se declaram pais ou mães.
Para a universidade, oferecer estrutura mínima de cuidado infantil dentro dos campus é uma estratégia importante para garantir que esses estudantes consigam permanecer e concluir seus cursos. “A Universidade espera facilitar as condições para que estudantes com filhos possam dar continuidade e tenham êxito em suas atividades acadêmicas.”, afirma a diretora.
As novas salas fazem parte de um conjunto mais amplo de ações voltadas à permanência estudantil. Além dos espaços de cuidados parentais e dos fraldários, está previsto a criação de três áreas de convivência destinadas a reuniões de coletivos estudantis e atividades de estudo.
Esses ambientes estão sendo instalados na Praça de Serviços do campus Pampulha, na Faculdade de Direito, localizada no centro de Belo Horizonte, e no Instituto de Ciências Agrárias, no campus Montes Claros. Os locais vão contar com mobiliário, computadores e estrutura para encontros e atividades coletivas.
Além disso, segundo a universidade, parte do recurso foi direcionada à melhoria da infraestrutura do Centro de Convivência Negra da universidade, do Espaço de Convivência Indígena e da sala de reuniões da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae).
A iniciativa também está alinhada à Política Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes) e ao Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) da UFMG, que prevê ações voltadas à inclusão e à permanência de estudantes com diferentes perfis e necessidades.
Paralelamente à criação dos espaços físicos, a universidade discute a implementação de uma política institucional de parentalidade. A proposta busca ampliar o conjunto de medidas de apoio a estudantes que têm filhos, incluindo mecanismos acadêmicos que permitam conciliar estudos e responsabilidades familiares.
Entre as iniciativas já existentes está o Regime Acadêmico Especial para Permanência (Raep), voltado a estudantes de graduação que enfrentam situações como gestação ou cuidado de filhos pequenos. O programa prevê medidas como flexibilização de trancamento de matrícula e ampliação do tempo para conclusão das disciplinas.
Segundo Elisângela, a construção dessas políticas tem ocorrido de forma coletiva, envolvendo os estudantes e comunidade acadêmica. "Isso é um processo gradual, que vem sendo construído de forma coletiva, com o apoio de um grande coletivo de mães na UFMG, que envolve estudantes, servidoras técnicas administrativas e professoras, para que possamos ter condições melhores, principalmente no que diz respeito à inclusão e à redução das dificuldades que as mulheres, principalmente, têm para estar estudando ou trabalhando na universidade”, concluí.
A expectativa é que a experiência com os primeiros espaços estimule a criação de novas salas nos próximos anos, ampliando a rede de apoio a famílias dentro da universidade e reforçando políticas de inclusão no ensino superior.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
*Estagiária sob supervisão